Seu Joaquim

Seu Joaquim

O episódio em que conheci seu Joaquim não foi dos mais alvissareiros para o início de uma amizade – ao contrário, talvez fosse muito mais indicado a começar uma bela briga, daquelas inúteis como a maior parte costuma ser. E a culpa, de fato, não seria nem dele nem minha, mas dos dois sem tirar nem por. Tudo por conta de uns sapos.

As horas do verão costumam nos enganar nos trópicos, de sorte que me é difícil precisar onde andavam os ponteiros – penso que lá por cinco ou cinco e meia da tarde. Uns fiapos de calor ainda no ar mas a brisa já escorrendo pelo meio do casario lá naquela cidadezinha em que costumo passar uns tempos. Andava a passo contado sob as marquises dos prédios antigos perto do centro, em direção à Avenida 7 – cujo nome é por certo mais largo que ela. Umas meninas brincavam de correr ao lado, chilreando os ruídos da infância, e não lembro de ter avistado sequer um automóvel rompendo a tessitura das coisas.

A calçada, quadriculada em ladrilhos de cimento, estava limpa, e foi sobre ela que vi pela primeira vez seu Joaquim. Melhor dizendo, parte dele, as botas. Sobre elas, umas calças fora de moda limpas mas largadas dentro das quais balançavam pernas finas de quem anda mais parado do que andando. Todo o conjunto era magro, quase seco, e a boca de lábios finos se movia discretamente atendendo a pensamentos que iam e vinham sem muito sair do lugar – havia algo de manhoso e de cismas nela.

Os olhos escuros tinham muita energia concentrada, quase explicando a boca de movimentos cismados. Barba de dias e uns fios de cabelos brancos que não viam pente contornavam a cabeça inclinada para baixo, seguindo com atenção meticulosa o movimento de alguma coisa no chão. Havia um bicho pequeno, menor que a metade de um polegar, esmagado na calçada, mas o olhar reto de caçador de seu Joaquim olhava um pouco mais à frente, onde outro animalzinho de dimensão semelhante fazia movimentos irregulares tentando alcançar o fresco das pedras da avenida. Era um pequeno filhote de sapo. Quando entendi o que seu Joaquim estava prestes a fazer era tarde: seu pé direito já lá tinha transformado o bicho em um montinho de nada esmagado. A boca resoluta do homem, meio torcida em um bico, assoprava satisfação.

Fiquei puto nas calças, querendo esmurrá-lo, e antes mesmo de perceber que era exato o que eu faria, estava a seu lado, ameaçador, começando um discurso daqueles, num tom daqueles, sobre o absurdo que ele fizera.

“Mas que caralhos está fazendo?”, a raiva gritou por mim, me dando tempo de entender que aquela não era a forma certa de tratar o assunto. “Por que o senhor fez isso?”, voltei a perguntar, mais polido.

“É só um sapo”, ele resmungou, descontente com alguém o estar observando. Girou e tomou o rumo do meio do quarteirão, de onde eu tinha vindo.

“Não, são dois, e os dois mortos”, corrigi. “Sabe o que fez? Um único deles come cinco bilhões de insetos durante a vida!”

Ele parou o passo e me olhou os olhos pela primeira vez. Havia surpresa e confusão em seu olhar:

“Cinco?”

“Cinco bilhões. E eles estão morrendo, sabe-se lá porque, talvez por causa das botas ou do veneno nos insetos ou de qualquer coisa. Sumindo.”

“Bilhões?”, seu Joaquim perguntou, a surpresa ainda na cara, quando já chegávamos a sua casa, do outro lado da rua. Era uma edificação antiga, de porão, com uma escadinha que saía quase da linha da calçada para chegar à porta dois metros acima. “Cinco bilhões”, ele repetiu. Seus olhos brilhavam o número gigante feito de números.

Ele subiu a escada e segui pela calçada uns passos, mas a surpresa de seu Joaquim me seguiu. Pensava que talvez ele nem soubesse o significado de milhares de milhões, e se tivesse um papel à mão teria escrito o monte de zeros à direita de um belo e sinuoso cinco para mostrar quão longe aquilo ia. Não me sentia nada confortável com o que fizera – e não, não estou falando apenas de meu primeiro impulso de esmurrá-lo –, de maneira que quando desci de meus devaneios estava outra vez à frente da casa dele. Seu Joaquim me convidou a subir e tomar um café.

“Cinco, não é?”, ele disse enquanto servia um copinho redondo de metal, de ágata e sem asa, direto de um bule retirado do fogão a lenha com umas brasas renitentes brilhando à brisa.

Tive de confessar que inventara aquele número. Ele me olhou primeiro com pasmo, depois com decepção e por fim com um misto de raiva e vergonha, e precisei interrompê-lo quando começava a lançar um protesto, antes que ambos puséssemos nossa curta mas interessante nova possível amizade a perder. Disse a ele que não sabia quantos insetos afinal um sapo comia por hora ou por vida, e que os tais cinco bilhões era um número verdadeiro mas de outra história – a quantia de insetos que bandos de morcegos de um lugarejo no México devoram em uma única noite. O que eu queria dizer a ele era da importância desses seres todos, de cada um deles e de todos, e pedi sinceramente que me desculpasse – só havia usado aquele número para impressioná-lo.

Ele me observava em silêncio. Então se moveu até o fogão e me serviu outro gole de café.

Prometi a ele que investigaria a questão da alimentação dos sapos – pelo menos daqueles sapos comuns ali nas ruas da cidade. Seu Joaquim sorriu. Sei que me desculpou – e sei que também o fiz pelos bichos esmagados. O número correto, seu Joaquim, é bem menor que eu havia dito – mas nem por isso menos impressionante. São 540 mil insetos ao longo da vida de cada sapo.

Seu Joaquim, que mais posso lhe dizer? Então, um abraço e obrigado pelo café. Estava ótimo.

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Sobre Jose Polifonia

O blog do Zé Polifonia não é daqueles em que encontrará novidades e posts todos os dias. As postagens são erráticas justo por seu conteúdo: são pequenos contos, histórias e uma tentativa de romance escrito via web. Talvez sejam textos aborrecidos para se ler em monitor em razão dos parágrafos por vezes longos demais para tela (se é que há isso). Bom, quem vai dizer se são bons para tela (ou não) é você. Ali no twitter há também uns microcontos -em www.twitter.com/josepolifonia.
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