Triumviri Capitales

Em 1992, em uma tarde de sol no final do verão, recebi o telefonema de um sujeito falando espanhol. Ele se expressava de forma cortês mas rápida demais para meu parco conhecimento da língua. Demorei a entender que ele me parabenizava por alguma coisa e, enquanto afinávamos cada qual nosso melhor portunhol, lembrei que um ano antes havia enviado um conto ao Excelsior, então um dos maiores diários do México.

Na época, e já então há mais de dez anos, o jornalão mexicano mantinha um afamado concurso literário latino-americano, e embora eu tivesse inscrito o continho na disputa nem em sonho supunha que a ganharia. Mas o moço explicava – com crescente angústia por nossa dificuldade em nos entender – que, sim, eu vencera o Premio Plural 1991 de Literatura.

A história teve muitos episódios depois dessa ligação, mas o fato é que havia me esquecido dela até que, por acaso, reencontrei há um mês a revista Plural com os ganhadores e seus respectivos textos. Não sei o que dizer do conto. Mas na época aqueles caras eram realmente sérios e devem ter gostado por algum motivo.

A quem se arriscar à leitura, eis aí Triumviri Capitales, conto com uma visão do universo masculino em três períodos da vida:

 

 Triumviri Capitales

 

I.                    Meninos

 

Ele vira o pai abrindo o empoeirado quarto anexo à garagem e seu coração acelerara. Tinha ficado do lado de fora, respirando com angústia, enquanto escutava os ruídos metálicos que vinham da sombra fresca do quartinho. Já sabia que no dia seguinte não precisaria ir à escola. Era quase noite. O céu ainda mantinha alguma claridade mas já não havia sol. Era o melhor horário para saírem, ele e o pai, em direção ao riacho de três palmos de largura que corria próximo à casa deles. O sereno da noite logo começaria a cair, e então seria o momento certo para usar o pesado enxadão de ferro, com cabo de madeira encerada, que o pai agora levava sobre o ombro, à moda dos camponeses, e as duas latas de feijão que ele lavara bem e nas quais fizera alguns furos com um prego.

“Vamos até aquele barranco, não é?”, perguntou ao pai, que apenas o havia chamado para dar uma volta, sem explicar exatamente o que fariam.

“Isso mesmo”, respondeu o pai.

Para ele, aquela resposta era suficiente. O barranco, logo após uma curva do riacho, tinha uma ou duas minas e pingava permanentemente. Acima existia grama e capim, de forma que a terra se mantinha úmida e bem fofa. Haviam descoberto por acaso aquele barranco e, desde então, consideravam-no uma espécie de propriedade particular. Sempre que notava marcas recentes de enxada no terreno, o pai balançava negativamente a cabeça e dizia que algum espertinho havia maculado a criação deles.

O garoto o olhava com seriedade e seria capaz de jurar que o pai mataria alguém se o visse removendo minhoca dali. Eram as melhores que já haviam encontrado, e nenhuma delas nunca tinha menos de dez centímetros de comprimento e de pelo menos três milímetros de espessura. A terra era bem escura. O pai pediu que ele se afastasse e ergueu o enxadão, jogando-o a seguir com força contra o mato e a terra. Abriu um sulco do tamanho da lâmina e a vegetação saiu praticamente intacta, grudada na terra. Havia boas minhocas, entranhadas nas raízes, que o garoto retirou com cuidado. Não queria machucá-las e, portanto, fez um leito de terra no fundo de cada uma das latas. Em seguida começou a colocar dentro as minhocas. Uma delas tentou escapar saltando furiosamente, e o menino a recolocou na lata.

“Não”, disse o pai. “É uma minhoca brava.”

O pai explicara que minhocas bravas afugentavam peixes. Para provar, tinha cortado uma ao meio e dera as metades para o garoto cheirar. Era ácido.

Depois de encher completamente as duas latas, saíram na noite em direção à casa. O capim estava gorduroso com o sereno e machucava a perna do garoto, que mais tarde olharia os cortes longitudinais com satisfação.

Se alimentaram bem na hora do jantar e, enquanto o pai quedava-se silencioso fumando um cigarro, a mãe foi para a cozinha com a carne assada e algumas folhas de papel usadas para embrulhar pão. O menino permaneceu sentado imitando os gestos que o pai fazia ao fumar. Dali onde estava também podia acompanhar a movimentação da mãe. Ela abrira quatro pães pequenos, cada qual com seus quinze centímetros, e os lambuzara com manteiga. Agora estava cortando fatias grossas de queijo amarelo. As fatias grossas e delgadas foram colocadas sobre as metades dos pães. A seguir ela cortou outras fatias, desta vez da carne assada, e as deitou da mesma forma. Cada sanduíche foi fechado com auxílio de um palito de madeira e, por fim, embrulhado.

O menino não tinha fome e cansou-se de olhar. Seu nome era Salmo e ele gostava desse nome. Antes não o compreendia, mas uma tarde, após a escola, perguntara para a mãe de onde nascera o nome. A mãe era muito bonita e pensou um pouco, sorrindo. Depois disse a ele que era um símbolo. Salmo queria dizer salmão, um peixe grande e forte. E também era o nome de alguns poemas da Bíblia, escritos pelo rei Davi.

“Aquele que jogou a pedra no gigante?”, perguntou o menino.

“Pode ser”, disse a mãe, que de fato não sabia.

O menino entendeu que a resposta era afirmativa e se imaginou forte e poderoso.

Salmo foi deitar-se antes que qualquer outra pessoa e, quando ouviu o pai passando ao lado de sua cama, soube que já era quase manhã. Ele empurrou os cobertores com os pés e ergueu-se sentindo o frio cortante da madrugada. Antes de deitar, Salmo tinha separado uma calça de brim e a camisa de lã castanha, além de um par de botas, e deixara tudo isso mais ou menos empilhado no chão, ao lado da cabeceira da cama. O sol ainda não nascera e os olhos de Salmo ardiam um pouco, mas o pai já tinha preparado o café, o leite e algumas torradas. Salmo foi até lá fora buscar as minhocas. Tinham colocado as latas dentro de pratos com água, de forma que as minhocas não fugissem, e algumas delas debruçavam-se na borda das latas, pendendo como fugitivos que averiguam antes a rota da fuga. Duas estavam irremediavelmente perdidas, afogadas, e o garoto pensou que breve começariam a se desfazer.

A rua estava fria. O pai de Salmo lamentou que ventasse tanto, mas disse que teriam muito sol e isso tal vez afastasse o vento. Eles andaram em passos rápidos até a estação rodoviária. O pai carregava um bomal de lona às costas, como um expedicionário, e as quatro varas de bambu compridas e as duas curtas em uma das mãos. Salmo levava uma pequena mochila com os lanches e uma garrafa vazia, que o pai trocou por outra cheia de guaraná no bar da rodoviária. Depois eles esperaram que o ônibus azul e vermelho abrisse as portas, sentados em um banco de madeira, e o pai conversou com um homem sobre pescarias. Salmo começou a sentir frio e puxou a gola de lã para cima. Seus dentes tiritaram um pouco. Ele se aproximou mais do pai e sentiu o calor. Mas ainda estava muito frio. O pai de Salmo olhou o relógio, contrariado, e observou que o ônibus atrasava como sempre. Queria chegar ao rio antes que o sol se levantasse, e isso parecia difícil. Mas o motorista surgiu e eles instalaram as varas na última janela do carro, parcialmente para fora, lutando contra a ventania e se preparando para brigar com os peixes.

Quando chegaram no rio as varas estavam geladas. As pontas flexíveis das seis hastes pingavam um pouco na altura do cordão preto, próximo à extremidade mais fina onde se atava a Unha de nylon. O vento praticamente acabara – era menos que uma brisa gelada que subia do vale em direção as faces do garoto e de seu pai. Eles tomaram um declive à direita que levava à parte de baixo da ponte de cimento armado. Antes de entrarem na sombra da ponte, Salmo observou que a neblina desprendida pelo rio tinha reflexos avermelhados. O sol ultrapassara o limite do horizonte, apesar de ainda não visível.

Embaixo do concreto, elevado a seis ou sete metros, o frio picou novamente o rosto do menino. Havia um remanso em que sempre era possível fisgar lambaris de rabo vermelho, mas o pai explicou que não trouxera anzóis pequenos.

“Eu trouxe”, disse o garoto.

O pai olhou detidamente as pequenas peças de aço e escolheu duas. Salmo e ele amarraram os anzóis nas linhas das varas curtas e apertaram, com os dentes, as chumbadas um palmo acima dos anzóis. O pai de Salmo enfiou a mão no bornal e separou um saco de papel pardo. Eles falavam em voz bem baixa e evitavam pisar com força no chão argiloso. A luz do sol estava aumentando. Salmo encheu as duas mãos do milho picado do saco de papel, misturou a quirera a um pouco de farinha de sangue, foi até a margem limosa e jogou tudo na água. Algumas partículas afundaram e outras tantas continuaram a flutuar. A correnteza suave espalhou as migalhas em círculos, mas nenhum peixe apareceu. O pai de Salmo plantou, com dois golpes secos e rápidos, as extremidades anteriores das varas nas margens, cuidando que as linhas caíssem ao lado de alguns aguapés.

Depois eles saíram dali e entraram no mato espesso à esquerda. Havia uma trilha que seguia em direção a um grupo compacto de árvores e outra que enviesava para uma praia de dois metros. Salmo, que ia à frente, titubeou e escolheu a segunda. Quando chegaram novamente na margem, o pai mostrou a água.

“Não há vegetação alguma”, disse ele. “Os peixes não teriam como viver em um lugar como esse.”

Os dois voltaram atrás e rumaram  para as árvores. A trilha minguava. Após uma curva à esquerda, ela desapareceu. O pai segurou Salmo pelo ombro e tomou a dianteira. Estava com o facão de quatro palmos na direita e distribuía golpes para ambos os lados, abrindo caminho. Andaram assim durante quinze minutos. Salmo ofegava quando o pai apontou uma curva aguda do rio, embaixo de árvores que avançavam os galhos em direção à água. O chão era duro e tinha pouca vegetação rasteira.

“Como podemos ter certeza de que não roubarão as varas e peixes?”, perguntou Salmo apontando na direção que supunha ser a da ponte.

“Existe um código entre os pescadores”, segredou o pai, que então estava em pé e parecia tão grande quanto o gigante de Davi. Salmo tinha agachado e massageava as batatas das pernas.

“Como é?”

“Nenhum pescador de verdade jamais põe a mão sobre o material de pesca de outro”, disse o pai. “Isso vale para nós, também.”

“E se a pessoa não souber o código?”

“Nesse caso, não é um pescador.”

“E o que acontece?”

“Fale baixo”, pediu o pai, que abrira o embornal e tirava dele as latas de minhocas, embaladas em papel, e os vidros com anzóis e chumbadas e boias e linhas. “E se não for pescador?”

“Ai não podemos fazer nada”, respondeu o pai. “Mas duvido que alguém que não seja pescador de verdade venha hoje até aqui.”

Então eles ouviram dois estampidos e a seguir outros dois. Salmo sabia que caçavam capivaras naquele vale. Havia uma trilha de excrementos de capivara à sua direita, e na enseada que entraram antes as pequenas bolinhas esverdeadas também estavam espalhadas pelo chão. Não comentaram nada a respeito.

Salmo escolheu uma das varas, que tinha a extremidade afilada já torta, e mediu a linha que amarraria à sua ponta. A linha de nylon era colorida. Tinha segmentos verdes, azuis, vermelhos ou simplesmente transparentes. O garoto aprendera que isso era uma espécie de camuflagem, capaz de tomá-la transparente para os peixes. Amarrou a linha e cortou-a quando ela media o comprimento de uma vara e meia. Escolheu um anzol dourado, com três farpas opostas ao arpão, e depois de atá-lo colocou uma das chumbadas grandes pouco acima. Teve pena da minhoca mas enfiou-a pela extremidade do anzol, e seguir balançou a vara de bambu duas vezes e deixou a linha cair entre os redemoinhos que o rio formava à frente.

A água era funda ali e ele não teve dificuldade para manter a linha tensa e a chumbada acima do leito. Seu pai se adiantara vários metros rio acima. Salmo não podia vê-lo. O sol já ganhara a céu que, sobre a neblina, era azul. Salmo ficou feliz por não estar na escola.

A correnteza puxava por vezes a linha para a frente e para a direita, entortando a ponta da vara, mas o garoto sabia muito bem diferenciar aquilo de um fisgão autêntico. Manteve-se concentrado. Depois de alguns minutos enfiou a mão no saco de farinha de sangue e jogou um punhado na água. Observou para onde ela ia. Salmo levantou a vara e, depois de olhar a minhoca intacta, jogou a linha a favor da corrente, onde a quirera afundava rodopiando. O chão úmido gelara suas pernas. Ele se ergueu.

A primeira beliscada foi fraca. Ele notou que a linha se esticara um pouco contra a força da água, e puxou ligeiramente a vara nesta direção. Então o peixe mordeu com força e inclinou a ponta da vara quase que até a água. O garoto deixou que ele fizesse isso e em seguida exerceu uma leve pressão contrária. O peixe voltou à carga e ele afrouxou a pressão, para depois retomá-la com um pouco mais de energia. Aí a linha ficou frouxa. Salmo a experimentou movendo a mão que sustentava a vara de pesca. O peixe voltou a puxar. Foi quando o garoto decidiu que, na outra extremidade, havia alguém cansado. Deu um tranco breve contra a corrente e puxou a vara para cima rapidamente. Pode ver o peixe erguendo-se da água. Era um belo piau de quase meio quilo. Suas listras negras brilharam e ele soltou-se do anzol. Tudo que o menino quis foi pular na água e nadar atrás do peixe. Mas simplesmente enganchou outra minhoca e jogou-a no mesmo ponto à direita.

Ainda era bastante cedo. Muitos pássaros cantavam entre as árvores quando um bando de maritacas, em formação militar, passou voando sobre o rio. A linha colorida estava no lugar certo, envolvida por redemoinhos. Salmo sentiu o cheiro do rio e aspergiu mais um punhado de farinha. Depois ergueu a linha e o anzol brilhou na luz do sol. Enquanto colocava outra isca, Salmo escolheu um ponto ainda mais à direita e lançou a linha. Arriscava-se a perdê-la nas raízes das árvores e troncos podres do fundo do rio, mas pensou que valia a pena. A ponta da vara entortou imediatamente e ele deu linha. Era um peixe nervoso que ziguezagueava em todas as direções. Salmo não sabia como fisgá-lo. Esperou que o peixe mordesse melhor a isca e elevou um pouco a vara. Lá embaixo alguém protestou deixando-se levar pela água e, a seguir, nadando para a esquerda. Salmo acompanhou o movimento para, subitamente, deslocar a vara em sentido oposto. Ergueu-a a seguir, com movimentos rápidos, e viu um brilho de muitas cores abandonando o rio.

Certo de que o peixe desta vez estava preso, o garoto balançou a vara e fez com que sua carga viesse à margem. Então agarrou o peixe próximo à cabeça e cuidou de desatrelar o anzol. Era um mandi bandeira colorido, com trinta centímetros. O anzol fisgara bem no fundo de sua boca, e era difícil retirá-lo. Salmo apertou o peixe com força, atrás das guelras, e forçou a linha em movimento rítmico.

A mão esquerda do menino, que segurava o peixe, ardeu. Os dois compridos bigodes do animal, dotados de felpas, estavam praticamente enrolados em seu pulso. A terra ficou manchada de pontinhos escuros e Salmo, apertando os lábios, puxou bruscamente o peixe e arremessou sua cabeça escamosa contra o chão. Repetiu muitas vezes o gesto e colocou, depois, a mão ensanguentada no rio. Então cortou a linha com o canivete e amarrou um novo anzol em sua ponta.

No final da tarde, quando ele e o pai se dirigiram ao acostamento da estrada, tinham oito bons peixes no viveiro de arame. O pai abanou a mão para ônibus e Salmo só acordou quando chegaram na cidade. O menino levava o viveiro e esperava que algum amigo os encontrasse pelo caminho.

“É aí que mora a professora Solange, não é?”, perguntou Salmo indicando uma casa térrea ao lado de uma praça.

“É”, disse o pai.

“Ela é linda, não é?”

“Claro que sim.”

“Acha mesmo?”

“Acho que você tem razão”, respondeu o pai.

Salmo olhou a porta da casa e sonhou que ela seria aberta naquele instante, e então a professora o pegaria entre os braços e os dois ficariam abraçados muito tempo.

“Você gosta dela?”, perguntou o pai.

“Muito”, falou Salmo, e a porta não se abriu.

 

II. CAMPOS FLORIDOS

 

A parte frontal do bar era dominada pelas bombas de gasolina e pelos caminhões. Havia uma distância de pelo menos trinta metros dali até a avenida, e toda a extensão apresentava-se coberta por borra de óleo diesel, parafusos, grãos de cereais caídos das carrocerias mal cobertas e pedaços de estopa. A norte ficava o limite da cidade. Os campos estavam floridos de minúsculas miríades rosadas nascidas do capim plantado para o gado. No final da tarde, quando o sol descia sobre os morros, toda a superfície ondulava. Eles talvez imaginassem o mar, ainda que considerando a comparação falha e absurda — o braço mais próximo do Atlântico ficava a setecentos quilômetros da mesa que ocupavam.

Então subitamente era noite, após um longo e doloroso crepúsculo mitigado de pássaros pequenos e do ruído dos automóveis na avenida. Um dos três rapazes, cansado de esperar, levantou-se.

“Querem mais cerveja?”, perguntou aos outros dois.

“Cicuta”, respondeu o mais baixo.

“Ar”, disse o outro, gordo e rosado como os capinzais. “Ar.”

“Sim ou não?”, insistiu o que estava em pé.

“Certo”, suspirou o menor.

“Por que precisamos beber todos os dias e depois sair vendo as ruas dançando à nossa frente?”, perguntou o gordo olhando o outro afastando-se.

“Não precisa ficar aqui se não gosta.” “Eu não disse isso. Fiz apenas uma pergunta.”

“Por que alguém precisa fazer alguma coisa na vida?”, o garoto tomou o resto da caneca e olhou em direção ao interior do bar. “Tem um cigarro?”

“A pergunta é justamente esta”, volveu o gordo empurrando o maço sobre o tampo de metal da mesa desmontável.

“Ora, acha que estaríamos aqui se alguém tivesse a resposta?”

“Acho que estaríamos mortos.”

O primeiro aquiesceu com a cabeça e pegou um cigarro. Rolou-o entre os dedos e bateu a mão no bolso da calça. Um ruído tamborilado indicou os fósforos.

“Penso”, pontuou com o gesto teatral de acender o fósforo, aproximá-lo da extremidade do cigarro e aspirar a fumaça, “que somos os únicos nesta cidade que falam tanto enquanto bebem. Os outros ficam quietos. Já é bastante ter o que beber.”

“Existem mais bares aqui que em qualquer outro lugar.”

“É o que resta às pessoas”, concordou o primeiro.

O rapaz que se levantara equilibrava duas garrafas e três novas canecas geladas. Aproximou-se observando bem o degrau que antecedia a plataforma das mesas. Estava bêbado.

“São apenas caminhoneiros”, o gordo fez um gesto que abrangeu todas as mesas vizinhas.

“E no resto da cidade?”

“Quem se preocupa em saber?”, mirou as garrafas que chegavam. “Não faz diferença que sejam professores ou gerentes de banco ou desocupados.”

“Como nós”, atalhou o que fora buscar suprimentos.

“O que?”

“Desocupados.”

“É isso”, disse o menor.

“E”, repetiu o da cerveja.

Ficaram os três em silêncio. Uma carreta de quatro eixos ergueu uma nuvem de pó ao deixar o posto. O rádio do bar tocava música vagabunda.

“Quando formos três sujeitos velhos”, recomeçou o gordo.

“Iiiii.”

“Que foi?”, o gordo empurrou a caneca para o lado e abaixou os olhos. Viu a fila de garrafas com os bicos bojudos embaixo da mesa.

“Nada. Desculpe”, disse o da cerveja.

“Não, você está certo”, o gordo abaixou ainda mais a cabeça.

“Que vai acontecer amanhã?”

“Vamos voltar aqui.”

“Certo. E depois? E daqui a um ano?”

“O Rudge deve saber”, murmurou o gordo. “Ele foi o primeiro.”

“Não sei não”, o rapaz deu uma boa baforada.

O garoto que se levantara ajeitou-se na cadeira. Parecia incomodado.

“Um dia, cada um de nós vai estar na sua casa olhando uma garrafa e se perguntando a mesma coisa. Mas aí não vai haver a quem perguntar. Então o choro de uma criança quebra o silêncio da sala.”

“E o cara levanta e esquece o que estava pensando”, completou o gordo.

“E esquece a vida”, continuou o primeiro.

“Vocês acham”, interrompeu o que se chamava Rudge, “que estão falando alguma coisa muito importante? Ontem conversamos sobre o mesmo.”

“Sempre conversamos sobre a mesma coisa”, considerou o da cerveja.

“Por que nada muda nesta cidade?”, disse o gordo.

“A culpa deve ser dos políticos.”

“Você, Rudge, gosta de repetir o que seu pai diz.”

“As vezes. Tem razão. Tem mesmo.” “Também faço isso, por vezes. Mas qual é o problema?”, quis saber o gordo.

“Eles nunca nem sequer se perguntaram. Esse é o problema. Estão vivendo a bosta da vida deles sem preocupação, esse é o problema.”

“Não sei se é preciso ter preocupação”, Rudge ponderou.

“Alguém que vive como uma alface devia se preocupar muito.”

“Aí os bares estariam ainda mais cheios.”

“Vou ter dois filhos”, disse o gordo, “e um emprego decente e um salário bom de verdade e uma mulherzinha gostosa e uma úlcera. E só.”

“Já pensou nisso a sério?”, o da cerveja serviu os três canecos.

“Claro. Por isso sei o que acontecerá.” “E se você se negar?”

“Qual seria a vantagem? Nenhum filho, um emprego mediano e algumas putas no fim de semana? Mudou o que?”

“Acho que preciso ir”, disse Rudge.

“Querem mais cerveja?”, o outro perguntou.

“Ar”, disse o gordo.

“Um dia, acontece a todo o mundo, vamos cansar de beber”, garantiu o de cabelo escuro, levantando.

“Quem diz isso?”

“Minha mãe”, ele deu de ombros e foi em direção ao balcão.

“Você acredita?”, Rudge apoiou o peso da cabeça no punho fechado.

“Não.”

“Nem eu, nem ele. Mas pode ser verdade.”

“Depende”, considerou o gordo, “do motivo pelo qual estamos aqui.”

“Acho que é para ficarmos bêbados.”

“Isso é verdade. E que mais?”

“Para imaginar que as coisas são diferentes do que são.”

“Acredita que dá certo?”

“Se isso não der, que outra alternativa temos?”

“É uma cidade de merda.”

“Em um lugar como esse, só os idiotas não bebem.”

 

III.          HOMEM

 

Os homens precisam de guerras, pensou enquanto se barbeava, logo cedo, no banheiro cheio de vapor. O rádio de pilhas estava ligado sobre a tampa do vaso. Quando não há guerras, os homens se sentem fracos e tementes a Deus, e passam a criar ideias, sobre os fins, refletiu observando o queixo ainda azulado sob a espuma. Os fins, enumerou de si para si, os fins podem ser o fim dos tempos, o fim dos autores, o fim da história e o fim da revolução sexual e o fim do prazer de ser homem.

Então ele se cortou ao lado da orelha direita e soltou um palavrão. Gostou do som de sua voz e enfileirou outros quatro ou cinco. Se cessam as guerras, imaginou, que emoções verdadeiras sobram para a humanidade? Pode-se reconstruir um país devastado por terremotos, mas não há nisso o heroísmo de refazê-lo após os bombardeios. Ele olhou o rosto quase sem creme e passou as costas da mão em sentido ascendente sobre a face. Não estava bom. Balançou o spray de espuma, sentindo o cheiro do gel liquido, para depois espumar novamente o rosto.

Os homens pensam que há algo errado com a evolução e a cultura quando as grandes guerras, que mobilizam centenas de milhares de mártires estúpidos, deixam de acontecer por muito tempo, disse em voz alta. As pequenas revoluções e as escaramuças de fronteiras são flertes e não merecem palavras, observou, mas sobre os sangramentos de alta monta falta bastante a dizer. É preciso fazer isso quando as feridas cicatrizaram tão profundamente que nada mais encima da pele as recorda.

Talvez o tempo, disse novamente em voz alta, talvez o muito tempo seja vinte anos. Provavelmente os homens fiquem doentes e apáticos e cheios de culpa e sem força se deixarem de se matar por períodos tão longos. Os úteros começam a se tomar moles e geram crianças afoitas que nada sabem do medo verdadeiro, e elas por sua vez crescem e já não querem abandonar a casa de quem as gerou e, por fim, são tão fracas, tão tolas, que nada têm em comum com a humanidade, a humanidade verdadeira. Quem sabe o que seria dela sem as guerras?, pensou, sentindo-se absolutamente só.

Ele olhou para o aparelho de barbear azul e aproximou a dupla lâmina de aço vagabundo da parte superior dos lábios, puxando um resto de espuma branca. Olhou-se no espelho. O rosto parecia mais jovem. A lâmina dupla estava próxima aos lábios. Ele a levantou para a frente dos olhos e a trouxe bem próxima do esquerdo — o mais perto que conseguia mantendo-se no direito de focalizá-la. Tinha resquícios de pele, de cabelo e de espuma, além de pontos incipientes de ferrugem. Jogou-a no lixo atrás de si observando pelo espelho a parábola azul descrita no ar.

Quando as bombas explodem, imaginou, a humanidade se transforma em pequenos respingos de cabelo, pele, sangue e miolos – muitos miolos. Quando elas param, porém, os homens que se livraram de ser atomizados saem das tocas e sabem que nada na natureza detém maior poder que eles. Só outros homens, disse, podem destruir homens. Então os que se entocavam vêem os respingos humanos calcinados e se orgulham da espécie a que pertencem. Depois procuram um bar e contam os semelhantes enquanto tomam cerveja, e muitos são ainda capazes de encontrar um bom motivo para uma briga e, afinal, satisfeitos, matam um ou outro mais fraco ou menos atento, e podem se vangloriar de fazer parte da raça humana, que domina um planeta com punho de titânio e cérebro de silício.

Muito depois, nas calmarias que existem para reorganizar a humanidade e prepará-la para a próxima guerra, os homens podem descrever tudo isso para outros homens que não tiveram a glória de viver o esplendor do poder humano, ensinando-os a arte máxima. E as escolas, disse agora em voz ainda mais alta, e as universidades e as cátedras enchem-se de jovens prontos para a guerra mesmo sem sabê-lo.

A loção deixou brilhantes e avermelhadas suas bochechas lisas. Ele olhou no espelho sua testa alta e quase despida de cabelos. Ele os cortara bem rentes na tarde anterior. A imagem no espelho era ótima. Ele estava belo e atraente. A camisa branca, que colocou olhando meticulosamente cada botão, assentou com perfeição. O resultado não podia ser mel-hor. Era um homem.

Sou, disse em voz grave ao abaixar o trinco e deixar o banheiro. A mulher dele, do lado de fora, o olhou com temor enternecido. Ele a beijou e abriu a porta da casa. A guerra, pensou, precisa voltar.

Quando o encontraram, havia respingos de cabelo, de pele, de sangue e de miolos, muitos miolos, por toda uma extensão de parede.

 

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Sobre Jose Polifonia

O blog do Zé Polifonia não é daqueles em que encontrará novidades e posts todos os dias. As postagens são erráticas justo por seu conteúdo: são pequenos contos, histórias e uma tentativa de romance escrito via web. Talvez sejam textos aborrecidos para se ler em monitor em razão dos parágrafos por vezes longos demais para tela (se é que há isso). Bom, quem vai dizer se são bons para tela (ou não) é você. Ali no twitter há também uns microcontos -em www.twitter.com/josepolifonia.
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