Overlock

Overlock

A grande noite tropical
se estende sobre a cidade
enquanto flocos de neve
ácida
úrica
perfuram imagens de computador
e se instalam em retinas rítmicas
(vai vem vai    direita esquerda   direita esquerda   direita esquerda)
e vem e vai e vemvaivem
como as máquinas de costura
de Cingapura Berlim ou Amsterdam
cosendo o cós do jeans que amanhã
bem cedo
se servirá à mesa da loja de artefatos chinesa
onde trabalha o garoto que agora
jazz
em incerto movimento
de dedo   falange falangeta tendões sutis músculos enervações
tremores e aquela pequena nódoa de sudorese
no ambiente tecnicamente resguardado
de bactérias
e a toda prova mantido
em indiscutíveis vinte graus celsius
por pura perversidade
contra a noite menos real
que se desenrola em nuvens brancas insetos voadores  um que outro morcego
e uma constante brisa morna
que se recorda de si mesma
à falta de mais arguto observador
de seus perfumes de borracha
de ferro friccionado
esmalte sintético ou chocolate
e que por falta ainda de mais nobre objetivo
verifica
o incessante trabalho da construção
do musgo
nas frinchas do ovo que a qualquer instante eclodirá
e a que se chamará “dia”

embora nas imagens do computador do menino
que na loja oferta panos tecidos
em Antuérpia Americana Jaboatão
ou naquele rincão do Casaquistão
já seja dia
e as rodas da história
há muito rodem no sem sentido de sempre
perfurando com pixels
ácidos
úricos
a vida varrida pelo garçom
com sua vassoura de piaçava
para longe da calçada
(onde mesas há pouco levitavam)
e para perto do meio fio
que os carros mal despertos da manhã
cuidarão de assustar em estonteantes velocidades

e se por fim alguém às folhas do ipê observar
no tremor ritmado de verde e branco que lhes é peculiar
talvez nem lembre das máquinas de overlock
atarefadas
ou dos olhos fixos de retinas móveis
do garoto inundado em imagens
de êxtase sofrimento e rancor
de neve cocacola e aniz
da nódoa de suor
crescendo como sonho de padaria
no forno elétrico
onde a gordura borbulha
e a vida segue seu curso
seu curso
seu curso.

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Sobre Jose Polifonia

O blog do Zé Polifonia não é daqueles em que encontrará novidades e posts todos os dias. As postagens são erráticas justo por seu conteúdo: são pequenos contos, histórias e uma tentativa de romance escrito via web. Talvez sejam textos aborrecidos para se ler em monitor em razão dos parágrafos por vezes longos demais para tela (se é que há isso). Bom, quem vai dizer se são bons para tela (ou não) é você. Ali no twitter há também uns microcontos -em www.twitter.com/josepolifonia.
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