1968
Tio Luciano tinha uma bolsa dessas que se esgarçam as fibras nas costuras, coisa talvez do cansaço de suas viagens, do uso como travesseiro que ele gostava de dar a ela, da idade dele e dela e de mais uns tantos motivos que a nós crianças fugia. Mamãe e papai não gostavam que os pequenos falássemos de tio Luciano a estranhos. “Mamãe e papai, não” diz mamãe, sempre observando por sobre nossos ombros, “É papai e mamãe, porque papai vem antes.” Sim, papai e mamãe nos olhavam enviesado quando alguma visita a nossa casa se prometia, já sabíamos bem sabido que o olhar de canto de olho era Ordem de Silêncio a respeito de tio Luciano e fim das brincadeiras sobre o misterioso conteúdo de sua bolsa, a que chamávamos Marmafaz – tanto a brincadeira quanto a bolsa – por conta do Hebreu Marmafaz, o homem que perdeu o rosto em aposta com um antigo Rei, história que tio Luciano nos contava nas noites em que não estava ocupado lendo livros sem capa ou conversando em voz baixa com papai e mamãe na cozinha, todas situações que exigiam trancar a casa e prometermos não abrir a porta da rua nem responder a quaisquer pessoas que batessem palmas ou apertassem a campainha, ainda que fosse algum amigo, nos mantendo naquele silêncio que tínhamos aprendido quando vovô e vovó morreram: um silêncio tão chato que queríamos morrer também, então brincávamos de parar a respiração, ela era substituída por um tipo de palpitação que, aí sim, nos fazia crer que os mortos éramos nós, não vovô e vovó no meio da sala embutidos nos caixões, que a nós lembravam a mesa do almoço de domingo, que substituíam tal e qual, embora um tanto mais altos e sem a guarda das doze cadeiras que a partir de então passaram a ser dez.
A voz de tio Luciano era uma voz grave de piano desafinado, como o que ficava na sala até vovó mandar levá-lo à garagem e cobri-lo com cobertores, isso logo após o irmão de tio Luciano desaparecer tão misteriosamente quanto as viagens de tio Luciano, num ir e vir de mar a que não percebíamos a lógica, mas a nós muita coisa, e talvez a maior parte delas, surgia e sumia sem explicação, e ai de um de nós se aos adultos perguntasse, era um tal de tapa voar que nos perdíamos da razão da pergunta, de forma que logo aprendemos ser melhor inferir que aferir, melhor supor que saber, sonhar que viver. Tio Luciano, de alguma forma, apesar de pertencer ao mundo dos grandes, também pensava o mesmo, visto que por comum preferia o quarto sombreado que mamãe sempre deixava pronto para seu uso, ainda que por meses ele não nos visitasse, do que todo o restante da casa, e se algo marcava suas visitas era o fechado das portas e o cerrado das janelas, com persianas baixadas e cortinas esticadas mesmo se na época das férias, com o verão lá fora e a sombria escuridão abafada aqui dentro, como se estivéssemos no porão do barco de Noé e fôssemos os escolhidos, o par daquela espécie, a sobreviver, já que nem aos amigos mais próximos podíamos admitir entrar pela porta da jangada em que a vida se transformava: era assim feito se ao acordar não acordássemos e o sonho continuasse nos contornando e nos conformando, de maneira que quando voltávamos das férias só não éramos os mais pálidos entre todos pela graça do sol que nos tostava a pele vindo das histórias do Hebreu Marmafaz, ele sempre em busca de seu rosto, furtado pelo Rei, em terras de dias escaldantes e areias traiçoeiras onde o sol mal se punha e logo surgia outra vez, a noite só o instante quando se acorda entre um sonho e outro: e a dizer que não se prefere assim a vida não nos arriscaríamos, ao menos nos tempos durante os quais tio Luciano permanecia entre nós, já que se diferente fosse o resultado seria aquela inexplicável sucessão de sopapos seguidos da explicação de que nos bater doía mais a papai e a mamãe, dependendo de quem distribuísse as bolachas e cintadas, do que a nós que as levávamos.
A meus irmãos e a mim, portanto, restava esperar que tio Luciano se saísse em viagem, deixando a casa outra vez aberta a nós vivos, porque de certa maneira desconfiávamos que há muito ele se encontrava em estado de espírito, daí o cuidado todo de papai e mamãe em escondê-lo, dado que mortos são levados e escondidos abaixo da terra como bem aprendemos quando vovó e vovô morreram e, em nossa primeira visita ao cemitério, os acompanhando ao lado de suas caixas de madeira, vimos que as calçadas ao largo do buraco em que os meteriam a ambos estavam tomadas por homens da polícia, alguns com quepes e medalhas e botões de ouro nos casacos, outros com óculos de vidros tão pretos que a princípio julgamos serem cegos, e decerto que eles cercavam a nós que levávamos nossos mortos para ter certeza de que do chão onde seriam plantados não escapassem, e se tal cuidado se exigia no trato com os mortos não se poderia concluir outra coisa senão o perigo de quem eles se recusassem a tanta terra ter sobre a cara. Também bem sabíamos que papai já desconfiava ou mesmo já tinha antes visto que aos defuntos se reservavam homens bem armados como seguro de que não resolveriam, os mortos, no meio do enterro, se levantar dizendo “pronto, cansamos disso, não queremos o enfado de só a minhoca olhar pelo vitrozinho da caixa, vamos voltar à casa de livros sem capa e silêncios, acabou-se o que era doce e ponto final”, e por conta do risco de os guardas resolverem sacar suas pistolas no caso da desobediência de vovô e vovó é que papai durante a noite colocou sob cada um dos dois as espingardas e balas e revólveres que estavam enterrados no quintal de casa, de maneira que vovô e vovó ficariam desajeitados e talvez com dores nas costas deitados sobre as armas caso mamãe não tivesse voltado da rua com as flores e feito um tapete com elas, cobrindo os aços com cravos e malmequeres e margaridas e poucas rosas, que rosas andavam caras, e a cada flor posta mamãe rezava baixinho a Reza dos Tempos, “existe um tempo para morrer outro para matar, esse tempo há de chegar”, mas mais que isso não sabemos da Reza dos Tempos porque papai nos viu olhando o movimento e desceu a mão na orelha do nosso irmão mais novo, depois nos enxotou a todos com o cinto dobrado voando no ar e nos acertando lambadas que, felizmente, amanhã não teríamos de explicar na escola, já que amanhã seria o dia do enterro de vovô, vovó e das armas todas desencavadas do fundo do quintal.
Tudo isso foi muito antes de tio Luciano voltar de uma de suas viagens com uma mulher tão suja que passava os dias tomando banho e dizendo que nunca mais ficaria limpa, a quem chamávamos de A Mulher dos Choros. Mamãe não gostou daquela visita, e enquanto nos incumbia de aferroar as portas e conferir se cada janela se encontrava bem travada ela até esqueceu da Lei do Silêncio de Quando Tio Luciano Está em Casa e começou uma gritaria com papai e com tio Luciano, e todos ficamos com pena dos dois que não conseguiam responder se estavam loucos ou não porque mamãe não parava de perguntar se eles tinham perdido a cabeça e se sabiam a merda que tinham feito, e concluímos que papai e tio Luciano por algum motivo haviam os dois feito coco sobre A Mulher dos Choros, a explicação era esquisita mas foi de nossa irmã e ela normalmente acertava, e quando nos dias seguintes ouvimos que A Mulher dos Choros não conseguia ficar limpa por mais chuveirada tomasse, então ficou claro que outra vez nossa irmã estava certa, e só faltava entender porque alguém faria de uma moça, uma privada. “Sexo” disse nossa irmã, “sexo explica tudo”, e embora isso fosse possível ela não soube explicar o que seria sexo e, portanto, colocamos o esclarecimento na categoria das possibilidades, uma categoria que só fazia crescer desde que as conversas na cozinha deixaram de ser em voz baixa e podíamos acompanhá-las do quarto, e assim aprendemos que além de óleo, laranja ou arroz também se podia comprar gente, e nisso tio Luciano foi claro quando disse que protegia A Mulher dos Choros porque os amigos dela tinham se vendido, e não entendemos a troco do que uma pessoa compraria outra pessoa até ver um dos amigos da Mulher dos Choros na televisão, papai e mamãe ficaram nervosos, “desgraçado traidor vendido”, o que nos mostrou que a tevê andava comprando pessoas para aparecer nos programas, aliás nos mais chatos, mas A Mulher dos Choros disse a mamãe que ela e papai não sabiam nada, que não tinha como escapar, tio Luciano disse que a bolsa dele tinha a resposta e A Mulher dos Choros gritou “não!” e se entrou no chuveiro para um banho.
Às vezes, durante a noite, éramos acordados pelos gritos da Mulher dos Choros, que como nosso irmão mais novo devia sofrer de pesadelos, mas ao contrário dele, que não tinha ninguém além de nós e de nossos argumentos que não funcionavam para convencê-lo de que era só sonho, A Mulher dos Choros contava com tio Luciano, mal ela começava a chorar já ele se punha a consolá-la e ouvíamos a voz grossa de piano desafinado como uma canção, e ele cantava “ah meu amor ah meu amor ah meu amor”, e então por mais que ela chorasse de medo do pesadelo logo tio Luciano a convencia de que estava tudo bem e ela até ria alto e tio Luciano também, que ele devia ter dito algo engraçado ao ouvido dela, e de manhã ela acordava cedo e contava piadas e ria muito com as piadas, mas mamãe não gostava das piadas e nunca ria.
“Se você não faz, não é minha culpa” uma vez tio Luciano disse a mamãe, e mamãe deixou apressada a cozinha e se fechou no quarto, só saiu à noite, quando papai voltou, os olhos de mamãe miúdos de choro que ela deve ter dormido e sonhado pesadelo, mas papai não a consolou como tio Luciano com A Mulher dos Choros e nem os dois riram alto decerto porque mamãe devia ter chorado enquanto papai estava fora e nem mais lembrava do pesadelo, mas triste ela estava tanto que disse “não agüento mais” e papai respondeu “vou dar um jeito” e mamãe falou que era muito desrespeito além do que desperdício e ainda pior as roupas de rapariga, nossa irmã gostou demais dessa palavra e logo uma de suas bonecas, aquela do estrangeiro que tio Luciano trouxe de uma viagem e que era uma boneca que tinha outras bonecas dentro dela, ganhou o nome Rapariga, mamãe é que não podia saber daquele nome senão era um peteleco na orelha, uma palmada de estalo na bunda, um croque na cabeça, o diabo acontecia se ela calhasse de ouvir nossa irmã com a Rapariga nas mãos a embalando com a música de acalmar pesadelo, “ah meu amor ah meu amor que me morro, ah meu amor que me some o ar que me some tudo que me acaba o mundo”, decerto um sopapo vinha ligeiro na cara se mamãe ouvisse porque aquela música tinha um gosto estranho, punha a nós todos esquisitos aquela música, dava um medo de correr, mas de correr para dentro do medo.
“Mas que roupa de rapariga é essa?” papai perguntou a mamãe, e ficamos com medo de que ele fosse lascar uma cintada nela, a voz dele era voz de sova.
“De rapariga rameira ela se veste, não vê?”e a voz dela também era de sova, então ficamos com medo de que ela desse um tabefe em papai, mas mamãe começou a chorar, nosso irmão mais novo cantou baixinho “ah meu amor meu amor”, papai nem ouviu graças a Deus, nem quem sabe sabia essa brincadeira, ele saiu do quarto dele e dela batendo a porta, entrou no nosso e estávamos todos dormindo quando ele entrou.
Não, ainda não foi nesse dia que A Mulher dos Choros e tio Luciano foram embora. Nem nesse dia nem tão perto nem tão longe desse dia, que esses dias todos parecem sempre os mesmos, como se fosse domingo com chuva se esquecendo de acabar, assim do mesmo jeito que tio Luciano e A Mulher dos Choros se esqueciam que ali não era a casa deles, mamãe dizia isso toda noite a papai e papai com a voz de sono, “vou dar um jeito”, e pode ter sido uma vez só que aconteceu essa conversa mas ela parece um eco que se repete até que perdemos o ano na escola, foi por faltas papai disse, ano que vem se resolve mamãe disse, e então havia uma explicação para aquele domingo que não se acabava dentro de casa, nossa irmã acha que o mundo enlouqueceu e agora há dois relógios, um que funciona o tempo dentro de casa outro que gira mais rápido lá fora, daí papai e mamãe terem se confundido e não nos deixado sair para a escola, pensavam que o domingo continuava olhando o relógio imóvel de casa, “e se o domingo não acabar nunca?”nossa irmã perguntou, já mamãe a olhou assim torto, fez cara de que ia voar peteleco e, não, saiu correndo se fechou no quarto, papai foi atrás dela e tio Luciano acendeu um cigarro, foi A Mulher dos Choros quem respondeu à nossa irmã, “o domingo um dia cansa e se manda”, tio Luciano a olhou meio assim e bateu a mão na bolsa que ia onde ele ia, “se ele não se manda, me mando eu”.
Devia ser perto do natal, nós vimos um reclame na televisão de um porquinho com gorro vermelho e depois ele virou linguiça com gorro vermelho, nosso irmão mais novo acha que esse foi o ano que não teve natal, pode ser mesmo, teve o ano que o natal se esqueceu de aparecer, natal sempre demorava muito mas daquela vez a espera foi tão longa que, quando perguntamos a papai se a árvore com as bolas e as luzes podia ser montada, papai disse rindo que já era época de começar as aulas, o natal tinha passado sem passar, e mamãe disse que éramos grandinhos para entender, “entender o que?” perguntamos, e mamãe disse que faria um bolo e que a escola seria outra e que teríamos nomes diferentes só pra variar, “nomes diferentes?”, escola diferente vida diferente nome diferente papai disse, só pra variar mamãe falou, “vida diferente quer dizer que as coisas que acontecem não vão acontecer mais?” nosso irmão menor perguntou, e sabíamos do que ele estava falando, era de peteleco tapa tabefe, de porrada tropicão cintada, de chinelo que canta e croque na cuca, mamãe riu disse sim, fez o bolo raspamos o tacho tio Luciano cantou uma música chata com o violão da Mulher dos Choros e, de noite, papai e mamãe brincaram de pular na cama no quarto fechado e tio Luciano cantou “ah meu amor” para A Mulher dos Choros e dessa vez ela nem foi ao banheiro tomar o banho que não se acaba mais.
Então mudamos de casa, foi durante a noite a mudança e só levamos livros sem capa e umas roupas e uns brinquedos e umas malas e uns silêncios, que não se podia abrir o bico durante a mudança, e quando de manhã a casa nova era pequena mas legal, tinhas outras casas quase grudadas e ganhamos um cachorro chamado Zorro e nomes novos também, até papai e mamãe e A Mulher dos Choros e tio Luciano eram outras pessoas, só pra variar mamãe disse, o banheiro era do lado de fora e chamava casinha, tinha um buraco escuro no meio do chão e as coisas caíam lá embaixo, puooof, um dia Zorro caiu também e os vizinhos disseram que não tinha o que fazer mas tio Luciano foi com uma corda e saiu do buraco da casinha fedendo com Zorro vivinho nos braços e fomos para o mar tomar banho e foi o único dia que tio Luciano e A Mulher dos Choros saíram para passear com a gente, quando papai chegou os três brigaram mas depois se abraçaram e papai chorou, Zorro também chorou mas só um pouco, mamãe riu muito, foi quando ela começou a rir, “depois ela nunca mais parou” lembra nosso irmão mais novo, “isso não importa”diz nossa irmã, mas bem sabemos que ela mamãe nunca mais parou de rir, ela ri até dando peteleco, que os petelecos tinham parado mas voltaram, e parece um richoro, essa palavra nossa irmã inventou, já vimos no dicionário e não tem richoro, então essa palavra é dela, “quando se inventa uma coisa precisa por uma bandeira na coisa” ensinou o Hebreu Marmafaz em uma das histórias mais bacanas contadas por tio Luciano, de quando Marmafaz inventa A Aposta Perfeita e vai com ela reaver o rosto que perdeu para o Rei, ele e o Rei eram os dois apostadores sem fim, mas quando o pobre Hebreu descarado chega e começa a explicar a aposta o Rei logo percebe a artimanha, percebe que vai perder e – záz! – põe seu nome na invenção de Marmafaz e acaba que, daí em diante, o que era esperança de um vira golpe de outro.
Quando começou a risada? Que risada?
Não, nunca foi risada, por isso nossa irmã inventou richoro, a palavra tem o ri pequeno e o choro maior, mamãe começa a rir e termina chorando, ela repete tanto o começo e o fim que parece uma gargalhada mas não é engraçado, e se alguém escuta o richoro durante um tempo pode escolher o que ouvir, algumas pessoas pensam que ela está chorando outras que está rindo, nosso irmão menor acha que vai pelo que acontece nas ideias da pessoa essa escolha, e nós escolhemos que é rir mas nunca risada, já papai deve achar ainda outra coisa diferente, quando ela começa o richoro papai liga a música bem alto e todos dançamos senão ele fica uma fera e o richoro então é uma cuíca de samba ou uma coruja dessas que aparecem à noite no quintal da nossa casa nova, ao lado do rio fino que corre ali mas não podemos brincar nele que tem doença, os moleques das casas grudadas na nossa brincam e não andam doentes, também tem que eles nasceram perto do rio e nós não, mas quando a música toca alto em casa e nós dançamos na sala, que é a sala e a casa, porque a casa é uma sala e é mais divertido do que ter quarto, então quando a música é alta brincar no quintal nem pensar, é hora de dança e alegria e de mamãe coruja richorando.
Teve o dia que mamãe não conseguiu parar de verdade. Nosso irmão menor acha que ela não queria parar. Foi na tarde em que aparecerem uns homens barbudos e tio Luciano e A Mulher dos Choros saíram para viajar com eles. Mamãe deu tchau da porta e fechou a porta. Aí mamãe começou a rir e quando papai chegou do trabalho nos levou ao hospital e deixou mamãe em casa richorando bem como ela estava, sem roupa nem nada, que depois de nos pegar ela tinha ficado com muito calor, e nossa irmã tinha dormido no meio da sala e da sova e como ela não acordava papai teve de levá-la no colo e de manhã nós voltamos para casa, menos nossa irmã que só voltou dois dias depois, e quando entramos em casa mamãe tinha assado um bolo e estava limpando os livros sem capa, papai fez chocolate quente e tomamos com bolo depois ele saiu para passear com mamãe e trancou a porta de casa com uma corrente para ninguém entrar lá e nem fomos para a escola e um dente do nosso irmão mais novo caiu, papai só não deve ter percebido que também não podíamos sair de casa e ele demorou muito para voltar do passeio com mamãe, tanto que fizemos as coisas ali no chão da sala, no cantinho, cobrimos as coisas com folhas do caderno de nossa irmã, “e se papai ficar bravo e mamãe rir?” nosso irmão menor perguntou, melhor nem pensar, a casinha fica fora e, além disso, Zorro também tinha feito as coisas dele na sala, o dia demorou tanto que ficamos com medo do tempo lento ter voltado, como quando o domingo não ia embora, e nem havia nossa irmã para explicar, brincamos que nosso irmão mais novo era o Zorro, os dois tinham os olhos pintados de preto, papai disse que logo sara mas, de verdade, foi o máximo ele ter virado Zorro, podia correr pela casa e morder tudo, ele mordeu o sapato azul de mamãe e um livro sem capa e uma pulseira e um anjo da guarda de plástico que nos protegia, o anjo foi o mais gostoso ele disse, ficamos com fome mas só um pouco, o anjo da guarda virou angu quando Zorro e nosso irmão mais novo lutaram por ele, cada um rosnando com um lado do anjo nos dentes, Zorro cachorro de verdade ganhou, “morre cadela! morre cadela!” nós gritamos os hinos de guerra e Satanás morreu virou angu e graças a Deus agora ninguém mais com asas protege a gente.
Dessa vez papai trouxe pizza, limpou as coisas que fizemos no cantinho e chutou Zorro para fora, “mamãe não vem?” perguntamos papai não respondeu, ficou olhando nosso irmão menor comendo pizza, “onde foi tio Luciano?”, “viajar com os barbudos” nosso irmão menor disse, “mamãe ficou doente de dor de cabeça” papai contou, “de richoro?” outra vez papai não respondeu, acabamos a pizza papai abriu a garrafa de perfume que era só dele e de tio Luciano e tomou o perfume e deitou no sofá e disse mamãe vai demorar e dormiu e dormimos nós.
Depois veio Dona Fábia, que cuidou de nós enquanto mamãe sarava da dor de cabeça, e nossa irmã voltou do hospital, tinha uma arma no braço feita de gesso, agora além de nome novo tínhamos história nova, papai ensinou a história e era divertida, a gente tinha de dizer que nossa irmã subiu na árvore de manga e voou até a manga maior mas então o voo acabou, nossa irmã foi ao chão, quebrou o braço se espatifou, nossa irmã agora era a Supermoça e sempre a víamos com sua capa azul e vermelha feita de umas roupas que A Mulher dos Choros deixou em casa quando ela e tio Luciano foram viajar com os barbudos, nosso irmão mais novo e Zorro tinham rasgado os panos brincando de cão zangado e o que restou dos panos era a capa, até à escola ela ia de capa, a qualquer momento podia surgir um pedido de socorro, e mesmo depois de tirar o gesso do braço ela continuou sendo Supermoça e mesmo depois que os olhos de nosso irmão menor perderam as rodas pretas ele seguiu sendo Zorro e andando de quatro e coçando pulgas que nunca conseguíamos ver e lutando com o outro Zorro, o cachorro de verdade, por um pedaço de pão ou resto de frango assado do almoço de domingo.
Dona Fábia durou até o dia em que disse não aguento mais esse menino no chão cheirando pé de mesa e mijando na terra, então ela tentou pegar nosso irmão menor pelos braços, o levantou assim um pouco ele rosnou, Dona Fábia riu disse deixe disso menino, foi com o rosto pertinho do dele, já se via que ela tinha suas dificuldades para levantá-lo, e ele rosnando mostrando os dentes a água descia da boca, o ataque veio porém por trás, Supermoça voou do alto de um edifício que era a mesa e acertou em cheio a bunda de Dona Fábia, então Supermoça gritou “largue nosso irmão menor sua megera desalmada”, Dona Fábia gemia muito e nosso irmão mais novo Zorro tascou uma mordida na bochecha gorda de Dona Fábia, os vizinhos acudiram e ficamos presos em casa, que os vizinhos e Dona Fábia trancaram a porta por fora com a corrente, até que papai chegou do trabalho e nos puxou as orelhas e esquentou nossas bundas e arrancou um tufo de cabelo de nossa irmã, dormimos sem comer essa noite, o que também não era novidade, e dormimos sem os anjos que o anjo já tinha morrido faz tempo.
No dia seguinte comemos sopa de fubá com couve na escola e ficamos fortes.
No outro dia teve vacinação, o cheiro de álcool e o barulho de vidro das seringas nos seguiam na fila que não acabava e nosso irmão mais novo dentou o braço do enfermeiro, vieram vários deles e o seguraram e espetaram a agulha, depois o levaram para o pátio, o largaram no fundo onde os meninos maiores fazem campeonato de cuspe e coisas com as partes e fumam, buscamos nosso irmão menor depois da sineta e ele gania baixinho tão baixinho que dava um aperto na barriga da gente.
Em casa, a porta estava aberta. Nossa irmã investigou antes de entrar, “tem um homem lá”, fomos de manso mas era tio Luciano, bem diferente ele, careca e uns óculos maiores que a cara, roupa de festa com gravata, era o novo tio Luciano que ia só esperar papai e mamãe voltar depois teria uma viagem bem longa para o País das Montanhas, perto de onde o Hebreu Marmafaz perdeu o rosto o apostando com o Rei, “vai ver Marmafaz?” nosso irmão menor perguntou, coçando uma pulga daquelas que não se vê, “não só vou como a boa notícia é que ele vai ter sua cara de volta” tio Luciano informou, “mas a história é de mil anos atrás” nossa irmã olhou desconfiada, “o negócio é que enquanto não resolvem o jogo do rosto de Marmafaz, nem ele nem o Rei envelhecem” disse tio Luciano, e depois, piscando os olhos, “mas vou virar esse jogo”, vai como como como perguntamos, tio Luciano abriu a mala que estava no chão, ao lado da mesa e ao lado de Zorro, a mala cheia de dinheiro, “vou comprar a cara de Marmafaz e devolver a ele”tio Luciano contou, nosso irmão menor parou de coçar as pulgas e ficou olhando as notas marrons e verdes e azuis amarradas com elásticos, com cara de bobo, tio Luciano começou a cantar nossa Música Secreta que ele ensinou, de pé ó vítimas da fome, cantamos com ele bem baixo, foi dando um calor na gente, vontade de abraçar, a gente se abraçou, tio Luciano chorou a gente chorou, “e mamãe onde está?”, “no médico de dor de cabeça até o mês que vem que nunca vem” nossa irmã disse, “no hospital de loucos com richoro” nosso irmão menor contou melhor contado.
A cara de tio Luciano virou uma careta. “Putamerda” ele disse.
Tio Luciano fechou a mala pegou a bolsa esgarçada também chamada Marmafaz olhou dentro dela escreveu um número num papel juntou um dinheiro, “vão lá no bar o dinheiro para o dono do bar telefonem a papai digam que o tio passou aqui que ele não volte digam que ele não volte fiquem no bar até papai chegar vão logo levem o cachorro”, foi nos empurrando para a porta, descemos a ladeira correndo, Zorro latindo na sombra de nosso irmão menor.
Foi nossa irmã quem falou ao telefone, ela é melhor nessas coisas, todos queríamos ouvir papai, nossa irmã não deixou até contar o que tinha de contar e de escutar papai, então pudemos nos juntar os ouvidos no telefone e papai tossia tanto que não deu para entender se dizia alguma coisa, desligamos, o dono do bar nem tocar no dinheiro ele quis, “de criança não cobro telefone”, e agora que fazer com o dinheiro?, “melhor perguntar a tio Luciano” nossa irmã decidiu, “mas ele disse” “não interessa o que ele disse agora mudou tudo” nossa irmã falou, aí fomos subindo a rua em silêncio devagar que é grande a subida, o chão virou pedra virou terra virou lama nós subindo, já na virada de casa bem na esquina eles lá, íamos voltar mas Zorro saiu correndo latindo entrando em casa latindo correndo, um deles deu um tiro, foi um tiro só que ouvimos, Zorro voou pela porta entrou na sala feito anjo sem asa feito foguete discovoador morcego, voando planador arraia passarinho, Zorro deslizou e era uma nuvem um sonho um pressentimento ele era, corremos todos atrás dele Zorro Zorro Zorro e ele lá morto no meio da sala, da sala que era a casa toda, e tio Luciano deitado ao lado dele dormia tão cansado que tinha esquecido de fechar os olhos e os homens polícia de boné e revolver fazendo a maior farra em casa, os livros sem capa para todo lado, as roupas panelas o colchão novinho que papai comprou, tanta algazarra e nada de tio Luciano acordar, descansando para depois encontrar o Hebreu Marmafaz e devolver sua cara que o Rei ganhou em uma aposta muito, muito estranha.