Rosário e os trilhos
Rosário e os trilhos
Quando Rosário Del Rio viu pela primeira vez os bigodes fartos e antiquados de Luis ela não pode fazer outra coisa senão se rir. Rosário tinha 59 anos e dentro de duas horas – conferiu no reloginho de pulso – faria 60. Estava justo a esperar a composição das quatro da tarde que a levaria à balbúrdia da casa da filha, com os netos barulhentos e a inevitável festa surpresa que, embora não a surpreendesse há muito, arrancava dela uns punhados de lágrimas guardadas para essas ocasiões. Gostava de tomar aquele trem tanto por ser mais vazio, antes dos horários em que operários e gentes do subúrbio como ela apinhavam os vagões, quanto para chegar a tempo de ajudar a filha e o cunhado a preparar sua festinha – o que naturalmente não era dito nem por ela nem pelos dois, que por costume se mostravam surpresos com a inesperada visita de Rosário.
Mas isso seria lá depois de tomar o trem. Naquele instante Rosário se ria de Luis, o homem de bigodões, que decerto ela ainda não sabia chamar-se assim. Luis estava vestido com o que já fora o elegante costume dos funcionários da ferrovia – sapatos pretos sem cordões, calças cáqui com barra dobrada italiana e vincos, camisa, gravata preta fina e um tipo de dólmã também cáqui pontilhado por botões metálicos –, mas já então havia mais melancolia naquela roupa do que a quase arrogância com que era envergada no passado. Os bigodes confusos, aparados porém com fios rebeldes crescendo em todas as direções, combinavam com o traje. Também neles se via a melancolia difusa que flutuava ainda por toda a estação. Rosário passeava os olhos pela plataforma como se buscasse algum interesse para passar o tempo, mas o fato é que os queria aos dois olhos bem focalizados na figura de Luis, em pé ao lado de um guichê fora de uso, embora a envergonhasse a curiosidade. Assim estava ela a passar pelo homem o olhar como facho de farol em baía perigosa, ora iluminando umas rochas ora a crepitação das ondas ora em neblina acanhada se encobrindo.
Na flutuação, quase ao fim da plataforma, um casal de índios ao chão vendia badulaques e, ainda mais adiante, três crianças se esparramavam sobre um velho banco de madeira esperando maior movimento para ofertar os olhos tristes remelentos aos passantes em troco de alguma moeda. Rosário, impaciente com o cenário repetido – os mesmos passantes, os mesmos índios e crianças cujos rostos, só os rostos, mudavam a cada viagem de trem –, voltava e retornava a inspecionar Luis e, ao mesmo tempo, Deus do céu, se via incrédula com a ousada infantilidade da bisbilhotice. Tentava mal disfarçar as olhadelas cada vez mais longas a Luis, esperançosa de que ele a notasse, que visse seu olhar percorrendo a distância e o atingindo, o tocando o risco de pente no cabelo brilhantinado, a coceira que o afligia na orelha, o tremor discreto quando olhava a curva dos trilhos além da estação.
Luis levava ao pescoço um cordão na extremidade do qual pendia um judicioso apito, daqueles que se usam para ordenar aos trens movimento ou paralisação. Rosário não estava perto o bastante a observar os detalhes do objeto, mas já havia visto um deles e sabia o quanto bastava para imaginar seu toque sedoso de madeira manuseada e sua movimentação no peito de Luis, seguindo a modulação respiratória, talvez até cardíaca, do funcionário da estrada de ferro.
Aos cinco minutos para a chegada do trem a imagem do homem ao lado do guichê se tornou quase um filme desses de caderno que, à força de polegar, indicador e pressão, mostram cenas seccionadas em movimento tremeluzente – pessoas passando com pressa para se postar onde supõem estará uma das portas do trem é que fazem o jogo de cena, e tal movimento de entrada na estação parece indicar que se chega o momento de Rosário descobrir de quem vem observando com tanta insistência ao menos o nome, pois se em fato nada existe antes de ganhar batismo, Luis para Rosário ainda era tão só uma possibilidade de existência, quase um sonho, e como essa mulher não é das que gostam de sonhos, mas das que preferem algo concreto a um punhado de imagens, ela sai apressada no contrafluxo e, evitando um viajante aqui outro ali, logo se põe perto para ler o crachá alfinetado ao dólmã de Luis. Mas como acostuma acontecer a essas situações, tanto em ilusão dormida quanto em sonho acordado, um rumor anuncia a chegada da locomotiva e, antes que Rosário consiga ler, Luis se move para a borda do cimentado. Ela o segue. São tantas gentes, porém, que acaba por perder o homem de vista no meio ao povaréu amontoando-se ao lado do vão dos trilhos.
No vagão já não há onde sentar. Ela não chega a se amaldiçoar: foi sorte: em pé frente ao vitrô da porta, do outro lado do vidro no qual Rosário se espreme, está o homem de bigodes, apito entre dedos aguardando que alguma divina ordem venha a ele permitir a saída da composição. Luis, ela lê em voz alta e volta a se rir, não se sabe se do bigode ou de alguma outra graça encontrada nele ou ao redor dele, dessas graças que demoram tempos a ser descobertas. E esse Luis que Rosário acaba de conhecer se vai e se fica na plataforma que foge do trem. Some ao longe, e o substitui a paisagem de casas atarracadas passando cortada pela cerca que isola dos trilhos a vida real.
Dois
Ainda faltavam 45 minutos para completar 60 anos de idade quando Rosário chegou à casa da filha. Não precisou se anunciar. Foi empurrar o portão da rua e a porta da sala abriu. Ilsa veio em passo de cavalaria, a boca grande bonita bem como era a do pai.
Mãe, exclamou abraçando Rosário, parabéns parabéns, que bom ter chegado na hora certa. Que hora, Rosário pensou, se sempre era a mesma em que chegava, e ia perguntar a Ilsa que hora certa seria aquela mas lá já saía da casa o genro, as abraçou às duas e disse alguma coisa a que Rosário não prestou atenção, ela mais pensava era no homem de bigodes, soube seu nome às quatro e quatro, 16h04, quatro e quatro dá oito, promissor mas trabalhoso, e se do dezesseis e quatro se somam os números chega o três, bonito demais que é número de Deus, mas bem estranho para um casal.
Mãe tá sonhando acordada, não ouve nada que se fala, Ilsa riu, E lá sou mulher de dormir acordada desde quando, Tem uma surpresa, o genro sussurrou, Não tenho surpresa alguma, Rosário o olhou desconfiada, como se andasse ele a ler pensamento, e o genro riu gostoso, Ilsa é que tem a surpresa pra senhora, E que coisa será essa, Vem que vai ver, ele a pegou pela mão e a puxou para a sala.
Bexigas e uma faixa, pendendo acima da televisão. Parabéns Mamãe Com Amor Da Família. Deus, gastaram dinheiro com isso, pensou. Desgostava de surpresas, mais ainda as acompanhadas dessas amorosidades que grudam, beijam molhado, escrevem bobagem em bilhete de papel de pão, falam tolice na orelha. Beijinhos e brigadeiros e um frango assado na mesa. Quem teria enrolado o brigadeiro? Seus olhos então pararam no canto escuro da poltrona onde um velho de rosto muito branco a olhava. Não era estranho mas não lembrava se o conhecia ou se o velho teria tão só cara comum, das que se cruza numa estação e se esquece na próxima.
Acho que a mãe gostou, ouviu Ilsa dizendo da porta, Gostei por demais, tudo muito lindo, Não, mãe, é da surpresa, e Rosário seguiu o olhar da filha e foi ter no velho, que levantou, saiu da sombra do canto e abriu um sorriso de boca grande.
Rosário sentiu a testa fria. Um pano preto passou pela sala e se instalou sobre seus olhos. Era como quando ia ao cinema, trinta, quarenta anos atrás, mas com cores trocadas, o homem de cara branca se movendo na tela de pano preto, ela molhada de testa e ardente de bile na barriga, quando por ordinário se dava o contrário, no outro tempo eram umas umidades abaixo e calores no rosto. Deu um passo para o lado e se caiu no sofá. Um silêncio na sala, a cara branca de farinha fechou a boca que lembrava a de Ilsa, ou a da filha é que lembrava a dele, e o relógio de Rosário pesou no braço como deve ter pesado o braço de quem enrolou tanto brigadeiro, e ela quis só para si aquele silêncio, aquela testa gelada e aquela tontura escura, quis ficar ali quieta e enrolada como a gata que tinham em casa quando Ilsa nasceu, escondida no frio escuro quieto, dizer nada porque não tinha a falar, que ideia aquela, por que tirar o defunto ao buraco, ao túmulo a que pertence, a cara de vela fresca que nem lembrava o homem de bigode Clark Gable, não fosse a bocona rasgada no rosto, não fosse a fenda quase sem beiço ela nem reconhecia o fantasma como o resto do homem que a deixou na terceira fileira do Cine Astor, a sessão acabada e ela esperando, gentes entrando para a repetição do filme e Rosário sem coragem de olhar o relógio, começa outra vez a fita e se vai sucedendo o mesmo que sucedera, correm as letras na tela e são acesas as luzes e as gentes se movem, Rosário teme o relógio teme o tempo talvez tenha sido só um filme e ela sonhado o repetido, pode ter dormido e o tempo parado, e sua dúvida dura até que um homem de terno vem ter a seu ombro, coloca leve a mão sobre ele, a moça me desculpe mas o cinema vai fechar, a moça me desculpe mas tem de sair, e nada de seu Clark Gable voltar do cigarro, quantos cigarros terá fumado em 35 anos, quantos fósforos, para então voltar feito fantasma ou vela derretida sem mais graça sem pavio sem motivo – sem nada que a interessasse olhar ou perguntar além do que já havia olhado e se perguntado e se respondido tantas vezes que melhor nem contar.
Mamãe a senhora ta bem, é a filha perturbando o silêncio escuro que Rosário não quer largar, Um copo de água pra ela, é a voz do pai da filha o que escutou então, desgastada mas a mesma, É o calor, agora é o genro, Essa casa é um inferno durante a tarde, outra vez a filha, e aí chega a água a seus lábios e junto chega um cheiro que reconhece e que é do marido, do ex-marido, do defunto redivivo após quarenta anos, trinta e cinco que seja, o desgraçado manteve o cheiro que Rosário esquecera na poltrona de madeira da terceira fila do Cine Astor, ela agradeceu a Deus e bateu palmas quando demoliram o cinema decrépito, levou Ilsa pequena de colo para assistir a pantomima de dinamite e homens de capacetes amarelos e bombeiros e policiais, Um passo atrás mocinha cuidado com a criança, e então a explosão, várias delas como foguetório de quando chega maconha na favela ou se vai ano velho ou algum vizinho aposenta, Rosário puxou o coro das palmas e chorou emocionada – jurou que seria a última vez com emoção e foi mesmo – quando a poeira e um monte de terra seca, feito túmulo de pobre, foi tudo que restou do Astor.
Mas me deixem que não quero água, Rosário empurrou a mão do genro, me larguem que me afogueiam e se de bebida careço é de coisa com mais força que água pelo amor de Deus, de forma que os três se afastaram cada qual seu passo sem palavra, pensavam talvez que fosse mal agradecimento ela os enxotar quando não mais queriam que ajudá-la no desconforto, e o genro toca a pegar um copo da mesa, derruba nele um tanto de campari que sabe do que Rosário gosta, o desgraçado branquelo de ré já na poltrona e na sombra se põe e Ilsa, rostinho de choro que faz desde menina, A senhora tá bem mãe tá tudo bem mãe, E que há de estar bem se me trazem um estrupício desses sem aviso nem reza bem no meu aniversário, Foi uma trabalheira encontrar o pai, Melhor seria se poupar de trabalho ingrato tirar feriado sair de folga, Não me foi ruim o trabalho ó mãe que fiz feliz de ver a mãe contente, E vai lá algum se contentar em ver defunto andando na sala, Decerto que não que o pai tá bem vivinho e forte, Eu digo minha filha que de seu pai nem osso sobrou.
Enquanto conversava com a filha, Rosário inspecionava com rabo de olho o homem pálido, bigodinho branco raspado por cima. Tinha os braços magros com excesso de pelos e uns dedos finos entrelaçados que pareciam ansiar por lírio branco ou cravo de defunto ou até terço. Rosário deixou de olhá-lo ao aceitar o copo de campari com gelo que o genro trouxe. A compadecia o bico de choro de Ilsa, mas mentir a ela era fora de propósito, não teve mentira antes e não seria agora aos 60 que ia inventar.
Aí ficou um clima de velório, o frango assado murcho dentro do embrulho de celofane e os brigadeiros anêmicos também murchando a olhos vistos, Rosário balançou a cabeça e disse Está tudo certíssimo, foi só tontura de calor e tontice de velha, me desculpem todos e até aquele ali me desculpe, e onde estão as crianças que não vi nenhuma, Aqui, gritou uma voz debaixo da toalha da mesa, os dois pequenos saíram de lá com um canudo enrolado em papel de presente e Rosário ganhou uma sombrinha até simpática, pintada de borboletas e joaninhas.
Ilsa suspirou forte que parecia ter escapado da morte, se abraçou ao marido que a abraçou, ficaram se enxamegando e rindo nos nervos do alívio, de forma que talvez pelo gosto de ver aquilo outra vez bem encaminhado e ainda por persistir na boca de Ilsa um resto do bico de choro foi que Rosário se arrastou à extremidade do sofá, encarou o velho branco cuidando de não o olhar os olhos e perguntou de supetão, Por que veio, Vim por covardia, por medo de não pagar o erro aqui e de ter de pagar além, e se quer saber se me arrependi foi a bem dizer cada dia, isso é modo de falar mas garanto que não teve semana sem encontrar seu rosto num sonho ou pé seu no degrau de ônibus que arranca ou letra de sua mão na escrita de outra pessoa, e foi tormento que vivi, não vida, mas se por covarde vim por covarde antes não voltei, Então seu discurso está feito, minha parte era escutar e escutei, disse Rosário, mas não me faça essas caras não, se poupe dessa conversa cansativa que duas vezes não caio no mesmo buraco, Só peço que me ajude a não morrer em pecado, ele disse, e uma das crianças abriu a porta da sala e a brisa do movimento envolveu Rosário no cheiro do homem e o cheiro a arrastou ao Astor como se o tempo fosse asfalto e seus joelhos rodas gastas e a barriga e os peitos casco lacerado pela lixa de pedriscos e magma, de forma que, ao despencar no cinema, Rosário era uma chaga ensanguentada e dolorosamente exausta.
Foi quem sabe por isso que, embora pedindo que ele não mais falasse, Rosário o perguntou ainda umas perguntas, a começar de Por que fez aquilo, e o homem branco como parede caiada sucessivas vezes contou uma história sobre o ponto de jogo do bicho de que cuidava, do qual Rosário por graça de Deus desconhecia, e de como ele pôs as coisas em confusão ao apostar nos cavalos a féria de um dia e por fim ter de sumir para proteger a Ilsa e a ela, e isso ainda antes de ter puxado cana e amargado a vergonha de não mandar um nada, um cruzeiro que fosse, para casa.
Não acredito no que fala, Rosário o interrompeu, pensando porem que de tão longa a mentira podia ali haver uma ou outra verdade, a parte de ter sido preso quem sabe, mas apostar em corrida de cavalo era coisa de livro que o desgraçado lia quando estavam casados, Rosário bem folheou alguns em busca de explicação para o sumiço do marido, quando ainda com isso se importava, 30 anos atrás, e lá estavam os cavalinhos e a jogatina e vigaristas e prostitutas, terá se aventurado ele por esses lugares de mulheres de pernas escancaradas era coisa que se perguntara mas não o faria a ele, e apesar da quase certeza da farsa, por que não, pensou, e então o desgraçado por pouco não voltou a surgir a Rosário como o herói que era lá longe no tempo, no tempo do casamento e no tempo do amor, quando por menos fosse a tirou das mãos de pior desgraçado que era seu pai, mas será que isso conta, será que mesmo lá antes contou, Rosário tenta lembrar, então o velho branco na poltrona perguntou Nem um pouco me crê, Rosário esforçou o rosto no sorriso possível, apertou a mão fina do homem que a deixou no Astor e levantou sem mais palavra, foi à cozinha onde aqueciam o frango.
Três
No dia seguinte ao aniversário de 60 anos Rosário acordou às seis horas. Seis mais zero mais seis dá doze que dá três. Esse três a vinha seguindo. A afeiçoava o três – completo, sólido, trindade – mas havia algo de sombrio perturbando seu tranquilo equilíbrio: um ruído, um tremor. Isso, um três com tremores, pensou enquanto recolhia os ovos no galinheiro do quintal, seis de seis poedeiras, doze e outra vez o três, a perfeição, bem ao contrário do quintal largado, reino das galinhas e dos dois cachorros velhos que só faziam dormir, quando será que começou a deixar o lugar de tal jeito abandonado é que não recordava, um chão seco de dar pena, uns fiapos de mato no canto, os enfeites que tinha eram os trapos de cor no varal que nem pezinho de flor maria sem vergonha se aventurava a nascer, daí que Rosário viu uma imagem bonita na imaginação e deixou que a imagem brincasse, era um jardim de flor, depois horta entomatada e com erva de tempero, o perfume se lembrando de Rosário na cozinha e a pegando lá de tarde, então Rosário conferiu as horas no reloginho de pulso e disse pronto, pego o trem das nove e em meia hora chego na loja de semente e depois é enxada e água.
Tomou uma chuveirada, pôs o vestido bege de todo dia, o chinelinho confortável de tecido azul com flores. Se olhou no espelho de passagem, voltou, se olhou no espelho e sentou na cama, se ficou observando o reflexo, o tempo passando e ela ali sem saber pra que ia gastar com horta, com planta de flor, se olhando e pensando, e meia hora depois voltou ao chuveiro mas saiu da água quase no mesmo instante e trancou a porta por dentro, como se mais alguém morasse naquela casa além dela e das galinhas e dos cachorros, e quando destrancou o banheiro estava maquiada, tentando lembrar há quanto não o fazia, e depois de experimentar meia dúzia de roupas escolheu um vestido branco de algodão que quase nem cobria os joelhos, que bem por isso tinha ficado lá nos fundos do armário e cheirava meio a naftalina meio a alfazema, depois vestiu um par de sandálias de amarrar no tornozelo e só.
Estava pronta a tomar rumo da estação ferroviária quando a campanhia tocou. Bolsa em uma mão e chave na outra, abriu distraída a porta da rua.
Merda.
O desgraçado, a cara de farinha de trigo e umas flores na mão.
Bom dia, disse o infeliz, E que é isso agora em meu portão, Rosário se irritou, Trazer uma lembrança de aniversário que ontem temi lhe dar, Temeu por certo e a ousadia de agora não lhe cai bem nem me convém, Só umas flores que vão melhor com a beleza em que se encontra a moça do que comigo, Trinta e cinco anos fizeram tão mal às flores quanto a você que as duas coisas estão murchas, Um café e me retiro eu e minhas flores, Aceito por só dessa vez, Rosário disse sentindo a desolação do Astor, uma tristeza de pregas feitas a máquina de costura, uma fraqueza de raiva sem força de ser raiva, e empurrou a porta a suas costas e entrou deixando o vão aberto para que o homem adentrasse, o que fez de imediato, e Rosário sem palavra se levou ao lume, aqueceu a água e coou o café ralo que ele gostava lá no passado e empurrou a xícara e o açucareiro pela mesa e ele tomou um gole com satisfação, molhando os lábios estalando língua, descansou a xícara e olhou Rosário:
Tente me acreditar, Em que, No que parece mentira bem por ser verdade, E que ganho com isso, O gosto de fazer o justo, Quem é esse pra pedir justiça, Alguém que fala o certo, Ainda que seja assim verdade velha é tão ruim quanto mentira, Só perdão que peço, A porta da rua já conhece e pode ir tranquilo, Não quer crer nem desculpar, Essa é questão que deve fazer a si não a mim, Rosário pela primeira vez desde que o reconheceu na tarde anterior olhou em seus olhos e, sem nada que a interessasse lá, pegou a xícara que ele usara e a jogou no cesto de lixo ao lado do fogão.
O homem levantou, inclinou ligeiramente a cabeça como fazia quando costumava ter um panamá cobrindo os cabelos e se meteu porta da rua afora. O maço de flor se esqueceu sobre a mesa, e já Rosário ia enviá-lo ao mesmo destino da xícara quando melhor pensou e escolheu algumas dentre elas, de mais viço, e as depôs em um jarro com água e pitadas de açúcar. As demais arremessou ao pé do galinheiro, para alvoroço das galinhas e desprezo dos cães. É por isso que mais gosto de vocês, disse a eles.
Passou um tempo olhando o jarro de flores, se perguntando por que não as metera ao lixo. E se não fosse mentira, se o infeliz padecesse de um mal, se quisesse tão só morrer em paz, e se ele tivesse voltado depois do cigarro no Astor e a vida fosse outra diferente da vivida, os dois juntos mais Ilsa, férias na praia e ele com barba de algodão no natal tirando do saco a boneca para Ilsa e um bracelete que vinha direito para suas mãos junto com aquele beijo, depois saindo pelo corredorzinho da casa que seria bem outra casa, tinha corredor e sala de estar talvez até de televisão atrás daquele biombo, e ele voltaria sem barba alegre de ouvir Ilsa contando quem passara ali agora faz pouco, Que azar o meu que fui ao banheiro na hora em que o velhinho resolveu dar as barbas, e um abraço e estamos os três juntos bem grudados, rostos esfogueados de calor bom que sobe da barriga e abraça o coração, e por então já dão as horas de dormir, Ilsa tinha seu próprio quarto e se vai abraçada à boneca, os dois ali observando cada passo da menina até ela sumir na curva da porta, agora só os dois na sala e ele a abraça a olhando nos olhos, a mão firme em sua anca a empurrando gostoso para o outro quarto, cama larga bocas se tocando mãos peito contra peito e as pernas entre as pernas, e quando dormiram é quase manhã e a vida passando assim e as flores no jarro sobre a mesa da cozinha seriam tão as mesmas mas murchas de extenuadas de felicidade, ai que me perco de bobagem, onde já se viu flor cansada e velha que sonha de criança, mas bem que podia ter sido e era só uma coisa ter acontecido em lugar de outra, só uma e não mais e a vida e as flores e as galinhas e os cães teriam, teriam cheiro de acqua velva quem sabe, teriam sol quando chove teriam luz quando de noite, ela se pergunta, pergunta aos bichos do quintal, às plantas que vai ainda plantar, teria um abraço depois de tudo será que teria
Só que não foi assim e nem sei que faço agora, Rosário olhou as flores lembrando coisas que não queria lembrar, o rosto satisfeito dele quando uns dias depois de casarem voltou do trabalho com a mão enfaixada e nem por lei disse o que ocorreu, como conseguiu aqueles cortes nos nódulos dos dedos, e quanto mais Rosário insistia mais ele ria e mais a puxava de encontro a si e dizia indecências e a livrava da roupa e a amava mesmo no chão da sala, e era amor doce de selvagem, embora talvez se engane e o amor tenha sido outro dia, talvez na tarde da mão machucada ele só tenha rido sem palavra e uma vizinha tenha tocado palmas ao portão, era o que então se fazia essa música das palmas para chamar a algum de dentro de casa, e a vizinha pode ter dito, Seu pai seu pai seu pai, e Rosário a olhado sem entender, Que é que diz de meu pai se eu mesma não sei se o tenho, O velho foi atacado por algum bandido que o destruiu os dentes, fez pasta dos bagos e dizem que por pouco não os cortou fora que o bandido tinha raiva e faca, Mas o que diz quando ocorreu isso, Agora mesmo coisa de hora atrás e ao velho levaram em ambulância não se sabe para onde, Que seja longe, Mas por bem de Deus ele foi vivo e se diz que risco não corre, Já isso me entristece, Decerto que sim que é seu pai, Deus ou o Diabo, o que o escolher, que o socorra, Não diga coisa dessa de quem a gerou, E esmagaram bem esmagado o que ele levava entre as pernas, Diz que sim, calça arriada no meio da avenida e nem se reconhecia o que ali antes havia de haver, Deus seja louvado, e quem fez a obra se sabe, Não que ninguém viu e quem pode ter visto diz que desconhece, que estava olhando ao lado contrário, adormeceu no instante ou barulho de carro chamou a atenção justo no momento, Então que seja e me deixe que tenho de cuidar do meu homem, Rosário disse a cada vizinho que veio palpitar a novidade.
E foi assim, com tanta coisa a lembrar e remendar, que Rosário desistiu da visita à loja de ferragens que também comercia sementes, e mais ainda fez pouco do vestido branco de festa que habitava e das cores e feitiços que pôs a seu rosto para fazer bonito na estação de trens, que bem Rosário sabia o que andava a tramar ao se embonecar logo cedo, quando por comum nem à noite se maquiava ou se banhava em perfume, de forma que naquele dia quem se aproveitou de tanta novidade foram lá os cães, as galinhas do quintal e o moço do açougue onde ela buscou uns bifes que fez no capricho possível da solidão. Não que tenha esquecido do homem da ferrovia, dos bigodes engraçados e do nome Luis. A ele e a suas qualidades lembrou e muito, mais ainda ao deitar à noite, o fez com paixão incomum naqueles tempos e, logo após se estremecer na cama, brigou consigo em voz alta, Idiota, burra, prefere o fingido, podia ter ido em charmes à estação, idiota, burra, gastou o dia inventando o passado como se ele não tivesse feito mal bastante, BURRA IDIOTA, se levou à cozinha para se tirar sorte aos búzios e depois perguntar ao I-Ching o que sucedia, mas no meio do sortilégio esqueceu a pergunta, distraiu da resposta e deitou outra vez, sem rezar que tinha raiva em si e não convinha, e só percebeu que havia dormido quando no fim da madrugada acordou de sonho em que seus dois cachorros discutiam cartas do tarot e chegavam a alguma conclusão surpreendente sobre a posição do enforcado, veredicto que por mais tenha tentado não conseguiu lembrar.
Nem muito depois tocaram à porta. Espiou pela fresta com temor de ser o desgraçado. Era um moleque. Entregou a ela umas flores, um CD e envelope, tudo chegado das mãos do infeliz. O bilhete falava sobre a Áustria.
Ninguém sabe onde fica a Áustria. Nem você nem nossa filha que trabalha em livraria, nem quem da vida faz mapa. Vem um e diz que é Europa, muito bem, aí pergunte como lá nasce o sol e de que felicidade vive no lugar o povo. Ninguém sabe a não ser que tenha sido tocado por seus ventos, coisa que fui sem orgulho, e para que me acredite mando esse disco com música da Áustria, 30 por ser uma a cada ano colecionada, e mais não digo pelo papel. Se me permite pela palavra dita, fico no aguardo da sua que autorize.
Ah, desgraçado.
Desgraçado, enquanto alimentava as galinhas, Desgraçado, e os cães já os fornira antes, Desgraçado, por pouco não pondo a rodar o disco, mas o estranho é que dizia isso e nada sentia por dentro, nem dor nem alvoroço, vinham à cabeça umas imagens quebradas e até felizes do passado juntos bem ali naquela casa, que apesar de mudada era a mesma, e decerto que o desgraçado era engraçado, de falta de risada não foi que morreu o casamento, Ê Rosário é claro que não, foi é de sumiço, e vem lembrança que não se acaba, ele levando Ilsa nenê à feira, as rodas do carrinho teimando na rua de chão, uma fruta salta na mão do infeliz e vira boneco, arranca risada sem fim da menina, Rosário na cena apartada lembra que pensou Ah mas que vida de surpresa, não quero outra nem nada diferente, quem sabe não tenha sido exato isso o pensado de trinta anos atrás mas se escapa alguma palavra ou entra outra nem assim foi diferente a alegria do pensamento, e de coisa lembrada em coisa lembrada Rosário já saiu de casa e andou chão, virou esquina e atravessou rua, disse bom dia e por fim chega à estação de trens, deixa o presente entrar meio à memória feito a brisa que a visita as pernas dentro do mesmo vestidinho branco do dia de ontem que ela de novo traja, as mesmas tintas brincando seu rosto, e lá se vai ela sentar comportada a um banco à espera da composição das nove horas, que veio e se foi sem Rosário, e o banco virou espera do trem das nove e meia e depois das dez e nada de Luis dos bigodes surgir, vá que seja data de folga do homem, de fato lá outro instila seus ventos no apito e ela a este outro segue com os olhos a ver se entra a uma porta ou canto secreto onde se esconda Luis, mas o apitador que lhe rouba Luis é tipo preguiçoso, não deixa a plataforma e quando a marcha de lado a lado o faz a passo lento de velho, e foi tão só isso que esse homem ladrão de Luis fez ainda no dia seguinte e no outro dia que se sucedeu e no outro substituto do sucedido.
Luis apareceu no quinto dia. Parecia mais cheio nas carnes, mais tostado de pele, o bigodão meio branco meio castanho meio preto até que aparadinho, sem as pontas desfraldadas que a fizeram rir no dia do aniversário, e Rosário passeou pela frente dele olhando o chão e tentando respirar um ar que faltava, depois voltou e depois foi novamente, e em certo momento desse vai e retorna os olhos a desobedeceram e caíram a investigar se havia anel ou aliança no dedo de casamento de Luis, Deus seja louvado que ali não tinha argola, era só um dedo moreno de homem, grosso e irregular e sem adereço nem marca que se visse. Então por fim Rosário pode tomar o trem e buscar as sementes na loja de ferragens da cidade, escolheu de flor que de comida não carecia, e no dia seguinte já se levou outra vez à ferrovia que agora a necessidade era comprar alguma roupa, as dela esfarelavam de idade, e à outra manhã a filha tinha de ser visitada e Rosário se abalançou feliz ao trem, então comprar um perfume ficou urgente dado o calor que a punha nuns cheiros tristes de velha, e assim foi até que quinze dias se passaram em tanta viagem de trem e tanto passeio de olho baixo na plataforma e tanta falta de ar que Rosário descuidou de seu negócio de leitura de cartas e de conchas e de pedras a ponto de escassear o dinheiro, o bauzinho das economias magro de um só par de notas e umas moedas, Que passa Rosário, ela se perguntou por falta de quem o fizesse, Resolveu enlouquecer, e respirou fundo, reviu a lista de ligações, abriu a agenda largada na mesa da cozinha, chamou velhas clientes para conferir alguma constelação em aberto e pôs a vida outra vez em marcha, se sentindo miserável mas sem saber que outra coisa empreender.
Quatro
Não sei fazer duas coisas ao mesmo tempo, Rosário disse a Ilsa enquanto tirava o tarot da filha, num daqueles dias, e Ilsa a olhou esperando que continuasse, fosse algo mais clara, mas aquilo era o bastante para Rosário, um desabafo completo que quase a jogava nua, a frase seguinte já dizia sobre o que se passava nas cartas de Ilsa, e assim a conversa passou a rumo doméstico, das coisas necessárias e das evitáveis, uma dificuldade aqui outra além, as cartas se abrindo fita de cinema sob os olhos de Rosário e ela se perguntando, Meu Deus e se isso são cartas a mim destinadas, Estou a misturar tudo, Que confusão, Rosário pensando essas coisas mas falando bem outras a Ilsa, mostrando à filha o caminho curto aqui, o confortável adiante, foi quando Ilsa perguntou, quase indiferente a pergunta mas bem clara, E o pai, Que é que tem seu pai, Ele diz que a mãe não quer conversa com ele, Minha filha não quero mesmo e desculpe a franqueza, Que franqueza a mãe quer desculpada, A de dizer que esse assunto de seu pai vem de erro grave que você cometeu, A mãe também me desculpe, erro pior é não acreditar nele sem ter ouvido o que ele tem a contar, Ora seja, O pai foi injustiçado, Deus me livre de ter escutado isso da boca que sozinha alimentei, Não foi injustiçado pela mãe, foi é pela vida, Só não gostei de você ter ido atrás dele e pronto, acabou-se, Ele que sofreu tanto em exílio e nem pensão de anistia consegue, que teve de fugir de quartel e sumir do país, não é justo a gente não apoiar o pai, Que exílio é esse minha filha, Exílio que foi sorte, graças a Deus não morreu fazendo guerra e revolução, Esse homem tem é língua de aranha, se de guerra escapou foi de guerra de bandido que ele era, A mãe não sabe porque ele tinha de esconder, A única coisa que esse infeliz esconde é a verdade, minha filha, no tempo em que resolveu sumir já não tinha ditadura de há muito e seu pai nem é de fazer revolução que frouxo não presta pra isso, Mãe não quer entender que o pai não era quem a mãe conheceu, era guerrilheiro disfarçado ele bem me contou, era tudo falso menos o amor pela mãe, Que, quanta mentira colada, minha filha peço de coração fique longe dele, A mãe dia desses há de ver os documentos, Que documentos, Que o pai vai receber da Áustria e provar tudo, Assim seja filha mas cuidado com ele que esse homem é perigo, é feito água que a porta fechada não respeita, e agora chega disso que tem carta ainda a ser aberta.
De forma que, naqueles dias, além do temor de nova visita do infeliz se fazia necessário fugir das investidas de Ilsa, que a qualquer instante e por motivo besta qualquer se punha a contar que o pai consertara o chuveiro, levara as crianças a visitar bichos do zoológico ou tinha feito progresso no caso dos documentos da Áustria, conversas que fácil se tornaram um aborrecimento inesperado quando o cunhado e a filha encasquetaram que aquela casa não andava bem para Rosário, tudo caindo aos pedaços, a vizinhança a cada dia mais feia cheia de bandido e tão longe de tudo que, Pelo amor de Deus, se a mãe cai doente nem socorro tem ao lado e a mãe já não é jovem que se vire sozinha, Quando foi que não me virei sozinha, É só jeito de dizer, Jeito bem esquisito, Deixe de desconfiança minha mãe, Ilsa qual a coisa mais importante que sempre ensinei, Que mentira começa errado e termina pior, Pois acho que falar dessa forma, dizendo um pedaço e escondendo outro, se metendo a me enredar numa história que não sei onde vai parar, é tipo de mentira tão mentirosa que tem vergonha de ser mentira, Mãe me ofende dizendo que dei agora de mentir, pior seria me calar quando vejo o que não vai bem, Se vê que fale, Mãe se mostrando a homem na rua como se fosse, De onde tira esse absurdo que me envergonha ouvir de sua voz, Do jeito que a mãe se anda em roupa de menina como se fosse, Como se fosse o que Ilsa, Andando de cara pintada emperfumada se mostrando, Do que é que fala afinal minha filha que isso só cai pior, De ficar a mãe se enxovalhando em frente a homem na estação, Quem pensa que é além de filha que amo mas é só filha para me dizer absurdo, Pai viu que, Seu pai o quê, Ele viu a mãe se desfilar, Pois pode parar agora dessa conversa dizer ao infeliz que se me segue mando polícia atrás dele e se você me tem respeito vai ser a última coisa que o desgraçado do seu pai há de ouvir de sua voz, Mãe não entende que a gente tenta ajudar, Já basta que a próxima vai ser pior e não sou de ameaça que ameaça é de fraco covarde como seu pai, infeliz sem força que de outro usa por não ter, Ele quer ajudar a mãe assim como a gente, Como pode desaprender em um mês o que 30 anos ensinaram pelo amor de Deus, Como a gente ele quer ver feliz a mãe sem que ela saia por aí pintada de rapariga como fosse, Puta, puta é o que quer dizer Ilsa, Nossa senhora que a mãe agora me consegue ofender que eu não disse isso, Disse o quê então Ilsa, Só que não fica bem para mulher da idade da mãe se sair desse jeito em busca, Fale termine o que ia dizendo, Não tenho nada mais minha mãe, Melhor que tenha depois de chamar sua mãe de puta, De jeito nenhum fiz isso me perdoe se fiz pensar assim, Perdão é palavra que aprendeu com o infeliz e me vem usar na casa em que a criei sozinha, A mãe quer brigar com alguém mas não quero brigar com a mãe, Resposta ruim que não aceito é essa que me dá, Bem que o pai, Pelo amor de Deus outra vez o desgraçado na sua crença não aceito, me deixe que é menos ruim assim com raiva do que eu tendo de abrir a porta da rua para minha própria filha mas antes pegue da mesa a carta não virada e há de ser a Roda da Fortuna, leve consigo a carta e veja lá bem o que vai arranjar.
Ilsa piscou os olhos, passeou as mãos sobre a mesa com indiferença e pinçou a carta. Era a Roda da Fortuna. Olhou incrédula para Rosário e deixou a casa da mãe com a carta na mão, o bico de choro na boca. Rosário trancou a porta da sala e foi ao quintal cavoucar o chão duro com a enxada. Os cães e as seis galinhas tomaram a cozinha de assalto e por lá se empoleiraram longe da zanga que transformava em jardim as laterais do terreno calcinado.
Cinco
20160, 1902600, 14, em minutos segundos ou dias tanto se lhe dá que tempo não existe para ser contado mas vivido, e vivido foi em qualquer número que se mostre o tempo decorrido sem que de Rosário sua filha soubesse o que fosse, um rangido de sola de sapato da mãe ou dor de angina no peito, essa graças a Deus não houve mas poderia, e de teimosia que vai gerador a gerado nem uma quis falar com a outra nem a outra quis de ouvidos dar a uma, no entanto ambas vivendo suas vidas que tinham de viver naquelas duas semanas sem por aparência mais se aborrecer que o necessário com a briga havida que as fez de mãe e filha em silêncio e silêncio, ambas como aqueles ventos que entram em casa e balançam um cacho de cabelo apesar das janelas bem trancadas a vidro, e se houvera de existir uma conversa nesse tempo de mágoa ela teria por certo acontecido, e por não ter acontecido esse era o caminho traçado que às duas competia seguir, e isso embora posto e claro não menos triste se punha Rosário, jogando milho às galinhas em contrição como se fosse à igreja e tomasse do cálice o pão sem antes a confissão, lançando nacos de carne aos cães à forma de açougueira que se enoja do ato de morte contido em seu gesto, professando suas cartas e búzios e visões como se lesse do almanaque as falcatruas do horóscopo em busca de uns trocos amarrotados (tirados com pressa e desconfiança do bolso da calça ou do nicho da bolsa do freguês), e por sentir uma dor difusa que a queimava o peito e estalava acima dos ombros a nuca morena de que se orgulhava desde menina por ser de desenho sexy e toda só feita para carícia secreta Rosário se saiu a andar pelo bairro, a cada dia mais longe, para tentar que o ar fresco das ruas a aliviasse a tortura e a paisagem do mundo tomasse o lugar dos maus pensamentos, até no desgraçado infeliz pensou como linimento para desabafar o que a angustiava e por graça divina não o fez, mas quanto longe de casa fosse ou quanto perto ficasse em suas andadas todos os dias, 14 na exatidão, a algum momento parava a se refrescar na sombra grande da estação de trens, se deixava lá por hora ou quarto de hora em algum dos bancos ensebados de madeira, girava pela plataforma de olhos baixos até que os olhos cansados de ver o cimento sujo se elevavam e caíam nuns bigodes louros morenos ruivos do rei da estação, do dono do apito e deus dos trens, batiam seus olhos lá naquele Luis do qual só sabia nome se é que a leitura do crachá no dia de seu aniversário fora correta, e então se dúvida havia nem nome teria o homem e sem nome nem existir ele existiria, mas seus olhos não se importavam com detalhes e se punham a medir, esquadrinhar, cobiçar, e nesse ponto Rosário vinha e tomava a razão e os proibia aos olhos de tanta malícia e outra vez os guardava no cimento do chão e logo mais nas pedras da rua e depois no asfalto da avenida e por fim no portão de casa, que já era hora de almoçar e logo de atender a cliente impaciente com a vida que lhe cabia e pronto a jogar sobre a fórmica da mesa algum dinheiro que valesse saber quanto mais haveria de desconforto no futuro quiromântico desvendado por Rosário.
Não seria de acontecer trégua nessa guerra que nem anunciada foi, se queria saber Rosário, não haveria justo descanso às guerreiras que se evitavam por distância ou será que por ter doado o coração a um homem de bigodes que nem conhecia além do nome essas coisas de peleja com a própria filha ocorriam, seria pois preciso que um amor a outro destruísse em substituição para existir, seria isso o comum destino a que por desconhecer Rosário se lançava ao raspar os dedos na noite da cama entre as pernas sonhando os bigodes, seria tão cruel o mundo a tirá-la sem graça do que amava em troca do que amava, ela perguntava a Deus antes de dormir, fiel crente de que os sonhos a responderiam na noite para ver que Deus ou os sonhos já lá se ocupavam de outro imperativo e a ela não cuidavam responder.
As flores que plantara no quintal se mostravam, de tanto ralhar com galinha e cachorro os bichos as deixavam em paz, e o tempo escorria como sempre em seu quase silêncio quando já maio mês de mãe se aproximava, o ar mais fino da estação fria logo cedo na janela, e foi nessa sensação de quase tristeza quieta que um dia, sem mais aviso divino, o telefone se pôs a tocar e Rosário o levantou e disse Alô Ilsa que demora em ligar, A mãe é só isso que tem a dizer, Isso e ainda que é feliz escutar sua voz, Fico contente também que a mãe não guardou mágoa, Coração de mãe é lugar esquisito onde desgosto logo some, É quase que como dizer que me desculpou pelo atrevimento, Se teve atrevimento foi de duas não de uma e melhor que isso fique no passado, Amém, E que mais me conta, Tem mais novidade que o pai recebeu o envelope da Áustria, O que é do agrado de Deus não discuto, Veio um tantinho de papel assim dizendo que lá ele morou e de lá saiu com pressa esquecendo conta a pagar, E nem só longe sobrou conta a essa besta, Deixe mãe que o pai se morre de uns choros que deu de chorar por conta desses papéis, Se me promete que não há sombra de seu pai por aí ainda tomo o trem hoje e jantamos juntas, Então venha logo que a promessa existe.
Foi dar de comer aos cães e galinhas e ao galo – que então um galo de bom tamanho tinha surgido voando pelo muro e ali se instalara feliz do harém – e Rosário se despachou à estação, não sem antes riscar os olhos de preto e verificar o caimento do vestido, um bem reto mas quase atrevido de ombros em mostra que comprara ainda de fresco, e quando atravessou o saguão da ferroviária mal teve tempo de ruminar o chão com os olhos e depois buscar seu Luis de apito em riste, dessa vez Rosário não teve cerimônia que o trem já ali se encostava, bufando os ventos da parada, e Rosário se foi direta a um vagão, entrou apertada pelos povos que também entravam, segurou firme um lugar em pé frente ao buraco da porta, então a porta fechou e foi-se o buraco mas nada do trem andar, o aviso de apito não vinha e o trem ensinado se gelou esperando, aí sim uma apitada curta porém em lugar do movimento da composição o que houve foi o das portas se abrindo, Pronto quebrou, ela pensou já quase a sair do vagão, mas foi olhar onde pisaria e viu umas botas que conhecia, subiu os olhos e tinha Luis ali bem em sua frente, os bigodes dele marrons pretos brancos se moveram a boca abriu e tinha ele uma flor desmilinguida na mão, uma margarida alaranjada de jardim público, e Luis não disse palavra ao entregar a flor na mão de Rosário a olhando bem dentro dos olhos, depois se afastando um passo e apitando a saída da composição.
Bom dia amigo, permita-me…
Belo trabalho, gostei muito e fico feliz pela doação, obrigado pelo carinho, desejo que em breve possamos estar desfolhando um livro para contemplar esta literatra de bom gosto. Paz ao teu coração e sejas feliz!
Muito obrigado, Gelci, por emprestar os olhos a me ler a história e pelo desejo que (não vou mentir) também é meu. Abraço!
Bom dia!
História envolvente, escrita com esmero.
É preciso encadernar suas escritas, para se ter a mão.
Sucesso.
Tamiris, agradeço muito o tempo que doou à leitura e também suas palavras. Eu bem que as gostaria de ter em papel, às histórias, mas por enquanto parece que o destino prefere assim – em tela de vidro ou plástico.
Mesmo em vidro, ou plástico, foi um conto bom o suficiente para me fazer acompanhar a trajetória de Rosário, suas idas e vindas à estação, seus rolos familiares, a súbita paixão que lhe veio às portas sem pedir licença.
Gostei também do acento português que se pesca aqui e ali, bem sutil mas notável o suficiente.
Uma grande surpresa pra mim este seu conto, José. Obrigado pela honra.
Agradeço aos montes, Cláudio. Comentei isso de gostar de ter as histórias em papel em virtude dos parágrafos longos, do ritmo e pontuação talvez fluidos em excesso para tela – na história mais longa que postei, sobre invisibilidades, algumas pessoas o observaram com certo desconforto. E curioso notar o acento. Talvez venha lá de forma torta por meu avô português, talvez por ser esse o acento da área do inconsciente de onde consigo pescar alguma coisa. Não sei. Mas de fato é como me vem o texto, como consigo escrever as histórias.
Mas tenho de dizer que sou eu quem me sinto honrado.
Maravilhoso, com imagens perfeitas, visões de sensações tocantes, estilo alucinante. Gostei muito. Parabéns.
Feliz de ouvir isso, mais ainda lembrando que já conversamos sobre questões ortográficas & gramaticais das quais, no limite, o texto faz pouco. Bom vê-la aqui longe dos 140 toques também.
super bacana seu blog vou acompanhar
http://paraneura.blogspot.com/ este é o meu dê uma olhada bjo
http://paraneura.blogspot.com/2011/05/para-agora-raiva.html espero seu comentario