Início > Escritos, Ingenuidades > Eros e Narciso

Eros e Narciso

Eros e Narciso

 

1

 

Vesti minha peruca de louros

E por quatro vezes foi minha mão ao rio

Por quatro vezes venceu a distância

De barro margem e molhado

Por quatro vezes em concha a água colheu

De longe me mirava entre os cabelos sulferinos

Com seus olhos de cisternas noturnas

E de longe a amei o negro brilho dos olhos

E a ofertei em silêncio meus cachos

Úmidos de noite e de morte

E da santa água do rio

Por quatro vezes a olhei de longe

Mas seus olhos só viviam do que no rio via

De seu reflexo no remanso

Na outra margem escura

Do rio de prata metálica,

Seu espelho.

 

2

 

em vão te acendi miradas

em vão te lancei feitiços

tudo em vão tudo vão

só agradeci a deus que tua boca

feita de cântaros de lama pilada

de longe e em vão à água do rio

tocava

e as ramas de que sou feita

prenhes de orvalho e insutis

emanações molhadas

se quedaram como a mão do morto

no derradeiro momento do filme mudo:

quase a tocar os remoinhos girando

que logo mais e no entanto nunca

a teus pés passariam e a teus olhos

arrancariam um último brilho escuro

antes do início do dia

antes da dissolução das formas

antes que te transformasses em uma rocha

um pedaço de tronco

um plátano

de gestos feminis

um sonho que tenta

mas não resiste

ao nascimento da luz.

Categories: Escritos, Ingenuidades
  1. Ainda sem comentários.
  1. No trackbacks yet.

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.