mulher no espelho
mulher no espelho
a maleável doçura dura do metal
é o que olha de seus olhos:
dom da terra, que de terra rescende
relembra se umidece
entristece de certa saudade mineral
que jamais se entende
que não se alcança
da carcaça de carne que a adorna
que não se alcança
nem no espelho em que se mira
dourada áurea ou núbia
na imagem em que enfrenta
a estranheza de sua nata profundeza:
inalcançável veio, mina subterrânea,
depósito calcário, luz clandestina.
ah, mas não vale a pena, não vale o espanto
do reflexo que a reflete a mineralidade:
há sol lá fora, o dia corre sereno
e alguém
se há alguém além de seu alguém
pode dizer bobagens chamá-la de meu bem
olhá-la sem a ver e amá-la
sem nunca perceber que é feita de metal
do mais leve delicado e cortante metal
de substância que a estilhaça toda
a despedaça no meio da noite acordada
no tumulto do trânsito no toalete do restaurante
no espelho do shopping center
ou no meio do amor
morno
que por amor se faz sem de fato se fazer.
e talvez a isso se chame felicidade.
do mineral, o metal, e o amor sem ser: ilusão?
É, ilusão. Ou ainda, ilusão também. Mas não é isso que a gente chama de realidade?