O Dom da Invisibilidade Cap 5
O Dom da Invisibilidade
(quer ler capítulos anteriores? Eis: Capítulo 1 – Capítulo 2 – Capítulo 3 – Capítulo 4)
Capítulo 5
“E o dinheiro do pai, não era o que ia contar?”, pergunta a voz estereofônica do leitor-leitora, na extremidade da mesa, quase nos impacientando de vez já que, impulsionado pela questão pertinente mas como já dissemos perigosa pelo aborrecido extremo, o radialista puxa uma quantia inacreditável de ar para os pulmões e, sim, levanta novo caco de parmesão e se põe a observá-lo com olhos autistas.
“Eu disse mesmo que contaria, não foi?”, Dei murmura. “E não o fiz? Deixei algo por dizer? É que os anos me pesam, essa é a verdade, mas me parece que pesam também em quem não me entende.”
Ninguém na mesa responde a grosseria do radialista. Ele rola o queijo no ar. Os barulhos do bar batem nos costados de nós todos como marulhos de maré vazante, em vai e vem ilógico movido pelos assuntos mais ou menos estimulantes nascidos da multiplicidade de vozes do entorno, em um brinquedo que torna cada voz invisível em relação a todas. O radialista respira ruidoso e seu olhar vagueia.
Está desagradável isso – o próprio Dei observa – e não é culpa de vocês mas de uma coisa que lembrei, e que ninguém exceto Yasmin, eu e aquele meu efeminado amigo Granel sabemos, isso além de mais alguma pessoa que tenha ganhado conhecimento por um dos três, se é que seria possível em assunto de tal privacidade e até diante da jura médica de Granel, mas esse não é tema de mesa, desculpem o desvario, isso é um tanto nebuloso, e já aqui digo não do que dizia mas da questão do dinheiro, daquele que o pai de Yasmin acumulou quando ela, menina, o ajudou a bornalar uns trocos vendendo fotografia da surdez analfabeta dela, mostrando rostinho e história em anúncios de vender televisão, geladeira, bicicleta, e quem saberia se foi muito ou pouco o dinheiro?, quem afirma que o pai enriqueceu se até outro dia ele continuava tratorando terra, puxando arado e esparramando semente, o que na minha visão antiga não corresponde a alguém endinheirado, ou seria hoje? Mas tomem atenção no que fala a cidade, nos sussurros das ruas, e se desfaz o que tranço. Contam as ruas que a núbia menina, mal menstruou e passou a ouvir, se arrancou da casa do pai levando consigo a fortuna, que a bem dizer era mais dela que dele, e investiu os pertences na aquisição de bordel luxuoso na capital e assim por diante, apesar do absurdo de supor uma ainda quase criança capaz de tal feito. Não, não o creia. Fosse dessa forma o pai não a teria recebido com festa quando ela voltou à cidade, depois do sucesso nos negócios mundanos, e tampouco teria a apoiado quando Yasmin decidiu comprar o casarão a uns pés da rodoviária onde instalou a pensão – e que pensão, vou dizer, igual nunca existiu e talvez nem mais possa existir dado que o tempo muda e tudo muda com ele, transformando coisas que foram feitas em lembranças e outras que deixamos para lá em invisíveis impossibilidades, estão a captar-me?, o nãofeito esvaece e vai para o mundo do invisível por só ter um único e indissolúvel momento para existir, e ai de nós se não o pegamos, ao contrário de Yasmin, que o agarrou na forma do casarão e ali fez crescer a festa que durou três anos, e muitos já me perguntaram que graças encontro em tal história se de fato se trata tão só de história de cafetina, com toda imoralidade e sujeira isso contém, e digo não sei a que se referem já que uma história é só isso, só algo que se vive, de modos que há indiferença para Deus, se Deus existir a algum canto do cosmos, entre a cafetina e a madre superiora ou entre a puta e o presidente da república, exceto nas coisas que fazem ao serem tocados adiante pela vida e ao aprender uma ou outra irrelevância dessas que estimamos importantes. Pois assim quero dizer que tudo isso são conversas de rua, não digo tolices mas quase, visto que endinheirada Yasmin chegou quando, sem maior motivo que um de nós saiba, largou negócios tocados na capital onde brilhava como capitalista da noite para aqui nesse fim de mundo abrir bodega de menor importância, sem os sutis encantos que os papéis de jornal nos informavam ela ter, cortejada por poderosos de diversos timbres, sem cansaço do glamour que a alcançasse e vivendo aquela vida plena que é a real dizer a bem-aventurança do paraíso baixada à crosta terrestre e a promessa cumprida de todas as propagandas que nos embalam sonhos e nos fazem entender sermos todos iguais frente ao dinheiro, sem o qual nenhum passa de inútil traste sem substância, e eis justo o que queria dizer a respeito da núbia Yasmin – sua visibilidade absoluta, o brilho estelar de que é feita e que a furta das dores mundanas, embora tenha retirado do mais vil lodo da mundanidade o dinheiro que a alçou ao reino dos céus na terra, o que pode parecer paradoxal a quem não afeito a assuntos divinos mas, tenha certeza, nada tem de paradoxo pela razão já dita de que todos somos fiéis servos e idênticos frente ao deus que nos rege a felicidade e a infelicidade no belo mercado a que se chama vida. Porquanto sim é de dinheiro se fala aqui, pouco importando se levado de pai ou capturado de outros, muito embora duvide Yasmin tê-lo retirado do pai que amava, inclusive de forma duplicada por não ter mãe para dividir os calores do coração. Até meu amigo Francisco, maestro de músicas que escolheu reger sinfonia metrificada por goles, desculpe-me a comparação mequetrefe, há de admitir o que digo não obstante o amor de mágoa por ele alimentado a Yasmin. Pois a esse respeito não sei se ele à núbia se declarou, ou se tão somente teceu suas teias em torno dela esperando que a fascinasse a hábil construção, de sorte que em alguma noite vaga Yasmin o encostasse a uma parede e o olhasse nos olhos: que está a fazer?, é tão simples, ele diria, teço uma rede para enredar, isso vejo mas pergunto outra coisa, que coisa?, pergunto o que fará comigo se me deixo enredar, e essa é pergunta que se faça?, se não fosse eu não a teria feito, nesse caso respondo que a amaria, mas se já faz isso sem me ter na teia, outra vez tem razão mas aí a diferença é entre o amor não amado e o amor amado, amor não amado foi o que fiz ao guardá-lo em minha casa sem nem conhecê-lo quando desmaiou?, em absoluto, que é então?, justo o contrário: é me olhar como a olho, como me olha é com gula, amor é gula sem saciedade, é doce e parece verdade, então deixe que nós dois testemos o insaciável, não permitiu que eu terminasse de dizer que o doce e o amor não precisam ser tocados para existir, nem entendo nem concordo, acha que não sei?, então por que negar?, não me nego a seu amor como não me neguei jamais a amar, parece dizer sim para discordar, é que não preciso beijá-lo ou ter a sua cama para mostrar que o amo, isso é platonismo que não alcanço, o amor que tenho a meu pai nada tem de platônico mas não divido cama com ele, meu amor não é de pai, mas o meu é de filha e desculpe que tenho de atender aos clientes, parece que já ouvi dizer isso mas a lembrança vem lá do futuro, nem é tão incomum lembrar ao contrário, mas aí é esquecimento, você tem poesia nos ouvidos e me entende bem as palavras, só tento ganhar tempo, mas já lembrou que não existe nós no futuro, e lembro de outra coisa ainda, diga se quiser, é um gosto ruim de raiva que lembro do futuro, essa é lembrança inventada que o amigo ainda pode se negar a ter, por que ainda?, é que por enquanto dá tempo de não tecer esse futuro, e perder você por perto? “É só nele, Chico, que me perde.”
A leitora e o leitor argutos já terão percebido certas incongruências, desvios e vícios no que nos conta o radialista Onofre Dei. Nada há de estranho. Por certo pedir congruência a humanos é pedir demais. Os que a levam a sério costumam ser os mesmos que pensam ser a vida palco de heroísmos e graves decisões. Felizmente o local em que nos encontramos vive à parte desse mundo de cinismos. Ali adiante, por exemplo, o médico Granel tira suas fumaças a um cigarro bem ao lado da encantadora Eneida, que portanto não só respira os restos dos canos de escape dos autos que cortam a avenida como algum resquício de tabaco tostado, ambos os punhados de gases democraticamente diluídos e somados a outras dezenas ou centenas ou milhares – já se vê que não somos químicos – de moléculas que formam o que todos os seres viventes respiramos.
Mas por favor não nos acuse de deselegância por termos sem prévio aviso retirado a Dei o microfone e nos dedicarmos a observações pouco significativas a respeito da mesa onde a volumosa Esplendorosa, Granel e Eneida só se comunicam por meio de silêncio. É nossa forma talvez mambembe de disfarçar o desconforto a todos aqui ocasionado por uma cadeira extra à nossa mesa puxada. De fato se trata apenas de cadeira ruiva acrescentada a um intervalo entre cadeiras onde dificilmente caberia outra. O aperto de cadeiras é gesto de democracia que faz parte do local que ora habitamos. O silêncio de Dei, vale dizer, deve-se a quem puxa e empurra a cadeira e nela toma assento: outro não é que Giuseppe, dono do bar, ouvidor de Mozart e acidentado homem a quem a núbia Yasmin foi a trote socorrer na curva da avenida onde ele se encontra, abraçado por ferros e plásticos retorcidos, em seu conversível destruído.
Melhor dizendo, onde deveria se encontrar, conforme preciso relato daquele que primeiro o viu após o acidente – sim, esse mesmo Onofre Dei agora petrificado a olhar o rosto irônico de Giuseppe. Daí que como não fomos apresentados ao italiano dono do bar e como nos sobra boa educação, vamos nos interessar por outra coisa qualquer enquanto ele decide se fala algo – basicamente o que faz aqui, e de forma tão bem apessoada, quando entre os metais compostos do auto ou entre os tubos do hospital deveria estar. De assombração ou assemelhado não se trata, não somente pelo ridículo de supô-lo como também pela solidez de suas vestes, cabeleira e carnes.
Portanto, já que nada há de excepcional além da impossibilidade, por que não pedir um copo par que ele nos acompanhe o delicado porre a bom vinho que criamos? O copo é ordenado, vem e se coloca à mesa pelo garçom desatento que sequer percebe seu patrão à mesa. Dei, robótico, o serve. Giuseppe agradece com um aceno de cabeça. Balança o copo, cheira o conteúdo, prova um nada com a ponta dos lábios e língua. Depois ri e quebra o ritual:
“Ninguém pergunta o óbvio?”, diz.
Nos mantemos em silêncio porque a pergunta parece endereçada ao catatônico Dei, de fato o único que o conhece.
“Então digo eu”, Giuseppe fala, a irônica inflexão do rosto emprestada também à voz que mistura as músicas de dois idiomas.
“Não, não!”, o radialista levanta abrupto, causando um pequeno terremoto na mesa. “Que catso é isso agora? Que é você?”
“Ah, essa é a pergunta. Não quer sentar? Me incomoda. Já disse que fico puto quando faz essa encenação?”
“Já, já”, diz Dei, sentando e levantando no mesmo movimento. “Mas que catso é isso?”
“Por favor. Como vou saber? Deve ser um delírio. E bem real. Quem são essas pessoas?”, nos aponta aos que acompanhamos Dei. A questão, algo arrogante, tem no entanto mais curiosidade que animosidade.
“São amigos que – mas que catso interessa isso? Que faz aqui?”
“Não, nada de pressão. Sentido nenhum em um delírio me pressionar. Fiquem a vontade mas sem me pressionar. O acidentado sou eu. O coitadinho. A gente nunca lembra essas coisas quando acorda, não é? A luz branca, o túnel. Essa bobageira. Preciso que me ajudem a lembrar. Tenho o maior respeito por vocês mas vamos deixar claro que quem manda sou eu. Porra, sou o ego, não é? Então, silêncio. Só me ajudem a sair dessa. E a falar com ela. Preciso dizer uma coisa a ela.”
“Que coisa?”, o amigo ou amiga do canto da mesa, fascinado e fascinada, pergunta.
“Catso, que ela?”, Dei por fim senta.
“É uma situação estranha”, Giuseppe continua. “Falo com gente que não existe em um bar que imagino enquanto ela está lá triste que se morre. Preciso dizer uma coisa, mas só consigo imaginar vocês. Entendem que é um contrassenso?”
“Mas que quer dizer a quem?”, pergunta nosso convidado, tentando a um só movimento acatar a sua própria curiosidade e ajudar o irritado Onofre Dei, de forma diga-se gentil já que por certo “ela” trata-se de Yasmin. Nem seria preciso dizer, mas vá lá que algum não o entenda, pense ser outra coisa, outra mulher ou até quem sabe uma dessas máquinas que escutam e falam. Pois então fixe-se que Giuseppe, confuso talvez por ser fruto de nossa imaginação coletiva movida a vinho, ou quem sabe por dele sermos nós frutas imaginárias, quer transmitir alguma informação à bela núbia. Sigamos escutando-o, que agora o moço desatou a falar, embora verbalize umas tonterias – dizia há pouco, respondendo à dupla pergunta, o quanto precisa contar a Yasmin que sempre soube ter um filho, mas se acovardara. Que filho, que filho?, perguntamos todos, mas o italiano perde seus focos e já fala assunto diverso, que ser agora invisível, o que sempre quisera, mais o atormenta que traz conforto – embora tenha suas vantagens. Como a prová-lo, levanta, se põe a correr entre as mesas e agora salta a portinhola ao lado do balcão de mármore e da chopeira, com a graça de ginasta já demonstrada, virando o corpo em rodopio, a cabeleira o seguindo um instante depois, e lá fica a nos gritar impropérios sem que alguém se abale a calá-lo: a bem dizer, como se só nós aqui nessa mesa o escutássemos: e tanto o parece ser que ao deixar o balcão, na volta, cruza o caminho do maître Francisco e ainda o da gorda Esplendorosa, esta retornando do banheiro onde por provável foi a despedir umas tantas lágrimas outra vez, e ao cruzá-los os passos nenhum dos dois fez movimento para evitar uma trombada com Giuseppe e tampouco largou um cumprimento ou uma interjeição de concebível espanto por vê-lo.
“Como provo minha tese”, diz ele, “vou testar possibilidades do invisível em outros cantos. Mas me lembrem de dizer a ela o que sei, por favor. E você, amigo de letras”, Giuseppe abraça Onofre Dei pelas costas, “fique tranqüilo que está tão agradável na imaginação quanto sempre fora dela.”
O radialista rascunha gesto de protesto com o parmesão entre dedos mas desiste: lança o naco na mesa e faz cara de criança emburrada que não sabe o que lhe compete fazer. Giuseppe se afasta dois passos, piscando os olhos com marotice, e some de nosso horizonte de eventos. Já se disse que esse tipo de impossibilidade ocorre aqui – alias, ocorre em todo o canto – com freqüência e com a propriedade de uma lente que mais desfoca e lança em penumbra do que localiza e ilumina. Um garçom aqui da casa certa vez disse se tratar de fenômeno chamado ilusão de orla. Sim, pode rir-se dele às banhas, entendendo que o iletrado tentava dizer ilusão de ótica, pois isso é verdade tanto quanto o é que ele em seu erro mais acerta do que erra: de fato, sempre que nos perde a atenção a algo, são as orlas que se enfumaçam e avançam sobre o objeto, até que súbito ambos deixam de existir. É esse o mais temível entre todos os invisíveis – o que nos furta o mundo e a vida, nos põe sós frente à eternidade do nada que, na realidade, não existe – parece ser se tanto uma indisponibilidade de desejo de continuarmos envoltos pelo que nos conforma e nos obriga a ser o que somos.
Natural que essa tagarelice não somos nós a perpetrá-la, vêm de Onofre Dei as observações, de Dei agora recuperado do estupor e prestes a chamar nova garrafa de vinho, exceto se o impedirmos, o que nenhum à mesa parece disposto.
“Sei do que Giuseppe fala. Só não sei se devo dividir o peso de sabê-lo com vocês”, o radialista estica o discurso como é de seu gosto. “Faz muito tempo e jurei a mim não dizê-lo. Felizmente esqueci o assunto, até agora, e se o recordo é por culpa dele, não minha. O danado é que Giuseppe não tinha como saber. Fugiu. Mais de ano na Itália, o ristorante por conta de Francisco, o maestro espumando ciúme porque intuía, sabia e naufragava por saber o motivo da viagem de Giuseppe, entendia que era qualquer coisa ligada ao romance dele com Yasmin, construído em segredos o romance dos dois: de quem ele amava como filho e a quem queria como amante. E a culpa? A culpa foi de Francisco, decerto que dele que, quando conheceu o italiano e soube da ideia do ristorante, para o qual só faltava dinheiro, convenceu Yasmin a financiar a história. Os três juntos o tempo todo, inventando o lugar, inventando uma vida impossível mas bela, entornando em goles o que só poderia ser bebericado, como se vivessem um roteiro antigo em cor marrom de sépia, mas não teriam percebido que três não fecha conta, não divide, ou se divide é com erro, cada unidade isolada em seu canto, e claro que Francisco sabia, ele dizia que estava o tempo todo a experimentar as tentações do inferno sem conseguir resisti-las e, considerando agora com mais sabiedade que o tempo me emprestou, que outra coisa podia fazer depois de já os tê-los apresentado uma a outro e deles se aproximado a ponto de fazer parte do que tramavam, de ter entrado no tão óbvio triângulo amoroso que no entanto não se consubstanciava, vale dizer não saía da emoção livresca, romanesca, não tomava corpo nem lançava corpo contra corpo, em guerra santa, que era o que ele sonhava, desejava a cada instante, pedia a deus e a deuses, implorava ao infinito e amargava o desprezo cósmico do silêncio divino, o grande e solitário silêncio do deus invisível do universo, que em seus afazeres não tinha tempo para a pequena solidão de Francisco em seu amor insubstanciado, de maneira que meu amigo foi levando a coisa como pode, até que se despiram dele, ou ele se despiu dos dois, e eis aí o que penso ter ocorrido. Deve de ter cansado. Não me disse. Isso não se pergunta a ele. É homem de reservas. Ficou com seu quinhão menor do bar, afaga essa raiva de correntes que o mantém ligado a Yasmin, essa mulher de sedução que todos viram e da qual, verdade se diga, deve ser mesmo difícil livrar-se após ter conhecido sua intimidade, não a intimidade dos lençóis, mas a real intimidade, aquela que é feita de furtos pequenos de momentos, um gesto escondido que se pega no ar e um brilho que a saliva fez num exato momento no dente branco varrido por algum raio de sol, essa intimidade que é a única verdadeira e que se não faz parte das tramas do Amor e do demônio, pensam que não faz?, se não faz é porque então não se trata do verdadeiro Amor nem do verdadeiro demônio, e que os deuses nos livrem de tal proximidade dessa mulher porque a qualquer um se põe o risco de entrar em tal aventura e terminar os dias como Francisco, vigiando os passos da núbia como valente namorado cornudo que o sabe a se fartar e brinca de traído vampiro, tirando da bela a energia da raiva e de uns prazeres secretos de a maldizer, de a amar assim avesso e, creiam-me, de fazer sofrer o filho que considera Giuseppe, de torná-lo infeliz pela perfídia cometida contra o pai, como se pai fora Francisco, ao roubar-lhe a amada. Eu digo que se cada homem tem um destino na vida, embora esse destino mude de tempos a tempos, o de Francisco é bicar com um graveto negro a ferida de Giuseppe a cada romper da aurora, como na parábola do ladrão do fogo, para que, sem opção, o filho a ele venha ao colo, arrasado e constrito, e é assim como cada um de nós sabe fazer quando convém, sem dúvida cada qual a sua maneira, e ainda pior os que têm as melhores maneiras, nesses a ação não se mostra e ganham eles a vantagem de sequer acusados do mal praticado dado a conformação diáfana do feito ou sua total inexistência a olhos nus, sendo então mal que corrói moléculas subterrâneas provando o tempo todo que nunca, jamais, o fez.”
Um garçom magriço, moleque de seus dezessete ou dezoito que fugiu ao natural destino da enxada, se aproxima com mensagem de teor esquisito que o faz corar por pudor ou correria. Chega à mesa com algum alvoroço contido que cala Onofre Dei. Mas o garoto nem chega a abrir a boca – é asperamente enxotado pela maître Francisco.
“Vai, vai, tem muita mesa”, Francisco ralha em voz baixa e senta à cadeira há pouco ocupada pela aparição de Giuseppe. Toma um gole de vinho do copo servido ao italiano:
“Isso era meu?”
“Opa”, diz Dei.
“Nem venha dizer que foi sua insistência”, diz Francisco olhando para o radialista.
“Em absoluto, claro que não. Mas do que se trata mesmo?”
“Vamos ter a noite do cabrito. Bom? Sem reclamação? A negra tinha tudo adiantado hoje, sabe-se lá porque, e as meninas estão cuidando de finalizar. Que seja como manda deus – mesmo se com algum atraso.”
“Foi ideia de Yasmin?”, Dei pergunta, vasculhando a mesa com os olhos, talvez em busca de um pedaço de parmesão ou de alguma outra cínica dissimulação.
“O que?”
“Manter a cabritada.”
“É.”
“E ele?”, quer saber a pessoa do outro extremo da mesa, que não custa recordar trata-se da leitora ou leitor.
“Giuseppe está bem, ou mezzo bem, e diz a negra que induziram coma para… para qualquer coisa. Continua lá com ele.”
Dei esfrega as mãos:
“Excelente a notícia do cabrito. Isso é o que adoro aqui – a permanência. E que ele está bem já o sabíamos.”
“Sabem como?”
Veja, veja: Onofre Dei encontrou um teco de queijo. Está pronto a reinar de novo.
“Não fosse assim”, diz, “o funcionamento do bar estaria comprometido. Não está. Queiram os deuses que permaneçam bem, o italiano e o serviço da casa.”
Francisco sorri o sorriso delicado, compreensivo, que melhor combina com ele do que a mal humorada performance experimentada com o garçom magrelo. Levanta acompanhado pelo sorriso:
“A taça era minha mesmo, não?”
“Sua, era sua”, a voz do fim da mesa confirma a mentira. Nós nos perguntamos por que o fez. Há certo nervosismo no tom da confirmação, como se a vontade de dizer a verdade estivesse a um fio de vencer e pudesse, súbito, elevar-se sobre a outra vontade e de forma simples dizer que não, aquela taça de fato fora servida a Giuseppe, que nos visitara e agora, bem, agora não sabemos mais onde se encontra.
O maître Francisco toma a taça à mão e a olha por um instante, só um momento, enquanto os músculos e nervos de seu rosto desmontam o sorriso.
“Tive a impressão de…”
“Pode deixar aí o copo que continuamos cuidando dele”, Dei o corta, “e aproveite para mandar outra garrafa.”
Faz calor pavoroso. Note o suor se avolumando no buço de Onofre Dei: por mais as seque, as gotículas retomam o local como liquido bigode. Dei o enxuga por vezes com polegar e indicador, como se alisasse fios rebeldes, e se perde a pensar, uns tremores na sua outra mão, a que costuma comandar o parmesão, e onde de fato o queijo está.
A moça do outro extremo da mesa, veja que interessante agora ser tão claramente uma mulher, pergunta sobre a cidade, o motivo de tantos italianos (o que se trata de exagero, quando até o momento tão só dois conhecemos), a origem de tal bárbara comemoração envolvendo cabritos e tantos temperos e sabe-se lá o que mais, já que tantas vezes se provou aqui que o não dito é mais que o dito. A questão é cortesmente endereçada a Dei – a moça faz seus encantos, inclina-se um tanto sobre a mesa, lança uns lampejos de olhos a ele enquanto a pergunta. Parece que não há muito o que contar a respeito: Dei, sem escutar ou sem ligar para o escutado, deixa a mesa sem dizer palavra e se vai aos lados de Esplendorosa, doutor Granel e a maravilhosa Eneida. Lá murmura algo ao ouvido da pequena, arranca dela uma gargalhada que vemos sem ouvir e senta, sem cerimônias, coisa de amigo. É automático: o casal abre duas bocas sorridentes aliviadas com a presença do radialista. Sua chegada os liberta das claustrofobias em que se metiam sabe-se lá por conta de quais magias. Os três conversam com gosto. Claro que Dei muito fala e o casal de limita a negar uma informação, confirmar outras e se rir com admiração das tiradas engraçadas de Dei, que sem dúvida que as há, embora à distância não possamos acompanhá-las.
O homem do canto de nossa mesa – não era mesmo uma garota ali? – se diverte com as histórias do garçom que trouxe a garrafa ordenada por Dei. A cerimônia de cortar o capuz da garrafa, desarrolhá-la, abraçar seu feminino pescoço longilíneo com xale de linho branco segue lenta como velha procissão: os passos do ritual são pontuados pelo fantasioso relato de como a diva Yasmin controla com doçura rígida, quase robespierana, as garotas e o rapaz da cozinha, levados por ela sem piedade à destrutiva missão de atender sua exigências disparatadas de cuidados com os detalhes e, na mesma toada, de desejá-la e amá-la mais que a qualquer coisa.
“Desejá-la?”, quer saber o senhor do canto da mesa, brilho lascivo nos olhos circundados por cílios brancos e marés de rugas.
“E não? Essa é a parte mais fácil”, o garçom ri, “até para as mulheres da cozinha. Algumas trabalham com ela desde os tempos antigos, quando ela tinha outro negócio.”
“O lupanar”, ajuda a séria mulher que substitui o senhor, loura cheia de suspiros enfadados que retira ao maço um cigarro.
“Que?”, o garçom pergunta.
“Nada, só quis dizer que sei do que se trata”, a mulher sorri, acende o cigarro e é um rapaz que dele despede a primeira fumaçada. A voz já naturalmente é outra:
“E sério que cozinham peladas?”, sussurra.
“Não!”, diz o garçom. Derruba um dedo de vinho como prova. “Nem sempre.”
“Ótimo, pode servir”, o agora homem de longos dedos finos, quase femininos, informa.
Ora, mas que estamos a fazer? Entreter o camaleão leitor com o que ele e ela conversam é por demais tolo, em especial considerando a ímpar possibilidade de capturar alguma informação relevante de além mesas, lá daquele sítio onde Onofre Dei investiga algo que o interessa ou, vá se saber, apenas conversa a toa com seus amigos. Mas se a curiosidade também ao leitor frita os olhos e atiça os sentidos, como a nós outros sucede, deixemos de falsidades em relação à distância que nos separa de Esplendorosa e Granel: esses tantos metros só existem se os queremos. Já não se disse que aqui o tempo é argila macia implorando contorno? Se ele o é, também o espaço, pois claro que como qualquer vivente medianamente aculturado nesses tempos não faltamos à aula do professor Einstein, aquele que sem respeito a leis de trânsito e cintos de segurança e potência de motores em cavalos de vapor nos convidou a encilhar um raio de luz qualquer e sair sobre ele, talvez até metendo esporas no coitado, para desdenhar dos relógios e das fitas métricas, como se já não existissem suficientes problemas para os relojoeiros e os alfaiates, ambos enfiados em crises de desemprego mundo afora, quem sabe até por culpa do douto mas nem por isso menos amalucado físico alemão. Em resumo, dá-se um jeito de lá da mesa longínqua se aproximar sem daqui sairmos. É vantagem e tanto. Pode-se considerá-la fantasiosa e até se duvidar de seus resultados, por certo, e no entanto sobre qualquer coisa é permitido jogar sombras de dúvidas. Nosso domínio sobre espaço e tempo, a bem da verdade, vem de máquina ainda mais antiga que o cavalgável raio iluminado de herr Einstein: é algo que chamamos, em falta de melhor imaginação, de “grua de Flaubert”, mecanismo aperfeiçoado pelo sábio francês para romper distâncias e xeretear, invisível e incólume, vidas alheias.
Ora, que seja a máquina que for. Cá está já a nossos olhos Esplendorosa amassando uma mão contra a outra e ouvindo doutor Granel, obviamente irritado, a dizer que jamais quebraria sua jura médica de sigilos, ainda mais forte que aquela mantida por padres confessores, em troca de nada e, pior, se tal ação poderia pessoalmente o prejudicar. Pois então claro se põe que temos situação paradoxal, diz o radialista Onofre Dei suando como se ainda chovesse e apenas sobre ele, já que do nada o italiano não tirou a informação e, até onde sei, a diva tampouco conhece o que foi feito da criança, embora indubitável que tenha ela suas desconfianças porque tudo isso que fizemos é tão estupidamente óbvio que até me constrange, mas é também, penso eu, de obviedade que precisa de umas informações para o ser, e estas Giuseppe não as tem assim como ninguém além de nós – o médico, a parteira e o reagente da poção que sou, isso além de Yasmin, seguramente, por ser a mãe e ter isso suas implicações, as mais estranhas ao menos para nós homens, que não as alcançamos as sutilezas.
“Mas o que diz, o que diz, ela sabe?”, Esplendorosa segue em voz chorosa.
“Cala a boca, pelo amor de deus”, diz Granel, levantando e pegando a encantadora Eneida ao colo, “calem a boca os dois. Não vêm o que fazem? Que é uma estupidez?”
Esplendorosa torce as mãos abaixo do nível da mesa, sobre as coxas soberbas. O radialista Dei olha com desprezo para Granel, que começa a lentamente se afastar, Eneida montada aos braços.
“Não fala nada?”, Dei olha para Esplendorosa.
“É que ele está certo, e há aí a menina, isso não é assunto de criança”, ela diz, voz claudicante, mas Dei a interrompe com sonora palmada sobre a mesa:
“Que seja então. E não pensem, jamais, que não foram alertados. Isso ainda não acaba bem.”
Doutor Granel já vai longe confidenciando algo à menina, que se diverte deliciada como fez quando Dei segredou-lhe alguma graça. Se Granel escuta a ameaçadora declaração de Dei, não dá mostras. E sobre o que afinal fala o bêbedo radialista? Quer dizer, seria tão claro que impossível de vermos? Ou é de tal infantilidade o roteiro que se nos apresenta que o desprezamos por não suportarmos a simples, insutil e sempre óbvia realidade?
Zé
Instigante contundencia. Faz doer, e quem se atreve arredar?!
A Invisibilidade do escancarado óbvio nos açoitando… Maestria de letras, beleza que incomoda…
Ultra sofisticação encontrada na mais pura simplicidade.
Me lembrei de Joyce; Bloom buscando…
Obrigada por essa leitura, maravilhoso!
Madalena, meus deuses, que é que vou falar sobre o que escreveu? Tô maravilhado, é verdade, e nem ouso comentar sua comparação – ainda mais comparação nascida da rainha das linhas e tramas. Sou muito grato pelo que disse e mais ainda por ter gostado. E, penso que já havia comentado, esse texto é só uma brincadeira de letras que comecei e, um dia, passou a andar com as próprias pernas. Isso torna a coisa toda um tanto mais instigante – e assustadora.