O Dom da Invisibilidade – Cap 4
O Dom da Invisibilidade
(quer ler capítulos anteriores? Eis: Capítulo 1 – Capítulo 2 – Capítulo 3)
Capítulo 4
“Dois dias”, ela diz, empurrando a colher com o grosso liquido adocicado na boca de Francisco. “Ali, aquele ali, é o doutor Granel. Vê?”
Ah, sim, ele vê – uns doces lindos olhos negros circundados por um branco de arte pop que brilha e se espraia sobre o escuro do rosto dela, e é só o que consegue ver e não é mais que quer ver. Doutor Granel, indiferente ao olhar de Francisco, levanta os ombros e os deixa cair:
“Ele não entende nada. Amanhã vai estar melhor.”
Yasmin se aproxima outra vez de Francisco e diagrama o lençol sobre ele. Francisco se deixa quase dormir. Quando Granel e Yasmin abrem a porta e abandonam o lugar, luzes, vozes e música o abraçam por um instante e em seguida evaporam. Francisco ainda tenta levantar mas está extenuado.
“E o que foi que teve?”, quer saber Onofre Dei. “O que o levou a passar dias na cama?”
“Não sei ao certo”, diz Francisco, aqui ao lado, ainda sentado a nossa mesa, coisa que duvidávamos ele fazer. “Granel disse que uma virose, não lembro bem, mas foram três dias na cama de um quarto do lupanar, essa é a verdade.”
“Por isso digo que o conheci antes que me conhecesse”, o radialista explica. “Quando cheguei você estava caído na cama do puteiro, com cor de batata mal cozida. O Granel aliás está aí, em algum lugar, com sua mulher. Sua mulher, rá! Mas está aí. Me parece incrível que você nunca tenha perguntado a ele o que aconteceu há, pelos deuses, há dez anos!”
“Não me interessa”, diz Francisco.
“Uma vez você disse que se apaixonar por uma puta foi seu pecado. Melodramático, mas cá estamos nós todos juntos – a puta musa, você, o italiano. E eu, a perfeita testemunha. Mas, sabe, a realidade é que ela nunca foi puta. Esse é seu defeito: acredita que por definir alguma coisa tem a verdade sobre ela. A moça sempre foi empreendedora. Lá e aqui. E é das boas.”
“É tudo bobagem”, diz Francisco. “Estava em um momento estranho, tive uma coisa lá no lupanar dela e ponto. E, verdade, ela nunca me olhou.”
“Ah, sim, ficou dez dias na casa dela e a danada nunca o olhou. Passou seis meses voltando lá como um carola à igreja e ela nunca o olhou. Pelo menos um pouco de razoabilidade deve caber nessa história, não? Sabe qual é o problema? O problema mesmo?”
“Preciso voltar ao trabalho”, Francisco levanta mas, veja, veja como Dei o puxa sem cerimônias de volta à cadeira. Chega a ser engraçado, embora exista essa tensão no movimento tanto de um quanto de outro. A mão de Onofre Dei ainda está agarrada, com pressão que crispa levemente os músculos de sua contrapalma direita, na manga da camisa do maître. Ele o segura como a criança birrenta, e como a bela Eneida ainda há pouco puxou as fraldas da camisa de Giuseppe, com alguma raiva e certa razão, como se ternura e violência fossem irmãs. Dei fala lento:
“Você não perdeu nada. Ela sempre gostou de você. Ela gosta. Mas você a apresentou ao cara que ela ama, e que você ama, mesmo se desse jeito estranho dos três. É absurdamente simples. E é estúpido que sua inteligência não o deixe ver que isso aqui não é uma brincadeira de Wagner. Isso é a porra da vida, seja lá o que for isso. É descontrolado.”
“Preciso ir”, o maître levanta novamente e se livra da mão de Onofre Dei. “Você anda bebendo demais.”
“E você continua não enxergando quem o ama.”
“Obrigado e boa noite, pessoal”, Francisco volta ao sorriso profissional, um belo e aberto sorriso gordo, e espalha uma das mãos no ar em direção a nós todos enquanto se afasta.
“Chicão”, Dei quase grita, “amor é outra coisa. É um abraço escondido.”
Nós outros, que cá ficamos também escondidos ouvindo ou, na maior parte das vezes, tentando ouvir o que diziam os dois amigos, tramamos entender mas de fato não alcançamos o significado da frase de Onofre Dei. Nada assustador – o que ele fala, sempre, e aí incluímos seus programas na rádio da cidade, tem precário sentido. Muitas vezes é belo, mas pouco de compreensível sai do encadear de palavras. É possível beleza sem significado? O sentido, dizem, é algo que se procura por uma distorção qualquer nos circuitos eletrônicos do cérebro, enquanto a beleza, bem, ela parece se alojar mais embaixo, em camadas antigas, cobertas de poeira, inalcançáveis a pensamentos ordinários e mais acessíveis às estranhas sensações que nos tocam em estados excepcionais – qualquer coisa a ver com a paixão, a poesia ou até a proximidade da morte, embora essa última nos pareça desproposital. Algo invisível aos olhos que, no entanto, leva a vida a se perpetuar – e, pelo amor de deus, não é o sexo. Ou ao menos não é apenas o sexo.
Enquanto brincamos com palavras, nesse segundo vício admitido – está posto que o primeiro é observar –, Dei já lá se diverte falando como se houvera platéia. Conta a história de Yasmin – uma história cacete para a média do habitante da cidade, que já a ouviu em dezenas de versões muitas vezes incongruentes e nem sempre agradáveis. Assume-se aqui que o estimado leitor e, sim, estamos aborrecidos de ter de incluir a estimada leitora, não por ela mas pelo cansativo da repetição exigida nesses dias em que o nãodito é maldito, que seja, assume-se que o leitor de qualquer sexo ou orientação não conheça ainda da história de Yasmin os detalhes, quem sabe até os esqueça. Há um tanto de estranho nela, na história e não na bela moça, mas nada que surpreenda quem consegue acreditar em religião ou em sua prima pobre, a ciência. Yasmin nasceu paupérrima, em uma vila rural aqui ao lado, e, por uma dessas cruéis minúcias genéticas ou espirituais, completamente surda. Tinha adoração pelo pai. A lenda, em todas suas versões, despreza quem a levou ao ventre – é quase uma inversão espelhada da fábula da virgem que dá à luz. Pois, sem mãe e com pai tratorista de fazenda, cresceu e se tornou bela em silêncio. Se perdem os detalhes de infância. Provável que tenha sido feliz, com dias duros intercalados a outros plenos de doçura, como costuma acontecer. Há que se acreditar nisso sabendo que hoje, e já se vão mais de 30 anos desde seu aparecimento no planeta, Yasmin cria comidas sublimes comandando a região aquecida por fogos e temperos no bar em que matamos horas. De fato não conseguimos crer que um ser infeliz, que carregue em si a tristeza, consiga de alguma maneira transformar em manjares meros punhados de ervas, vegetais e uns cortes de carnes. Pode ser uma leitura um tanto romântica, mas se não a tivéssemos nem estaríamos aqui a perder tempo, o que também vale para a leitora e o leitor. Sim, sim, precisamos de um contrarregras que nos impeça de tergiversar. Então Yasmin nasceu e cresceu alheia aos ruídos do mundo. Aconteceu de seu pai não registrá-la ao cartório, talvez por essa característica da menina talvez pelo fato de não saber exatamente quem a pariu. A manteve em vida regrada do campo, com as horas naturais de comer, dormir ou se por a postos para acompanhá-lo às lides, além daquelas muitas reservadas a brincar quase sempre sozinha, até que o mundo resolveu descobrir que ela, e ele, existiam. A menina justo brincava no borralho do fogão de lenha, ao pé do pai, quando chegou o grupo: um homem sisudo de boné, outro tão sorridente que dele se desconfiaria carregar más intenções e a mulher de calças compridas, a única que falava alguma coisa. Os dois ficaram ali ciscando ao lado da porta enquanto a mulher se apresentou. Era do censo escolar, e havia aquela informação de que morava na casa uma garota não matriculada a escola alguma. O pai de Yasmin deve ter coçado a cabeça, pensando no que ela queria dizer se a menina em questão estava tão obviamente ali sentada, à roda dele, enquanto ele cozinhava feijão com algumas carnes, e então pode ter largado a colher de pau sobre a lateral atijolada do fogão e olhado a visitante tão colorida nas unhas, nos cabelos e naqueles panos jogados sobre os peitos que, sem temor aos tecidos, se mostravam atrevidos. Mas é a menina, ele disse. Essa menina? Essa. E ela não vai à escola? O pai pensou por um instante naquela outra pergunta absurda, já que a própria moça havia dito que ali existia uma criança que não ia a escola, mas resolveu não questionar porque ela parecia por demais limitada das ideias, e, de qualquer forma, tinha com ela os dois sujeitos que só faziam ciscar e talvez tivessem também seus pensamentos mais espaçados nas cabeças. Ela não vai a escola. O senhor sabe que é importante ela ir? Pode ser mas nunca fez falta, nem para mim que cuido bem dela. E a mãe? Aí o pai de Yasmin se enfureceu, mas engoliu a fúria pensando nos dois lá fora e no fato desagradável de que a única arma à mão era a colher de pau, de forma que deu de ombros e perguntou o que a moça queria. Que ela vá à escola. Só isso? Só. Então não tem problema, mas não tem também como carregar a menina até a vila todo dia. Mas agora tem Kombi que leva e traz. Com hora marcada? Hora marcada?, a mulher, mostrando que não tinha mesmo muito pensamento, perguntou. Hora de chegar em casa, porque não se pode deixar criança desse tamanho sozinha, tenho de ficar por perto e o trabalho não deixa que seja a qualquer hora. Pois é com hora certa, ela disse. Então não tem problema, ele repetiu. Que idade ela faz?, a moça perguntou, rabiscando em um papel. Oito. E nunca na escola? Mas isso a senhora já sabe, ele disse. Nunca, ela falou, e se pôs a fazer perguntas até se fartar e ir embora. Esse episódio não seria mais que um almoço fora de hora se, uns dias depois, não aparecessem outras pessoas junto da mesma moça – e no mesmo horário da comida da menina, que o pai ciosamente mantinha regular pelo andar do sol porque nunca tinha aprendido a gostar de relógio. Para a senhora também, o pai de Yasmin respondeu o bomdia. O senhor sabe que estamos fazendo campanha para lembrar os pais da necessidade da escola. Não sei. Não sabe? Não. É no jornal, na rádio, tem até cartaz. O senhor não viu? Pois então. E tem fotografia também, da criançada que vai aprender. O senhor tem fotografia dela? O que a senhora quer?, o pai de Yasmin usou a mesma pergunta de dias antes porque essa parecia ser a forma certa de acabar com aquela conversa esquisita, ainda mais considerando que dessa vez a mulher havia aparecido com quatro pessoas, não mais o risonho e o de boné, mas um cabeludo e três moças, uma delas quase careca, parecendo moleque, e os quatro como aqueles outros dois de antes ficaram no terreiro ciscando, uma acendeu cigarro e outra parecia com sono, uns olhos cansados bonitos pintados de preto em volta. O que quero, a mulher disse, é fotografar sua filha e contar a história dela. Até no jornal. Para que serve isso? Para que outras pessoas vejam e mandem suas crianças estudar. E a menina ganha foto dela? Ganha. Então não tem problema. O senhor deixa conversar com ela? Deixo mas não funciona. Que? A menina é surda. A mulher suspirou. E a mãe? Ela não tem. Ah, sinto muito. O que a senhora sente? Sinto muito ter perguntado sobre a mãe. Morreu quando? Ninguém morreu: ela não tem mãe. Não? Ela tem pai. A senhora desculpe, a menina come na hora e já passa. Então a mulher disse que sim, por favor pode servir a garota, e saiu para conversar com os quatro e no meio da terceira colherada já estava de volta querendo saber outras coisas. Lá fora ligaram o carro e o pai de Yasmin pensou que fossem embora deixando a moça. Não era isso. O homem veio abraçado com um aparelho de filmar, bufando pelo peso, e a moça quase careca logo atrás, puxando fios desde o carro, e a outra de olhos cansados com uma máquina de instantâneos, e passaram ali tanto tempo fotografando a menina que o pai perdeu a hora de tratorar aquela tarde. Mas por fim se foram e um tempo depois o pai de Yasmin recebeu o envelope com as fotos da menina. Ficou impressionado de ver como a casa era bonita no papel, e mais ainda com a filha, que até parecia outra pessoa. E aí começou o calvário dele. Foi quando passaram na televisão a história triste da menina surda que não ia à escola. Ficou sabendo pelo patrão. Depois, viu sua casa, a filha, os dois cachorros e até ele mesmo dando comida para a menina, tudo filmado tão bonito que parecia mentira, mas mentira mesmo era o que a voz falava no filme sobre criança abandonada, que era aquilo?, e no entanto tudo que ele podia era explicar para quem perguntava que uma coisa era a filha dele aparecer na televisão e outra, bem diferente, era o que diziam, porque abandonada ela nunca foi. Teve de explicar muito e repetir tudo mais vezes do que podia contar, o pai, porque então encafifaram de chegar pessoas todos os dias para fazer as mesmas perguntas, e eram tantos cartazes e jornais interessados na surdez dela que dava a impressão de nunca se ter sabido de uma criança doente dos ouvidos filha de tratorista e sem escola nenhum dos dois. E foi assim que um dia o pai de Yasmin cansou e disse que não responderia e proibiu de fotografarem a criança, que então já se punha fazendo pose a qualquer um que chegasse, mas de nada adiantaram o silêncio e a proibição quando começaram as aulas e a menina, tão conhecida que tinha amigos em toda parte, passou a ser fotografada na escola e até dinheiro mandaram ao pai, junto a uns papéis que o patrão disse para desprezar. Depois parou tudo. Sumiram os perguntadores, os instantâneos, o vai e vem de carros, e foi de uma vez que ocorreu, sem aviso, como havia sido no começo, e o pai de Yasmin se aliviou e pode viver outra vez, só de quando em quando alguém lembrava e ele dizia que decerto tinham descoberto outra menina surda em outra cidade com outro pai tratorista para infernizar.
Onofre Dei, o radialista, pausa a fala quando o garçom chega com outra garrafa de vinho. De tanto falar está esfogueado, as peles do rosto riscadas de vermelho como se tivesse passado por um salão e as moças de lá o convencido a fazer peeling. Pode ser o vinho também, no calor abrasador da noite agora sem ventos, que ele toma em proporção dobrada em relação a nós outros da mesa. Confere garrafa e rolha sem comentário, breca a mão do garçom que ia nos servir e pede outros copos, “descansados”, nos olhando em busca de sinais de aprovação à história que conta. É um gesto dele, desses que constróem, segundo um escritor dito menor, a personagem. Enquanto se aguardam os copos ficamos em um jogo de cabo de guerra em que o observador é o observado e o contrário também, uma pequena confusão de olhares curiosos que se cruzam sobre a mesa como faróis de automóveis em estradas escuras.
“Nunca reclamou do dinheiro”, diz Onofre Dei. “O pai dizia que era tudo infernal e guardava a renda, e posso afirmar por conhecimento direto que não foi pouco o que pagaram para usar retratos de Yasmin enquanto a onda durou. Mas”, e então pára porque o garçom está a nos servir novo suprimento de vinho e ele o precisa fiscalizar, “mas é conversa fiada que Yasmin tenha usado dinheiro do velho, embora de certa forma também dela, para fazer o que fez. Ela nunca precisou disso.”
“E que fez ela?”, pergunta da ponta da mesa a estimada leitora, e ainda o estimado leitor, que, a essa altura já provavelmente não se lembra, foram ambos a páginas tantas convidados a tomar assento no texto e no bar, como se parte de Giuseppe ou o próprio Giuseppe ou ainda uma outra coisa que seria soma de Giuseppe e do leitor ou leitora e, enfim, essa confusão habitual que fazemos por não bem entender o que se está a desenvolver, mas o caso é que se tasca essa questão e ela é tudo que Onofre Dei, esse grande ego tomador de vinho, queria ouvir nesse exato momento. Discorrer sobre o que considera a parte mais espirituosa da história da diva é um presente a ele que nós, freqüentadores da casa, normalmente negamos por já ter a ouvido em excesso e, inclusive, pela existência de tantas dúvidas sobre pontos cruciais da lenda, já que a própria Yasmin nada diz – exceto talvez a raros que a convivam a intimidade. Sem dúvida é estranha a história toda já partindo do ponto de que, menina, era completamente surda. E, diga-se, surdez atestada por fontes variadas, inclusive revistas de porte que a puseram em destaque e antigos amigos que ainda correm pela cidade, apesar de hoje não desfrutando da amizade da diva, reclusa em uma curva de ambigüidades invisíveis que, por justificar a lenda, nos agrada. Mas como, logo após os fatos relatados, se calaram os barulhos públicos sobre a menina Yasmin ao longo dos anos que restaram a sua infância, pouco sabemos desse período da biografia da diva. É uma fase de silêncio como devia ser para ela a vida, um mundo opaco de sons guardado na insurdescência que médico algum conseguiu resolver.
A surpresa, e Onofre Dei retoma o giro do caco de queijo hipnótico nos seduzindo a atenção, a surpresa é que o exílio sonoro de Yasmin foi perpétuo até a menarca. Não correu estrela no céu, não tremeu o chão nem o pai acordou aturdido com sonho de estranha consistência. Simplesmente ela começou a ouvir tão logo menstruou. Foi como um botão desses de aparelhos que nos rondam sendo girado: o que eram inexistências passou a fazer parte do que a contornava. Teria investigado com o pai a dupla umidade, aquela que gotejava seu íntimo para o fora e a outra que pespegava com tintas frescas seus ouvidos? Que é que faço se me dói tudo, como se fosse explodir, a menina teria implorado ao pai. E é assim a vida, ele diz. Mas se é de dor, para que serve ouvir? Melhor então ficar longe do trator, que até a mim me machucam as orelhas montado nele, diz o pai, pragmático por não ter ainda tocado as profundezas da pergunta. É que me pega dentro a dor, um aperto triste de choro que não sai do olho mas me escorre nas pernas. É da sua natureza: cada ser tem uma dor escondida que um dia brota e fica ali pedindo cuidado, e quando a dor se resolve acaba a vida porque essa dor nem é dor, ela que é a vida. Vai ser assim sempre, me queimando as orelhas e o ventre? Cada um queima de um jeito, por isso a resposta do outro não serve para o um. Onde queima no pai? Nas mãos e nos pés, que não sabem parar mas têm medo de andar. Os meus não têm medo. É, eu vejo, diz o pai, deve ser porque o temor de quem vem antes é a coragem de quem vem depois. Que coragem é essa se só me põe medo?, a menina ri, mas o pai, sério que sempre foi por não ter facilidade com o riso, diz a ela que isso é coisa singela, só o medo da coragem de tocar em frente o destino. Havia uma nota triste no que ele dizia, mas Yasmin só a compreendeu anos mais tarde. Naquela manhã ensolarada, ela abraçou o pai, o beijou e jogou umas coisas na bolsa, se deliciando com o farfalhar dos panos roçando um no outro e com o escorregadio de musgo riscado do zíper, com o amassado gorduroso dos pés apertando o chão e os estalos de engrenagens e eixos movendo a fechadura da porta. Depois, foi tomada por uma tempestade de trinados e zumbidos e cacarejos e vozes e sussurros e troados e roncos e assovios que a fizeram levitar, embora dolorosamente, andando de som em som em busca do próximo e do próximo, até tão longe se encontrar do pai, da casa e da infância que era já então uma mulher em busca de sua vida.
“Mas por certo não respondo sua questão”, o radialista Dei continua a brincar com o queijo, girando os olhos em direção à extremidade da mesa de onde lhe perguntaram há um tanto o que havia feito Yasmin, qual teria sido a proeza de tamanha projeção ainda hoje capaz de manter a aura de não se sabe o quê em torno dela.
“Não responde mesmo”, diz a voz que, estamos a ouvir bem?, vibra tímida, olhos baixos, como de criança confessando o crime de ter sorrateiramente tomando o ônibus ao centro da cidade, na mais maravilhosa aventura já sonhada, e depois descoberto que a aventura de uns é o martírio de outros, como se Deus experimentasse sensações antes de pô-las em linha de montagem ou, e isso soa melhor, como se as tonalizasse fornecendo uma alavanca de sutil movimento para cada ser ajustar o montante de dor e de alegria até sintonizar o ponto de conforto que agrada à sua natureza única. Essa é a ideia articulada pelo pai de Yasmin, sem dúvida em outras palavras, e é também a que a menina Yasmin experimentou lá se vão quase 30 anos ao menstruar pela primeira vez, abandonando por certas vias tortas a surdez e em seqüência tomando o caminho do mundo, sem sequer saber se o poderia, se as garras estavam prontas a resistir aos ataques que testam o modelo de que nos investimos, melhor dizendo, de que ela se investiu, e não se tem ciência se mais tarde sentiu medo do feito e o coração apertou pela glória passada, mas lá atrás naquele instante sim, ela temeu cada passo ao tocar os pés no chão mas se encantou a cada passo ao rodá-los no ar para completar o movimento, e foi assim, um giro levando ao seguinte, que Yasmin nos voltou ao conhecimento tempos mais tarde, vale dizer uns sete anos depois do relatado episódio da menstruação que exauriu a surdez, e era uma nova Yasmin inesperada que, uma manhã qualquer, nos chega aos olhos pelo jornal de outra cidade tão longínqua quanto a que habitamos no primeiro sonho da noite. A notícia fazia menção à menina que simbolizara por uns tempos finada campanha educacional do governo, mas era menção jocosa, mostrando ao lado da belíssima núbia da foto, que sabemos ser Yasmin com seus 20 ou 21 anos, uns rabiscos malfeitos sobre o local ao qual ela andava então emprestando seus dotes, não os sensuais mas os de gerente ou administradora ou mentora ou sócia, o rabisco não o deixava claro por ter mais interesse em demonstrar o resultado de tal plano educacional criado nos estertores da ditadura militar, de modos que no primeiro instante só soubemos se tratar de Yasmin agora como jovem empreendedora tocando uma boate, um lupanar, um prostíbulo, um puteiro – mas de luxo e em plena capital, brilhando no topo, tão longe da roça de onde viera –, e essa informação nos agradou a todos e nos constrangeu ao mesmo tempo, não pelos serviços sexuais prestados na casa em questão mas pela falta de cuidados do texto ao não dizer o que realmente importava e faria diferença, coisas como a história da garota desde que deixou o sítio, o fim enigmático de sua surdez e a explicação para a ascensão social por ela experimentada, visível pela foto no esplêndido costume carregado aos ombros e nas pérolas brilhando em seu pescoço levemente crispado, as texturas de ébano e nácar amalgamadas na mais bela oposição que, por tanto contrastar, nem um pouco contrastavam. Vem daí que a fama feita de papel novamente por Yasmin se interessou, talvez lembrando do flerte em seus tempos de infância, e então por meses corridos a acompanhamos em jornais e revistas até nos saciar, muito embora nada de importante tenha sido descrito além da presença de senhores bem apessoados na casa de encontros, umas festas e uns escândalos de quando em quando, com a folia permanente na qual se dava a entender Yasmin vivia sendo momentaneamente levada a uma delegacia de polícia de onde logo todos saíam felizes ainda empunhando suas flûtes de espumante. Depois os papéis se desinteressaram de Yasmin, naquele ciclo que seu pai já havia intuído, e nos perdemos da beleza núbia arrebatadora até que, sem explicação, cá de volta ressurge comprando um confortável casarão dos mais antigos para nele instalar sua festa e – “estou indo rápido demais?”, pergunta Onofre Dei, sem nos ligar para as respostas – e isso é tudo, já que uns anos mais tarde vem nosso amigo Francisco, fica doente na casa da diva e logo a apresenta a Giuseppe, e por fim cá estamos no resultado desse encontro todo.
Oi, José. Não consigo te responder pelo Twitter (@LilianHonda) se vc não for meu seguidor (ai, que palavra mais esquisita…). Abs.
Já estamos nos perseguindo mutuamente no twitter, Lilian, e é mesmo um prazer ler seus textos lá – e os do seu blog, mais ainda. Obrigado!