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O Dom da Invisibilidade – Cap 3

O Dom da Invisibilidade
(quer ler capítulos anteriores? Eis: Capítulo 1Capítulo 2)


Capítulo 3

“Ela me usou”, Francisco diz em voz novamente tão baixa que é quase estática de rádio meio a outras estáticas, sussurro feito de vento ensinado (mas mal ensinado) cujo destino é chegar limpo apenas às orelhas de Onofre Dei seu amigo, sequer de Onofre Dei o radialista – uma nota grave que deveria se enviesar nos evitando tímpanos e olhares para vibrar seus segredos tão só nos túneis auditivos de Dei, como fosse mesmo ele deus e Francisco o pecador ajoelhado desarrolhando uma garrafa de tinto há muito enfiada sob poeira e pedaços de caixas e cacos de telhas e outras coisas que aos porões se lançam para lá esquecê-las e, com sorte, lá morrerem em silêncio.

Francisco não nos quer ouvindo, está bem dito, mas também já dito foi que é de nossa natureza observar e, mesmo lutando contra o impulso, não podemos evitar que uma ou outra expressão nos chegue, ainda que tingida dessas cores de lusco-fusco que se as confundem com o entorno, coisa de camaleão que certas palavras e certas complexas orações têm, de maneira que desculpe a leitora, o leitor, se falta claridade – é característica desses porões em que nos metemos a bordo do que não poderia ter atingido nossos ouvidos, se é que os atingiu, se é que não apenas o imaginamos, o que nem seria difícil ocorrer dado o nível de ruído no bar, a essa altura, ter se tornando um tanto incômodo para a precária arte da observação das invisibilidades.

E enquanto iludimos a própria curiosidade da tela do computador com essa barafunda de palavras, nós que já a havíamos chamado de papel, como se usássemos máquina datilográfica, com suas maravilhosas roldanas por entre as quais idéias que escorrem de qualquer recôndito cerebral ganham a segurança da permanência (falsa, ah, tão falsa) das folhas de celulose tratadas com ácidos e alguma candura, bem, que confusão, um pedaço de frase aqui, outra conversa que o vento traz dali, é assim que mal ouvimos o maître Francisco e seu amigo Onofre Dei falando sobre Yasmin, a núbia de beleza estonteante que há quase um nada deixou seu reino das comidas para se lançar na quiçá ingrata missão de salvar Giuseppe.

“Ela me usou”, Francisco murmurou respondendo a uma provocação de Onofre Dei, que perguntara por que ele se mostrava tão cheio de raivas mal penteadas ao se referir a Yasmin, ainda mais considerando não ter sido outro senão Francisco quem apresentara a núbia a Giuseppe, anos atrás, e com esse simples gesto permitido a criação desse lugar de raras comidas e bebidas em que nos alojamos e que, de alguma forma, justifica a existência da cidade a seu redor e quem sabe até de todos que aqui existimos ou julgamos existir.

Francisco diz chorou por cinco horas na viagem que o trouxe a essa cidade, imaginando que seria mais uma entre as muitas já tentadas, todas inúteis em o distanciar do que ocorreu, do que não ocorreu e de uma junção alquímica de ocorridos e não ocorridos, em sua vida passada como maestro, como cozinheiro de sons em alguma orquestra longínqua que a ele emprestou fama e, até onde se vê, também amargura.

Aqui desembarcou em uma rara madrugada fria e algo nevoenta na velha rodoviária rodopiada por ventos e perfumes de diesel e urina. Um café o esperava no balcão em U do bar ao lado das rampas de ônibus. Queimado, ruim, mas decididamente eficaz para desembaraçar de seus olhos qualquer lágrima de sono ou de pior nascimento porventura ainda ali guardada. O homem corpulento que lá à frente, do outro lado do U, por vezes lança um olhar em direção ao lugar onde Francisco beberica o café, não o reconhece?, é Onofre Dei, uns dez anos mais jovem. Eles ainda não se conhecem, mas a vantagem de observá-los aqui do futuro é sabermos que breve, ainda nessa noite fria para os padrões locais mas fresca para quem de longe vem, como Francisco, o farão. Acima de Francisco, uns três ou quatro metros atrás, há um grande relógio redondo marcando as horas da madrugada que, aqui, se estica muito mais que naqueles lugares feéricos, nos quais as luzes, os automóveis e as pessoas em profusão correndo todos para se salvar de sabe-se lá o que, acabam por esgarçar o tempo, desandando em minutos as horas e tirando delas sua mais preciosa seiva sem, no entanto, fruí-la.

Pois então esse risco não se corre. É uma madrugada lenta. O ponteiro dos segundos, no gordo ser mecânico pendurado nos arcos da rodoviária, pula as casas e se demora em visita minuciosa a cada uma delas. São três horas. Francisco não quer perturbar a essa altura da noite o corretor imobiliário com o qual negociou uma casa, sem sequer a conhecer. Suas coisas já lá estão, despachadas dias atrás, mas nem chaves ou endereço os tem. O homem que o serve outro café queimado indica uma pensão ali perto. É barato?, o maestro se certifica. Depende do que pedir, o homem responde. Francisco só quer dormir, ou tentar dormir. O homem solta uma risada algo cínica e pisca os olhos de corte oriental com uma estranha alegria.

Depende do que pedir, ele repete, rindo outra vez, quando Francisco já se encontra a caminho, a única bolsa de couro pendurada nos ombros, quase se arrastando na direção indicada.

A noite se adensa além da rodoviária. Há um silêncio profundo feito de escuros e de latidos ocasionais de cães que se comunicam por falta de melhor lazer. Uns cheiros de frutas podres, doces e competentes, giram de quando em quando em torno dos passos de Francisco. Muros caídos com musgo, os tijolos opacos se mostrando nas frentes das casas e o brilho nas pedras das ruas dão a ele uma agradável sensação de familiaridade. Por vezes venta, curto, e há plantas dormindo atrás dos portões de ferro com tinta descascada pelos quais passa. Um gato corta a esquina correndo sobre as patas de espuma. Francisco ouve o próprio coração e os passos que range sobre a calçada, entremeados pelo roçar da bolsa no tecido da jaqueta. Ganha outro quarteirão e um grilo marca o tempo – é o único novo som que o segue, até cessar completamente.

A casa é um sobrado grande, escurecido e cercado por ramas de jasmim que tecem um pórtico e depois se espraiam agarradas às paredes. O duplo portão de metal sob o pórtico está aberto, convidativo, e além há uma escadaria semiluminada que o entrega a uma varanda confortável com poltronas de madeira e flores. Da porta que agora olha escapam sons de música e de vozes, como uma festa abafada. Ele procura pela campainha quando um rapaz sobe as escadas apressado e corta sua frente, empurrando a porta e sumindo lá dentro da casa: é um choque de barulhos e luzes e aromas e pessoas e fumaça que a porta revela, e Francisco está certo de ter errado o endereço da pensão quando de dentro do alvoroço vem a ele a mulher de avantajados olhos negros o fitando desde longe e se aproximando sem o deixar, semelhando a nem piscar, o envolvendo e o paralisando, deixando-o outra vez a ouvir o próprio coração, agora filtrado de todos os barulhos e cores da sala em festa.

A mulher dá um último passo e o contato visual se perde – a impressão de Francisco, quando ela familiarmente o abraça e sussurra alguma coisa que não se entende, é de ter sido mergulhado no olhar e, em seguida, retirado de lá por umas mãos feitas de cheiro de madeira úmida e noturna. Ela sorri, dentinhos arredondados brancos de lua, e se afasta um tanto mantendo as mãos nos ombros de Francisco. Torna a dizer o que sussurrou – que ele é bem-vindo ou algo assim e que o nome dela é Yasmin, como?, Yasmin, ela repete, e não quer guardar a mochila ali no armário e beber alguma coisa, conhecer as meninas e relaxar? O perfume de madeira orvalhada o penetra e estoura como bomba terrorista dentro dele: um silêncio submarino escuro e uma deliciosa fraqueza o tomam nos braços e tudo que vê são aqueles olhos que o olham de perto, de cima, que o esquadrinham e perguntam coisas e o confortam sem exigir dele nada que não possa dar, mas que então se apartam, o obrigando a buscá-los e, com o movimento, a perceber que está deitado a algum lugar, um tecido áspero e agradável sobre o corpo e a sensação estúpida de não entender o que se passa e o que se passou.

 

Capítulo 4

 

 

  1. Outubro 9, 2009 ás 1:08 pm | #1

    Excelente narrativa. E como toda obra profunda, há identificação. Há certos trechos que remetem ao meu passado, talvez presente… curioso… para ler mais de uma vez…

    • Outubro 9, 2009 ás 1:58 pm | #2

      Talvez remetam ao passado ‘nosso’, de uma forma mais grupal, de experiências comuns a uns tantos. Será? Ficaria feliz se sim. E obrigado pelo ‘obra profunda’. Foi muito bom ouvir isso. Embora venha me dando trabalho escrever, de fato acho que é só um textinho um tanto quanto raso.

  2. Março 31, 2010 ás 12:59 am | #3

    Amei seu blog, muito mesmo. Vou voltar para ler desde o começo. bjs

    • Março 31, 2010 ás 1:25 am | #4

      Obrigado, Joyce. Tomara que goste também lendo desde o início =)) . Há mais um capítulo para postar e outros tantos para escrever, mas como usual o tempo anda escasso. Penso que no fim de semana o novo capítulo da novelinha já possa ser publicado – só tô dando uma revisada por cima para não sobrar excesso de erro. Escreva suas críticas, por favor, se ler a história toda até aqui. Bj

  1. Novembro 19, 2009 ás 12:23 am | #1
  2. Novembro 19, 2009 ás 12:25 am | #2

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