O Dom da Invisibilidade

O Dom da Invisibilidade

As trevas são elas próprias as telas – Charles Baudelaire


Capítulo 1

Existe um milenar ditado latino que reza algo como “acreditei, por absurdo”. Ou seja, a velha espécie humana, que a ciência por vezes nos faz crer tenha nascido do caos e da entropia, é ela tão propensa a acreditar no extraordinário que por vezes chega a preferir o absurdo ao crível. Talvez fique mais claro em outras palavras: como nós, que derivamos do caos (e isso provam-nos as mitologias todas, de um jeito ou de outro, de forma que temos também um argumento para os luditas), poderíamos por um momento que seja duvidar do absurdo, principalmente do mais agudo absurdo? Não o podemos. Se nossas entranhas são feitas de estrelas, como querem sábios e sacerdotes, e se também nos astros está nosso destino – eis as vozes dos sonhadores e dos supersticiosos soando –, pouco nos resta além de dar crédito a todo o tipo de acontecimento fantástico que julgamos presenciar ao longo da vida.

O fato de explicarmos um punhado de fenômenos da natureza os torna menos singulares? Uma tempestade que varre a cidade a partir do céu há quinze minutos azul, na tarde ardente de verão, é mais crível que um punhado de átomos ser capaz de dizimar 226 mil humanos? Mas a ambos fenômenos os explicamos, embora muitos de nós prefiram não ouvir as explicações, atendo-se aos fatos de que chuvas são tão corriqueiras quanto nascer ou morrer e que, vista de hoje,  Hiroshima nuclearizada é como um filme de horror, uma lenda, um conto do passado – e nos dias anteriores à nossa existência quase tudo pode ter acontecido e ter sido, à sua maneira, também corriqueiro, mesmo que incompreensivelmente corriqueiro. Nós tampouco damos valor, além do sentimental, às histórias que as crianças nos contam ao voltar de um dia cheio de aventuras (embora simplesmente tenham apanhado um ônibus até o centro e de lá retornado após horas tantas). Coloque-se em cena: se uma criança o aborda no solitário happy-hour, em seu bar predileto, e puxando as fraldas de sua camisa diz ter visto um fantasma chamando-o logo adiante, que tipo de resposta a ela dará?

Vamos chamar a esta criança, porque parece conveniente, de Eneida. Agora o prezado leitor, ou a estimada leitora, que tão gentilmente parece ter consentido em se colocar no texto à guisa de usuário do bar, é chamado (e é chamada) a ganhar distância de sua enfadonha hora feliz solitária e observar Eneida em seus sete ou oito anos: ela acaba de saltar do carro que parou à frente e, em dois pulinhos despreocupados, alcança o lance de escadas. Como venta, prenunciando a anunciada tempestade que há de varrer o mormaço do fim de tarde, seus cachos se desfraldam em todas as direções. Eneida é negra, mas, pelas artes da mistura e experiência das gerações que a precederam, tem os cabelos em longos cachos leves que por vezes caem-lhe sobre os olhos para ela, com prazer, soprá-los para cima – inutilmente, é verdade, mas o que conta é o prazer. Eneida agora já ganhou o platô, acima da escada, onde as mesas do bar esperam os fregueses. Ela segue para a direita com os olhos belamente escuros e muito abertos que sem dúvida nada vêem deste universo de cadeiras e mesas em que todos estamos envoltos: apesar de atento, seu olhar estende-se a horizontes mais imprecisos, escondidos entre o sonho da infância e as brumas do calor que sequer o vento agora forte consegue dissipar.

Eneida prossegue em seu passinho galopante até que, ao passar diante do amplo balcão atrás do qual nenhum garçom espera ordens, ela estaca e, em um único movimento cheio de graça, vira o corpo para a esquerda, eleva uma mãozinha até a altura dos ombros e a balança com rapidez da direita para a esquerda e da esquerda para a direita repetidas vezes, ao mesmo tempo em que sua boca abre-se em um sorriso encantador de dentes brancos e seus olhos voltam a discernir o mundo exterior, tal qual o vemos. Que faz ela? Sem dúvida cumprimenta com vivacidade alguém que se encontra entre ela e o balcão. Para confirmar a impressão, eis que a voz de Eneida surge, cristalina e até um pouco mais grave que o esperado:

“Olá. Tudo bem com você?”

Depois ela escuta algo com atenção – nós não ouvimos porque, infelizmente, um funcionário mais dedicado ligou o rádio e a música alta ganha o ar da casa de bebidas. Mas eis que Eneida já atendeu ao chamado, ouviu o que tinha de ouvir e volta-se, como antes, para a direita, prosseguindo no mesmo caminho que traçava. Esqueçamos por um segundo da criança e deitemos os olhos na direção do interlocutor, ou interlocutora, de Eneida: quem está entre o ponto em que ela girou sobre seu próprio eixo e o balcão? Não nos espantemos se ninguém ali existir, porque é exatamente assim: uma porção de mesas com toalhas vermelhas e brancas sobrepostas, encimadas por vasinhos de flores e ocasionais cinzeiros, guardadas por cadeiras ruivas de madeira. Poderia a pessoa que Eneida cumprimentou e ouviu com atenção ter rapidamente deixado o cenário? Mas se de um lado estamos nós observando o bar, de outro a meia-parede que antecede a cozinha e ainda do outro o balcão alto e vazio, para onde teria ido tal personagem?

Melhor anotar o detalhe do sumiço, para mais tarde talvez voltar a ele, e procurarmos por Eneida. Ela está a um par de passos da mesa onde um empertigado cavalheiro finge a si mesmo divertir-se em um enfadonho happy-hour solitário. Ao passar ao lado da mesa (agora um único passo a distancia do cavalheiro), Eneida vira-se no mesmo gracioso movimento que experimentou pouco antes, abre o sorriso luminoso e eleva a mãozinha, mas como não obtém resposta acaba por se aproximar mais e puxa as fraldas da camisa do cavalheiro. Ele – será que devemos lembrar que se trata da encarnação do prezado leitor ou prezada leitora no texto? –, pois bem, seja como for, ele eleva o semblante de seu chope que parece já quente e encontra o olhar de Eneida. Nada diz mas sorri – porque é um cavalheiro, e convém a um cavalheiro sorrir para uma criança, e ainda porque Eneida é de uma beleza particularmente luminosa. Ele e ela se observam por uma fração de tempo, como fazem por instinto os humanos ao cruzar outro de sua espécie, e então ela diz em sua voz infantil mas surpreendentemente grave:

“Um fantasma, ali atrás, está chamando você”, Eneida dá a informação investida de seriedade, como parece supor devam ser transmitidos os recados de fantasmas.

Sua primeira reação é voltar-se ao ponto onde ela indica alguém o chama, mas ainda antes do movimento de cabeça ou de olhos sua atenção é distraída pelas palavras que a garotinha empregou: por que “você” e não “o senhor”? Passa rapidamente por seus pensamentos a lembrança de chamar a seus pais por senhor e senhora, e assim também aos mais velhos em geral, mas igualmente instantânea é a idéia de que os tempos mudaram e, com eles, a distância medida pelas palavras entre as pessoas. Então, já desfeito da má impressão, seu olhar passa pelo lugar que Eneida indicou e em seguida volta ao rosto da menina:

“Que?”, você pergunta, porque de fato ainda não conseguiu prestar atenção ao que ela disse, limitando-se a observar que Eneida não utilizou expressões polidas ao lhe dirigir a palavra.

“Um fantasma, ALI, quer falar com você”, a menina repete, desta vez enfatizando o exato ponto de intersecção entre as linhas formadas pela primeira fileira de mesas, o balcão e o lugar onde ela parou para cumprimentar alguém que lamentavelmente não vimos.

Eneida nota que o homem sentado sorriu outra vez, o que parece indicar o recado tê-lo agradado. Mesmo assim, você – ou melhor, ele – não se dirige ao fantasma. Antes, observa atentamente os cachos de Eneida caindo sobre a testa e pergunta a ela qual seu nome. Mas, como se chamado pela questão, um trovão estrala e uma chuva especialmente forte, secundada por rajadas de vento que elevam as toalhas das mesas, despenca sobre o local. Em contínuo, uma voz melosa sai do outro extremo do bar, próximo ao canto onde há pouco nos pusemos a observar Eneida. Misturada aos ruídos da chuva cada vez mais forte, aos tapas abafados do vento, ao rádio e aos trovões, a voz é tão somente um veículo que nada carrega. E, embora não se entenda o conteúdo daquele lamentoso grito longo, Eneida se apruma, informa ao cavalheiro que a chamam e mergulha no mar de mesas e cadeiras.

Como nos apetece observar, e como temos no momento certa liberdade com a matéria do tempo – ela aqui é massa dúctil que torcemos como argila úmida – , podemos deixar que Eneida se vá: mais tarde será possível apanhá-la nesse exato instante e seguir seus passos. O cavalheiro que olha Eneida ultrapassando em ziguezague as mesas desocupadas, porém, tem lá suas pressas: nem bem chegou há meia hora e já consultou o relógio tantos punhados de vezes que cansamos de enumerá-las. Para facilitar a lide de observá-lo, façamos de conta que este exemplar da classe masculina dos humanos não é outro senão ele mesmo: esqueça, mas sem perder de vista o fato, que ainda há pouco ousamos convidar a leitora, ou o leitor, a tomar assento no texto e no bar. Melhor dizendo, desligue-se do cavalheiro, deixe que ele aja por si. Olhe-o de longe como se a estudar um inimigo ou um profundo amor. Esqueça, por fim, o que já sabe a seu próprio respeito – isto é, a respeito do cavalheiro em questão – e siga-nos a investigar quem afinal é ele.

De fato pouco sabemos a seu respeito, mas de alguma maneira já temos certeza de que se trata de um cavalheiro (tantas vezes repetida a informação e, ainda, pelo raro de encontrar tal espécime em extinção). A esta altura chega a ser fútil inclusive questionar a informação: de onde veio? quem a deu? que provas há quanto a ele ser mesmo o que se diz que é? Estas perguntas não nos ajudam a conhecê-lo. Vale dizer, nenhuma pergunta ajuda a descobrir algo se o perguntador não se detém nas respostas. E estas, acredite, há de mancheias – apesar de quase nada termos perguntado.

A notícia de que este homem toma seu chope de happy hour quando sequer os garçons estão a postos (teríamos o dito?) parece indicar alguma coisa. No mínimo, que ele tem tempo livre antes mesmo do que se convenciona chamar final da tarde, um marco que nos bares onde se servem horas felizes está cravado nas seis horas – ao menos nesta cidade. Levando em conta que dissemos ter ele observado o relógio várias vezes em meia hora, e ainda considerando que esse tipo de bar tem seus humores, e que esses humores são noturnos, pode-se concluir que o cavalheiro ali sozinho deve ter sentado à mesa por volta das cinco e meia da tarde. Naturalmente esse vai e vem de dados é puro jogo de cena e a conclusão é no mínimo incerta, mas bares não são lugares de certezas. E, ademais, sempre podemos dizer que vimos quando o cavalheiro tomou assento, e que sem dúvida não passava das dezessete e trinta.

Mas o fato deste senhor ter tempo livre no final da tarde, ou ainda antes de seu final, pode por sua vez indicar outra dúzia de coisas: que se trata de um plantonista noturno fazendo hora antes do início de seu turno, um desempregado extenuado por ter procurando inutilmente uma ocupação ou ainda um milionário desgostoso com algum acinte que lhe aprontaram. Há milhares de outras hipóteses – a dúzia que se citou é força de expressão –, mas estas três já parecem suficientes a mostrar a quase total impossibilidade de separar apenas uma e elegê-la como correta.

O cavalheiro porém efetivamente tem alguma urgência ou, quem sabe, espera por alguém: já lá está com os olhos postos outra vez no relógio de pulso, que descobre puxando cuidadosamente a manga da camisa com as pontas do polegar e do indicador direitos. Sobre a guarda da cadeira que ocupa há um paletó claro de linho ou tecido semelhante, que embora contraste com o avermelhado da madeira não causa qualquer efeito se posto sobre sua camisa – alinhada – em palha pálida. E há outro detalhe: ele por vezes passeia os olhos pela casa com tal conhecimento que é como se não enxergasse os móveis e petrechos: nos dá a impressão de que só conseguiria ver algo se fora de seu lugar habitual. Pois esta é uma das regras da familiaridade excessiva – o dom da invisibilidade. Com o quê então estamos prestes a afirmar que nosso objeto de observação é assíduo do bar, ou vem se tornando um. Talvez por estarem todos os objetos em suas perfeitas posições, o cavalheiro abre os braços como asas e os levanta à altura da cabeça, distendendo os músculos no movimento que se usa chamar espreguiço. Quando as mãos voltam à mesa, no entanto, alguma decisão parece descer com elas das alturas, de maneira que o cavalheiro pega a caneca de chope e o toma todo, levantando da cadeira a seguir e, sem se preocupar com o paletó claro, pega o rumo da cozinha. Duas vozes o saúdam quando cruza o limiar da porta. Nós o perdemos de vista, mas o tom das vozes que se rejubilam por vê-lo ali nos dá uma pista: o cavalheiro talvez seja funcionário ou mesmo dono do bar. Sim, por que não? Dono do bar. Quando esta intuição nos vem, semelhando a um clarão luminoso ou a um dardo de sol, é como se nossas observações todas fossem rearranjadas em um feixe: passam a fazer sentido para o homem que observamos e se encaixam nele, e não da forma que esperávamos mas da forma que têm na realidade. Outra vez, sim: soa a cada instante mais correto afirmar que o observado tem o bar entre suas posses. Se não acredita, se nossas provas são fracas, sinceramente tanto se nos faz – a verdade é que a voz que conta a história é nossa, e podemos como paga ter aqui esses pequenos caprichos.

Como o cavalheiro desapareceu de nosso conciso horizonte de eventos, podemos voltar a atenção à deliciosa figura de Eneida (um tanto no passado), que, com os cachos dos cabelos agitados como bandeirolas de Volpi ao vento, passa pelo balcão e vira à direita mais a frente. Ela agora pode ver Granel, que a chamou e teve sua voz melosa engolfada pela cacofonia de ruídos da chuva e da música, sentado ao lado de Esplendorosa.

“Viu, titio?”, Esplendorosa diz fitando Eneida e em seguida seu companheiro de mesa. “Sua bonequinha não foi para a chuva!”

Batendo com as polpas dos dedos ridículas micropalmas silenciosas, Granel sorri para Eneida e exclama em voz alta, afetada, “vem para o pai, que-e-rida!”, abrindo os braços. Eneida acelera o galopinho e se joga no abraço para, em seguida, se desvencilhar, acertar a barra do vestido, puxando-a para baixo, e sentar ao lado do casal. Os três são então tomados pelo silêncio. Um silêncio grave, profundo.

Nem bem dez minutos se passam e a chuva cessa, deixando apenas gotas ocasionais de uma ou outra nuvem retardatária.

No outro extremo do bar o cavalheiro do qual nos ocupávamos acaba de abandonar a cozinha. Seu nome, o rapaz e a mulher que o escoltam até o largo das mesas o repetem algumas vezes, é Giuseppe. O duplo-p é por nosso risco, mas o nome sem dúvida é esse.

Pois, chamemo-lo assim, Giuseppe sai da cozinha quando a chuva se vai, e não há motivos para deixar de supor que o faz justamente pela estiagem: nem tão interessado no relógio quanto antes ele parece. Poderia estar consultando as horas tão intensamente por esperar a chuva, por pressenti-la ou desejá-la? A alguns pássaros é dada a capacidade de intuir o fim das tempestades – saem de seus esconderijos quando a água ainda cai, quase no instante de seu fim, de forma que há quem pense eles terem a capacidade de deter chuvas. Giuseppe, que nada tem de ave, segura agora um CD subtraído do paletó largado onde antes tomava chope. Seus olhos, límpidos e tranquilos, confirmam que a ansiedade se foi, e é assim envolto em um ar de beatitude que toma a direção do balcão: andando com extrema rapidez pelo geométrico quadriculado produzido pelas mesas, dobrando seguidos ângulos retos e desviando dos obstáculos em um intrincado caminho que o leva à extremidade do balcão, ele salta automaticamente a portinhola ali instalada apoiando a mão direita no tampo de granito para jogar os pés, e em ato contínuo o quadril, por sobre ela.

Quem o observa com a expressão divertida de alguém que conhece o espetáculo mas dele não se enjoou é o maître Francisco, um senhor bronzeado e de cabelos brancos bem cheios. Nós o reconhecemos em função do pôster que guarnece uma das paredes do bar, onde sua foto, em uma reportagem de jornal, aparece sob o título “O Sumiço do Maestro”.

Giuseppe por sua vez desaparece atrás do balcão e, com isso, a música de rádio cessa – para quase instantaneamente ser substituída por outra, em volume bem mais alto. A primeira nota faz estremecer Esplendorosa, que logo ri de seu próprio susto. Atrás do balcão, Giuseppe se ergue em movimento teatral (embora o faça para si, insensível a quaisquer olhares): espalma as mãos sobre o rosto e leva a ambas em direção ao mais alto ponto da cabeça, lançando os longos cabelos para trás. Sua boca exprime extrema satisfação, e ele suspira sonoramente. A voz que as caixas acústicas liberam é inequívoca – é Kasarova, a linda mezzo soprano de olhos penetrantes. Vesselina canta um movimento de Don Giovanii, In quali eccessi, o Numi; Mi tradi, quall’alma ingrata. Giuseppe tem as pálpebras cerradas e a cabeça deitada para trás, apoiada nos dedos entrecruzados das mãos sob a nuca, e é dessa pose de prazer que é arrancado por uma voz melosa (já a ouvimos antes) reclamando da “música de velório”.

Com um par de passos, Francisco identifica o cliente insatisfeito – aquele homem extremamente magro, alto, de cabelo espigado tingido de vermelho, ao lado de uma mulher que já teve seus melhores dias e de uma criança que sem dúvida não é filha nem de um nem de outra. Naturalmente se tratam de Granel, Esplendorosa e Eneida.

“Grosseirões”, Giuseppe diz entredentes mas alto o bastante a ser ouvido por Francisco, para quem completa, o olhando com os olhos virados para cima e o rosto para baixo, testa enrugada: “Mozart também teria se tornado maestro de bar neste país miserável”.

Francisco responde com um sorriso benevolente que só a idade e alguns quilos a mais conseguem emprestar a um homem.

Mas não é de sorrisos e tampouco de benevolência que nosso observado amigo parece precisar. Agora que disse a pequena maledicência ao maître, é como se miasmáticos humores refreados ao logo do dia, ou dos dias ou mesmo da vida, precisassem cobrar, de uma só vez, seu preço a Giuseppe. Seus olhos, quando ele se ergue completamente (o CD preso entre as mãos, à altura do peito, como um medalhão espelhado), estão injetados.

Que se passa neste homem? Só é possível imaginar: a voz de Kasarova ainda ecoa em seus ouvidos, mas o mau humor é maior que o linimento: é um rio ardente preenchendo cada espaço entre os pensamentos e por fim os inundando, um a um esmagados. Dramático, não é? Mas se a imagem vale, e se corresponde ao que de fato ocorre dentro de Giuseppe, nesse momento nada resiste à avalanche sem direção ou mensagem da raiva, em seu serpentear exigente que clama por reação. O bar, em tal cenário mental, desaparece: não há recursos no cérebro de Giuseppe para nada além da raiva contida. Francisco já não mais o guarda com seus benevolentes olhares de quem foi provado e se santificou: Francisco sumiu das pupilas de Giuseppe, que só refletem os tons ardentes de dentro dele mesmo. Também a ira contém em si algo que leva seu hospedeiro a desenvolver, momentaneamente, o branco dom da invisibilidade. Por isso Giuseppe nem pestaneja ao novamente saltar a portinhola do balcão, quase acertando a cabeça do maître com os pés voadores.

Quando passa ao lado da mesa onde Esplendorosa, Granel e a encantadora Eneida gastam o tempo em silêncios, ele tem ímpetos de socar o homem de cabelos tingidos. Mas, ao contrário, sorri e bate uma dupla continência com o CD na têmpora direita, dizendo cortesmente “sintam-se em casa” e se afastando em direção à rua, por sobre o gramado. Eneida volta-se mas o cavalheiro já lá está no meio da grama, pisando com firmeza os charcos deixados pela chuva. Os outros dois não devem ter ouvido o cumprimento. Esplendorosa está perdida em algum torvelinho de idéias que a faz suspirar de tempos em tempos. Granel, por sua vez, tem a cara boba de êxtase dos santos medievais: seu olhar vidrado parece focalizar algo no céu além do teto.

Nenhum dos dois pode enxergar ou ouvir Giuseppe. Tanto ela quanto ele teceram em torno de si rudes teias incolores, sem perfume ou maior charme, de sorte que embora não as percebam estão nelas enredados e, assim, isolados do mundo. É como dizer que o universo externo a cada um deles não existe: tornou-se, ele próprio e tudo que contém (inclusive Giuseppe e seu simpático cumprimento), invisível. E, notemos sem dúvidas, se queda invisível justamente pela infelicidade do casal. A tristeza tem lá suas graças, e esta é uma delas. É assim que só Eneida, entre os três, consegue ver o cavalheiro a saltar para dentro do carro esporte sem teto, como fez sobre a portinhola do balcão, e despencar no assento encharcado.

A voz que cantava no bar, agora, sai dos lados do gramado, do carro de Giuseppe – mas muito, muito mais alta. O automóvel é ligado e arranca pela avenida molhada, dourada pelo sol amarelo. Kasarova e Mozart se distanciam enrodilhados ao rumor do motor, levando consigo algo que não sabemos o que é, algo que estava aqui a nos envolver, em torno de todos, e que súbito não existe. Há um vazio brutal, silenciosamente brutal, que tira do puxadinho da cozinha os dois seres que há pouco conversavam com Giuseppe. Olham para os lados como que buscando o que não existe, ou não poderia existir. Um tanto adiante, um flagrante, observável arrepio passa pelas costas de Esplendorosa. Ela se levanta e toma a direção dos banheiros, cujas portas estão aqui bem a nosso lado. Vê? Se as vê, também pode agora ouvir os tristíssimos balbucios que saem de trás da porta pela qual a mulher cheia de corpo acabou de passar. São terríveis, lancinantes, e tão sutis e contidos que Deus, se houvera Deus, havia de se imiscuir pelos ladrilhos e vasos para olhar de perto o que se passa. Mas também Deus trama invisibilidades, que não nos cabe julgar, e de fato o céu não se fende nem cavaleiros voadores com espadas flamejantes descem das alturas. Só ouvimos, igualmente sutil mas desta feita pela distância percorrida pelo som, o relinchar estendido de pneus cuja rotação é subitamente abortada – e na sequência alguma coisa que se quebra em partes minúsculas ao longe.

Capítulo 2

(ele está aqui)

  1. Val
    Agosto 10, 2009 ás 1:31 am | #1

    Bravo! Vai ser um livro?
    Senti que esse capítulo tem um ciclo completo, o próximo será continuação ou uma história desvinculada da primeira?

    Abraço,
    V

    • jpolifonia
      Agosto 10, 2009 ás 9:31 am | #2

      Muito obrigado, Valéria. Também senti o mesmo do ciclo completo, mas há um próximo – e é continuação. A dúvida é se publico como está, ainda um pedaço de capítulo, ou apenas quando completo. As duas ideias parecem igualmente assustadoras.

  2. Agosto 11, 2009 ás 5:41 pm | #3

    Ei! Onde está o segundo capítulo??? Tou esperando. Já me deliciei no primeiro. Depois te conto um fato… eu tbém comecei a escrever um textos por capítulos para publicar no meu novo blog… mas por enquanto tá encaixotado… rsrs.

    • jpolifonia
      Agosto 12, 2009 ás 12:47 am | #4

      Opa, desencaixote aí, Andréa! E dê um toque quando fizer isso, sim? Bom, tô feliz da vida que tenha gostado. Do 2º só tenho meia dúzia de páginas prontas e aquela dúvida – se publico já ou espero fechar o capítulo. Parece bobagem, mas o negócio é que não gostaria de quebrar demais o texto. Que acha?

  3. Abril 26, 2010 ás 5:05 pm | #5

    Muito bom, comecei de vez a ler os capítulos,bjs.

  1. Novembro 19, 2009 ás 12:18 am | #1
  2. Novembro 19, 2009 ás 12:28 am | #2

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.