1968

 

Tio Luciano tinha uma bolsa dessas que se esgarçam as fibras nas costuras, coisa talvez do cansaço de suas viagens, do uso como travesseiro que ele gostava de dar a ela, da idade dele e dela e de mais uns tantos motivos que a nós crianças fugia. Mamãe e papai não gostavam que os pequenos falássemos de tio Luciano a estranhos. “Mamãe e papai, não” diz mamãe, sempre observando por sobre nossos ombros, “É papai e mamãe, porque papai vem antes.” Sim, papai e mamãe nos olhavam enviesado quando alguma visita a nossa casa se prometia, já sabíamos bem sabido que o olhar de canto de olho era Ordem de Silêncio a respeito de tio Luciano e fim das brincadeiras sobre o misterioso conteúdo de sua bolsa, a que chamávamos Marmafaz – tanto a brincadeira quanto a bolsa – por conta do Hebreu Marmafaz, o homem que perdeu o rosto em aposta com um antigo Rei, história que tio Luciano nos contava nas noites em que não estava ocupado lendo livros sem capa ou conversando em voz baixa com papai e mamãe na cozinha, todas situações que exigiam trancar a casa e prometermos não abrir a porta da rua nem responder a quaisquer pessoas que batessem palmas ou apertassem a campainha, ainda que fosse algum amigo, nos mantendo naquele silêncio que tínhamos aprendido quando vovô e vovó morreram: um silêncio tão chato que queríamos morrer também, então brincávamos de parar a respiração, ela era substituída por um tipo de palpitação que, aí sim, nos fazia crer que os mortos éramos nós, não vovô e vovó no meio da sala embutidos nos caixões, que a nós lembravam a mesa do almoço de domingo, que substituíam tal e qual, embora um tanto mais altos e sem a guarda das doze cadeiras que a partir de então passaram a ser dez.

 

A voz de tio Luciano era uma voz grave de piano desafinado, como o que ficava na sala até vovó mandar levá-lo à garagem e cobri-lo com cobertores, isso logo após o irmão de tio Luciano desaparecer tão misteriosamente quanto as viagens de tio Luciano, num ir e vir de mar a que não percebíamos a lógica, mas a nós muita coisa, e talvez a maior parte delas, surgia e sumia sem explicação, e ai de um de nós se aos adultos perguntasse, era um tal de tapa voar que nos perdíamos da razão da pergunta, de forma que logo aprendemos ser melhor inferir que aferir, melhor supor que saber, sonhar que viver. Tio Luciano, de alguma forma, apesar de pertencer ao mundo dos grandes, também pensava o mesmo, visto que por comum preferia o quarto sombreado que mamãe sempre deixava pronto para seu uso, ainda que por meses ele não nos visitasse, do que todo o restante da casa, e se algo marcava suas visitas era o fechado das portas e o cerrado das janelas, com persianas baixadas e cortinas esticadas mesmo se na época das férias, com o verão lá fora e a sombria escuridão abafada aqui dentro, como se estivéssemos no porão do barco de Noé e fôssemos os escolhidos, o par daquela espécie, a sobreviver, já que nem aos amigos mais próximos podíamos admitir entrar pela porta da jangada em que a vida se transformava: era assim feito se ao acordar não acordássemos e o sonho continuasse nos contornando e nos conformando, de maneira que quando voltávamos das férias só não éramos os mais pálidos entre todos pela graça do sol que nos tostava a pele vindo das histórias do Hebreu Marmafaz, ele sempre em busca de seu rosto, furtado pelo Rei, em terras de dias escaldantes e areias traiçoeiras onde o sol mal se punha e logo surgia outra vez, a noite só o instante quando se acorda entre um sonho e outro: e a dizer que não se prefere assim a vida não nos arriscaríamos, ao menos nos tempos durante os quais tio Luciano permanecia entre nós, já que se diferente fosse o resultado seria aquela inexplicável sucessão de sopapos seguidos da explicação de que nos bater doía mais a papai e a mamãe, dependendo de quem distribuísse as bolachas e cintadas, do que a nós que as levávamos.

 

A meus irmãos e a mim, portanto, restava esperar que tio Luciano se saísse em viagem, deixando a casa outra vez aberta a nós vivos, porque de certa maneira desconfiávamos que há muito ele se encontrava em estado de espírito, daí o cuidado todo de papai e mamãe em escondê-lo, dado que mortos são levados e escondidos abaixo da terra como bem aprendemos quando vovó e vovô morreram e, em nossa primeira visita ao cemitério, os acompanhando ao lado de suas caixas de madeira, vimos que as calçadas ao largo do buraco em que os meteriam a ambos estavam tomadas por homens da polícia, alguns com quepes e medalhas e botões de ouro nos casacos, outros com óculos de vidros tão pretos que a princípio julgamos serem cegos, e decerto que eles cercavam a nós que levávamos nossos mortos para ter certeza de que do chão onde seriam plantados não escapassem, e se tal cuidado se exigia no trato com os mortos não se poderia concluir outra coisa senão o perigo de quem eles se recusassem a tanta terra ter sobre a cara. Também bem sabíamos que papai já desconfiava ou mesmo já tinha antes visto que aos defuntos se reservavam homens bem armados como seguro de que não resolveriam, os mortos, no meio do enterro, se levantar dizendo “pronto, cansamos disso, não queremos o enfado de só a minhoca olhar pelo vitrozinho da caixa, vamos voltar à casa de livros sem capa e silêncios, acabou-se o que era doce e ponto final”, e por conta do risco de os guardas resolverem sacar suas pistolas no caso da desobediência de vovô e vovó é que papai durante a noite colocou sob cada um dos dois as espingardas e balas e revólveres que estavam enterrados no quintal de casa, de maneira que vovô e vovó ficariam desajeitados e talvez com dores nas costas deitados sobre as armas caso mamãe não tivesse voltado da rua com as flores e feito um tapete com elas, cobrindo os aços com cravos e malmequeres e margaridas e poucas rosas, que rosas andavam caras, e a cada flor posta mamãe rezava baixinho a Reza dos Tempos, “existe um tempo para morrer outro para matar, esse tempo há de chegar”, mas mais que isso não sabemos da Reza dos Tempos porque papai nos viu olhando o movimento e desceu a mão na orelha do nosso irmão mais novo, depois nos enxotou a todos com o cinto dobrado voando no ar e nos acertando lambadas que, felizmente, amanhã não teríamos de explicar na escola, já que amanhã seria o dia do enterro de vovô, vovó e das armas todas desencavadas do fundo do quintal.

 

Tudo isso foi muito antes de tio Luciano voltar de uma de suas viagens com uma mulher tão suja que passava os dias tomando banho e dizendo que nunca mais ficaria limpa, a quem chamávamos de A Mulher dos Choros. Mamãe não gostou daquela visita, e enquanto nos incumbia de aferroar as portas e conferir se cada janela se encontrava bem travada ela até esqueceu da Lei do Silêncio de Quando Tio Luciano Está em Casa e começou uma gritaria com papai e com tio Luciano, e todos ficamos com pena dos dois que não conseguiam responder se estavam loucos ou não porque mamãe não parava de perguntar se eles tinham perdido a cabeça e se sabiam a merda que tinham feito, e concluímos que papai e tio Luciano por algum motivo haviam os dois feito coco sobre A Mulher dos Choros, a explicação era esquisita mas foi de nossa irmã e ela normalmente acertava, e quando nos dias seguintes ouvimos que A Mulher dos Choros não conseguia ficar limpa por mais chuveirada tomasse, então ficou claro que outra vez nossa irmã estava certa, e só faltava entender porque alguém faria de uma moça, uma privada. “Sexo” disse nossa irmã, “sexo explica tudo”, e embora isso fosse possível ela não soube explicar o que seria sexo e, portanto, colocamos o esclarecimento na categoria das possibilidades, uma categoria que só fazia crescer desde que as conversas na cozinha deixaram de ser em voz baixa e podíamos acompanhá-las do quarto, e assim aprendemos que além de óleo, laranja ou arroz também se podia comprar gente, e nisso tio Luciano foi claro quando disse que protegia A Mulher dos Choros porque os amigos dela tinham se vendido, e não entendemos a troco do que uma pessoa compraria outra pessoa até ver um dos amigos da Mulher dos Choros na televisão, papai e mamãe ficaram nervosos, “desgraçado traidor vendido”, o que nos mostrou que a tevê andava comprando pessoas para aparecer nos programas, aliás nos mais chatos, mas A Mulher dos Choros disse a mamãe que ela e papai não sabiam nada, que não tinha como escapar, tio Luciano disse que a bolsa dele tinha a resposta e A Mulher dos Choros gritou “não!” e se entrou no chuveiro para um banho.

 

Às vezes, durante a noite, éramos acordados pelos gritos da Mulher dos Choros, que como nosso irmão mais novo devia sofrer de pesadelos, mas ao contrário dele, que não tinha ninguém além de nós e de nossos argumentos que não funcionavam para convencê-lo de que era só sonho, A Mulher dos Choros contava com tio Luciano, mal ela começava a chorar já ele se punha a consolá-la e ouvíamos a voz grossa de piano desafinado como uma canção, e ele cantava “ah meu amor ah meu amor ah meu amor”, e então por mais que ela chorasse de medo do pesadelo logo tio Luciano a convencia de que estava tudo bem e ela até ria alto e tio Luciano também, que ele devia ter dito algo engraçado ao ouvido dela, e de manhã ela acordava cedo e contava piadas e ria muito com as piadas, mas mamãe não gostava das piadas e nunca ria.

 

“Se você não faz, não é minha culpa” uma vez tio Luciano disse a mamãe, e mamãe deixou apressada a cozinha e se fechou no quarto, só saiu à noite, quando papai voltou, os olhos de mamãe miúdos de choro que ela deve ter dormido e sonhado pesadelo, mas papai não a consolou como tio Luciano com A Mulher dos Choros e nem os dois riram alto decerto porque mamãe devia ter chorado enquanto papai estava fora e nem mais lembrava do pesadelo, mas triste ela estava tanto que disse “não agüento mais” e papai respondeu “vou dar um jeito” e mamãe falou que era muito desrespeito além do que desperdício e ainda pior as roupas de rapariga, nossa irmã gostou demais dessa palavra e logo uma de suas bonecas, aquela do estrangeiro que tio Luciano trouxe de uma viagem e que era uma boneca que tinha outras bonecas dentro dela, ganhou o nome Rapariga, mamãe é que não podia saber daquele nome senão era um peteleco na orelha, uma palmada de estalo na bunda, um croque na cabeça, o diabo acontecia se ela calhasse de ouvir nossa irmã com a Rapariga nas mãos a embalando com a música de acalmar pesadelo, “ah meu amor ah meu amor que me morro, ah meu amor que me some o ar que me some tudo que me acaba o mundo”, decerto um sopapo vinha ligeiro na cara se mamãe ouvisse porque aquela música tinha um gosto estranho, punha a nós todos esquisitos aquela música, dava um medo de correr, mas de correr para dentro do medo.

 

“Mas que roupa de rapariga é essa?” papai perguntou a mamãe, e ficamos com medo de que ele fosse lascar uma cintada nela, a voz dele era voz de sova.

 

“De rapariga rameira ela se veste, não vê?”e a voz dela também era de sova, então ficamos com medo de que ela desse um tabefe em papai, mas mamãe começou a chorar, nosso irmão mais novo cantou baixinho “ah meu amor meu amor”, papai nem ouviu graças a Deus, nem quem sabe sabia essa brincadeira, ele saiu do quarto dele e dela batendo a porta, entrou no nosso e estávamos todos dormindo quando ele entrou.

 

Não, ainda não foi nesse dia que A Mulher dos Choros e tio Luciano foram embora. Nem nesse dia nem tão perto nem tão longe desse dia, que esses dias todos parecem sempre os mesmos, como se fosse domingo com chuva se esquecendo de acabar, assim do mesmo jeito que tio Luciano e A Mulher dos Choros se esqueciam que ali não era a casa deles, mamãe dizia isso toda noite a papai e papai com a voz de sono, “vou dar um jeito”, e pode ter sido uma vez só que aconteceu essa conversa mas ela parece um eco que se repete até que perdemos o ano na escola, foi por faltas papai disse, ano que vem se resolve mamãe disse, e então havia uma explicação para aquele domingo que não se acabava dentro de casa, nossa irmã acha que o mundo enlouqueceu e agora há dois relógios, um que funciona o tempo dentro de casa outro que gira mais rápido lá fora, daí papai e mamãe terem se confundido e não nos deixado sair para a escola, pensavam que o domingo continuava olhando o relógio imóvel de casa, “e se o domingo não acabar nunca?”nossa irmã perguntou, já mamãe a olhou assim torto, fez cara de que ia voar peteleco e, não, saiu correndo se fechou no quarto, papai foi atrás dela e tio Luciano acendeu um cigarro, foi A Mulher dos Choros quem respondeu à nossa irmã, “o domingo um dia cansa e se manda”, tio Luciano a olhou meio assim e bateu a mão na bolsa que ia onde ele ia, “se ele não se manda, me mando eu”.

 

Devia ser perto do natal, nós vimos um reclame na televisão de um porquinho com gorro vermelho e depois ele virou linguiça com gorro vermelho, nosso irmão mais novo acha que esse foi o ano que não teve natal, pode ser mesmo, teve o ano que o natal se esqueceu de aparecer, natal sempre demorava muito mas daquela vez a espera foi tão longa que, quando perguntamos a papai se a árvore com as bolas e as luzes podia ser montada, papai disse rindo que já era época de começar as aulas, o natal tinha passado sem passar, e mamãe disse que éramos grandinhos para entender, “entender o que?” perguntamos, e mamãe disse que faria um bolo e que a escola seria outra e que teríamos nomes diferentes só pra variar, “nomes diferentes?”, escola diferente vida diferente nome diferente papai disse, só pra variar mamãe falou, “vida diferente quer dizer que as coisas que acontecem não vão acontecer mais?” nosso irmão menor perguntou, e sabíamos do que ele estava falando, era de peteleco tapa tabefe, de porrada tropicão cintada, de chinelo que canta e croque na cuca, mamãe riu disse sim, fez o bolo raspamos o tacho tio Luciano cantou uma música chata com o violão da Mulher dos Choros e, de noite, papai e mamãe brincaram de pular na cama no quarto fechado e tio Luciano cantou “ah meu amor” para A Mulher dos Choros e dessa vez ela nem foi ao banheiro tomar o banho que não se acaba mais.

 

Então mudamos de casa, foi durante a noite a mudança e só levamos livros sem capa e umas roupas e uns brinquedos e umas malas e uns silêncios, que não se podia abrir o bico durante a mudança, e quando de manhã a casa nova era pequena mas legal, tinhas outras casas quase grudadas e ganhamos um cachorro chamado Zorro e nomes novos também, até papai e mamãe e A Mulher dos Choros e tio Luciano eram outras pessoas, só pra variar mamãe disse, o banheiro era do lado de fora e chamava casinha, tinha um buraco escuro no meio do chão e as coisas caíam lá embaixo, puooof, um dia Zorro caiu também e os vizinhos disseram que não tinha o que fazer mas tio Luciano foi com uma corda e saiu do buraco da casinha fedendo com Zorro vivinho nos braços e fomos para o mar tomar banho e foi o único dia que tio Luciano e A Mulher dos Choros saíram para passear com a gente, quando papai chegou os três brigaram mas depois se abraçaram e papai chorou, Zorro também chorou mas só um pouco, mamãe riu muito, foi quando ela começou a rir, “depois ela nunca mais parou” lembra nosso irmão mais novo, “isso não importa”diz nossa irmã, mas bem sabemos que ela mamãe nunca mais parou de rir, ela ri até dando peteleco, que os petelecos tinham parado mas voltaram, e parece um richoro, essa palavra nossa irmã inventou, já vimos no dicionário e não tem richoro, então essa palavra é dela, “quando se inventa uma coisa precisa por uma bandeira na coisa” ensinou o Hebreu Marmafaz em uma das histórias mais bacanas contadas por tio Luciano, de quando Marmafaz inventa A Aposta Perfeita e vai com ela reaver o rosto que perdeu para o Rei, ele e o Rei eram os dois apostadores sem fim, mas quando o pobre Hebreu descarado chega e começa a explicar a aposta o Rei logo percebe a artimanha, percebe que vai perder e – záz! – põe seu nome na invenção de Marmafaz e acaba que, daí em diante, o que era esperança de um vira golpe de outro.

 

Quando começou a risada? Que risada?

 

Não, nunca foi risada, por isso nossa irmã inventou richoro, a palavra tem o ri pequeno e o choro maior, mamãe começa a rir e termina chorando, ela repete tanto o começo e o fim que parece uma gargalhada mas não é engraçado, e se alguém escuta o richoro durante um tempo pode escolher o que ouvir, algumas pessoas pensam que ela está chorando outras que está rindo, nosso irmão menor acha que vai pelo que acontece nas ideias da pessoa essa escolha, e nós escolhemos que é rir mas nunca risada, já papai deve achar ainda outra coisa diferente, quando ela começa o richoro papai liga a música bem alto e todos dançamos senão ele fica uma fera e o richoro então é uma cuíca de samba ou uma coruja dessas que aparecem à noite no quintal da nossa casa nova, ao lado do rio fino que corre ali mas não podemos brincar nele que tem doença, os moleques das casas grudadas na nossa brincam e não andam doentes, também tem que eles nasceram perto do rio e nós não, mas quando a música toca alto em casa e nós dançamos na sala, que é a sala e a casa, porque a casa é uma sala e é mais divertido do que ter quarto, então quando a música é alta brincar no quintal nem pensar, é hora de dança e alegria e de mamãe coruja richorando.

 

Teve o dia que mamãe não conseguiu parar de verdade. Nosso irmão menor acha que ela não queria parar. Foi na tarde em que aparecerem uns homens barbudos e tio Luciano e A Mulher dos Choros saíram para viajar com eles. Mamãe deu tchau da porta e fechou a porta. Aí mamãe começou a rir e quando papai chegou do trabalho nos levou ao hospital e deixou mamãe em casa richorando bem como ela estava, sem roupa nem nada, que depois de nos pegar ela tinha ficado com muito calor, e nossa irmã tinha dormido no meio da sala e da sova e como ela não acordava papai teve de levá-la no colo e de manhã nós voltamos para casa, menos nossa irmã que só voltou dois dias depois, e quando entramos em casa mamãe tinha assado um bolo e estava limpando os livros sem capa, papai fez chocolate quente e tomamos com bolo depois ele saiu para passear com mamãe e trancou a porta de casa com uma corrente para ninguém entrar lá e nem fomos para a escola e um dente do nosso irmão mais novo caiu, papai só não deve ter percebido que também não podíamos sair de casa e ele demorou muito para voltar do passeio com mamãe, tanto que fizemos as coisas ali no chão da sala, no cantinho, cobrimos as coisas com folhas do caderno de nossa irmã, “e se papai ficar bravo e mamãe rir?” nosso irmão menor perguntou, melhor nem pensar, a casinha fica fora e, além disso, Zorro também tinha feito as coisas dele na sala, o dia demorou tanto que ficamos com medo do tempo lento ter voltado, como quando o domingo não ia embora, e nem havia nossa irmã para explicar, brincamos que nosso irmão mais novo era o Zorro, os dois tinham os olhos pintados de preto, papai disse que logo sara mas, de verdade, foi o máximo ele ter virado Zorro, podia correr pela casa e morder tudo, ele mordeu o sapato azul de mamãe e um livro sem capa e uma pulseira e um anjo da guarda de plástico que nos protegia, o anjo foi o mais gostoso ele disse, ficamos com fome mas só um pouco, o anjo da guarda virou angu quando Zorro e nosso irmão mais novo lutaram por ele, cada um rosnando com um lado do anjo nos dentes, Zorro cachorro de verdade ganhou, “morre cadela! morre cadela!” nós gritamos os hinos de guerra e Satanás morreu virou angu e graças a Deus agora ninguém mais com asas protege a gente.

 

Dessa vez papai trouxe pizza, limpou as coisas que fizemos no cantinho e chutou Zorro para fora, “mamãe não vem?” perguntamos papai não respondeu, ficou olhando nosso irmão menor comendo pizza, “onde foi tio Luciano?”, “viajar com os barbudos” nosso irmão menor disse, “mamãe ficou doente de dor de cabeça” papai contou, “de richoro?” outra vez papai não respondeu, acabamos a pizza papai abriu a garrafa de perfume que era só dele e de tio Luciano e tomou o perfume e deitou no sofá e disse mamãe vai demorar e dormiu e dormimos nós.

 

Depois veio Dona Fábia, que cuidou de nós enquanto mamãe sarava da dor de cabeça, e nossa irmã voltou do hospital, tinha uma arma no braço feita de gesso, agora além de nome novo tínhamos história nova, papai ensinou a história e era divertida, a gente tinha de dizer que nossa irmã subiu na árvore de manga e voou até a manga maior mas então o voo acabou, nossa irmã foi ao chão, quebrou o braço se espatifou, nossa irmã agora era a Supermoça e sempre a víamos com sua capa azul e vermelha feita de umas roupas que A Mulher dos Choros deixou em casa quando ela e tio Luciano foram viajar com os barbudos, nosso irmão mais novo e Zorro tinham rasgado os panos brincando de cão zangado e o que restou dos panos era a capa, até à escola ela ia de capa, a qualquer momento podia surgir um pedido de socorro, e mesmo depois de tirar o gesso do braço ela continuou sendo Supermoça e mesmo depois que os olhos de nosso irmão menor perderam as rodas pretas ele seguiu sendo Zorro e andando de quatro e coçando pulgas que nunca conseguíamos ver e lutando com o outro Zorro, o cachorro de verdade, por um pedaço de pão ou resto de frango assado do almoço de domingo.

 

Dona Fábia durou até o dia em que disse não aguento mais esse menino no chão cheirando pé de mesa e mijando na terra, então ela tentou pegar nosso irmão menor pelos braços, o levantou assim um pouco ele rosnou, Dona Fábia riu disse deixe disso menino, foi com o rosto pertinho do dele, já se via que ela tinha suas dificuldades para levantá-lo, e ele rosnando mostrando os dentes a água descia da boca, o ataque veio porém por trás, Supermoça voou do alto de um edifício que era a mesa e acertou em cheio a bunda de Dona Fábia, então Supermoça gritou “largue nosso irmão menor sua megera desalmada”, Dona Fábia gemia muito e nosso irmão mais novo Zorro tascou uma mordida na bochecha gorda de Dona Fábia, os vizinhos acudiram e ficamos presos em casa, que os vizinhos e Dona Fábia trancaram a porta por fora com a corrente, até que papai chegou do trabalho e nos puxou as orelhas e esquentou nossas bundas e arrancou um tufo de cabelo de nossa irmã, dormimos sem comer essa noite, o que também não era novidade, e dormimos sem os anjos que o anjo já tinha morrido faz tempo.

 

No dia seguinte comemos sopa de fubá com couve na escola e ficamos fortes.

 

No outro dia teve vacinação, o cheiro de álcool e o barulho de vidro das seringas nos seguiam na fila que não acabava e nosso irmão mais novo dentou o braço do enfermeiro, vieram vários deles e o seguraram e espetaram a agulha, depois o levaram para o pátio, o largaram no fundo onde os meninos maiores fazem campeonato de cuspe e coisas com as partes e fumam, buscamos nosso irmão menor depois da sineta e ele gania baixinho tão baixinho que dava um aperto na barriga da gente.

 

Em casa, a porta estava aberta. Nossa irmã investigou antes de entrar, “tem um homem lá”, fomos de manso mas era tio Luciano, bem diferente ele, careca e uns óculos maiores que a cara, roupa de festa com gravata, era o novo tio Luciano que ia só esperar papai e mamãe voltar depois teria uma viagem bem longa para o País das Montanhas, perto de onde o Hebreu Marmafaz perdeu o rosto o apostando com o Rei, “vai ver Marmafaz?” nosso irmão menor perguntou, coçando uma pulga daquelas que não se vê, “não só vou como a boa notícia é que ele vai ter sua cara de volta” tio Luciano informou, “mas a história é de mil anos atrás” nossa irmã olhou desconfiada, “o negócio é que enquanto não resolvem o jogo do rosto de Marmafaz, nem ele nem o Rei envelhecem” disse tio Luciano, e depois, piscando os olhos, “mas vou virar esse jogo”, vai como como como perguntamos, tio Luciano abriu a mala que estava no chão, ao lado da mesa e ao lado de Zorro, a mala cheia de dinheiro, “vou comprar a cara de Marmafaz e devolver a ele”tio Luciano contou, nosso irmão menor parou de coçar as pulgas e ficou olhando as notas marrons e verdes e azuis amarradas com elásticos, com cara de bobo, tio Luciano começou a cantar nossa Música Secreta que ele ensinou, de pé ó vítimas da fome, cantamos com ele bem baixo, foi dando um calor na gente, vontade de abraçar, a gente se abraçou, tio Luciano chorou a gente chorou, “e mamãe onde está?”, “no médico de dor de cabeça até o mês que vem que nunca vem” nossa irmã disse, “no hospital de loucos com richoro” nosso irmão menor contou melhor contado.

 

A cara de tio Luciano virou uma careta. “Putamerda” ele disse.

 

Tio Luciano fechou a mala pegou a bolsa esgarçada também chamada Marmafaz olhou dentro dela escreveu um número num papel juntou um dinheiro, “vão lá no bar o dinheiro para o dono do bar telefonem a papai digam que o tio passou aqui que ele não volte digam que ele não volte fiquem no bar até papai chegar vão logo levem o cachorro”, foi nos empurrando para a porta, descemos a ladeira correndo, Zorro latindo na sombra de nosso irmão menor.

 

Foi nossa irmã quem falou ao telefone, ela é melhor nessas coisas, todos queríamos ouvir papai, nossa irmã não deixou até contar o que tinha de contar e de escutar papai, então pudemos nos juntar os ouvidos no telefone e papai tossia tanto que não deu para entender se dizia alguma coisa, desligamos, o dono do bar nem tocar no dinheiro ele quis, “de criança não cobro telefone”, e agora que fazer com o dinheiro?, “melhor perguntar a tio Luciano” nossa irmã decidiu, “mas ele disse” “não interessa o que ele disse agora mudou tudo” nossa irmã falou, aí fomos subindo a rua em silêncio devagar que é grande a subida, o chão virou pedra virou terra virou lama nós subindo, já na virada de casa bem na esquina eles lá, íamos voltar mas Zorro saiu correndo latindo entrando em casa latindo correndo, um deles deu um tiro, foi um tiro só que ouvimos, Zorro voou pela porta entrou na sala feito anjo sem asa feito foguete discovoador morcego, voando planador arraia passarinho, Zorro deslizou e era uma nuvem um sonho um pressentimento ele era, corremos todos atrás dele Zorro Zorro Zorro e ele lá morto no meio da sala, da sala que era a casa toda, e tio Luciano deitado ao lado dele dormia tão cansado que tinha esquecido de fechar os olhos e os homens polícia de boné e revolver fazendo a maior farra em casa, os livros sem capa para todo lado, as roupas panelas o colchão novinho que papai comprou, tanta algazarra e nada de tio Luciano acordar, descansando para depois encontrar o Hebreu Marmafaz e devolver sua cara que o Rei ganhou em uma aposta muito, muito estranha.

 

 

Categories: contos, Escritos

Rosário e os trilhos

Março 27, 2011 9 comentários

Rosário e os trilhos

 


Quando Rosário Del Rio viu pela primeira vez os bigodes fartos e antiquados de Luis ela não pode fazer outra coisa senão se rir. Rosário tinha 59 anos e dentro de duas horas – conferiu no reloginho de pulso – faria 60. Estava justo a esperar a composição das quatro da tarde que a levaria à balbúrdia da casa da filha, com os netos barulhentos e a inevitável festa surpresa que, embora não a surpreendesse há muito, arrancava dela uns punhados de lágrimas guardadas para essas ocasiões. Gostava de tomar aquele trem tanto por ser mais vazio, antes dos horários em que operários e gentes do subúrbio como ela apinhavam os vagões, quanto para chegar a tempo de ajudar a filha e o cunhado a preparar sua festinha – o que naturalmente não era dito nem por ela nem pelos dois, que por costume se mostravam surpresos com a inesperada visita de Rosário.

Mas isso seria lá depois de tomar o trem. Naquele instante Rosário se ria de Luis, o homem de bigodões, que decerto ela ainda não sabia chamar-se assim. Luis estava vestido com o que já fora o elegante costume dos funcionários da ferrovia – sapatos pretos sem cordões, calças cáqui com barra dobrada italiana e vincos, camisa, gravata preta fina e um tipo de dólmã também cáqui pontilhado por botões metálicos –, mas já então havia mais melancolia naquela roupa do que a quase arrogância com que era envergada no passado. Os bigodes confusos, aparados porém com fios rebeldes crescendo em todas as direções, combinavam com o traje. Também neles se via a melancolia difusa que flutuava ainda por toda a estação. Rosário passeava os olhos pela plataforma como se buscasse algum interesse para passar o tempo, mas o fato é que os queria aos dois olhos bem focalizados na figura de Luis, em pé ao lado de um guichê fora de uso, embora a envergonhasse a curiosidade. Assim estava ela a passar pelo homem o olhar como facho de farol em baía perigosa, ora iluminando umas rochas ora a crepitação das ondas ora em neblina acanhada se encobrindo.

Na flutuação, quase ao fim da plataforma, um casal de índios ao chão vendia badulaques e, ainda mais adiante, três crianças se esparramavam sobre um velho banco de madeira esperando maior movimento para ofertar os olhos tristes remelentos aos passantes em troco de alguma moeda. Rosário, impaciente com o cenário repetido – os mesmos passantes, os mesmos índios e crianças cujos rostos, só os rostos, mudavam a cada viagem de trem –, voltava e retornava a inspecionar Luis e, ao mesmo tempo, Deus do céu, se via incrédula com a ousada infantilidade da bisbilhotice. Tentava mal disfarçar as olhadelas cada vez mais longas a Luis, esperançosa de que ele a notasse, que visse seu olhar percorrendo a distância e o atingindo, o tocando o risco de pente no cabelo brilhantinado, a coceira que o afligia na orelha, o tremor discreto quando olhava a curva dos trilhos além da estação.

Luis levava ao pescoço um cordão na extremidade do qual pendia um judicioso apito, daqueles que se usam para ordenar aos trens movimento ou paralisação. Rosário não estava perto o bastante a observar os detalhes do objeto, mas já havia visto um deles e sabia o quanto bastava para imaginar seu toque sedoso de madeira manuseada e sua movimentação no peito de Luis, seguindo a modulação respiratória, talvez até cardíaca, do funcionário da estrada de ferro.

Aos cinco minutos para a chegada do trem a imagem do homem ao lado do guichê se tornou quase um filme desses de caderno que, à força de polegar, indicador e pressão, mostram cenas seccionadas em movimento tremeluzente – pessoas passando com pressa para se postar onde supõem estará uma das portas do trem é que fazem o jogo de cena, e tal movimento de entrada na estação parece indicar que se chega o momento de Rosário descobrir de quem vem observando com tanta insistência ao menos o nome, pois se em fato nada existe antes de ganhar batismo, Luis para Rosário ainda era tão só uma possibilidade de existência, quase um sonho, e como essa mulher não é das que gostam de sonhos, mas das que preferem algo concreto a um punhado de imagens, ela sai apressada no contrafluxo e, evitando um viajante aqui outro ali, logo se põe perto para ler o crachá alfinetado ao dólmã de Luis. Mas como acostuma acontecer a essas situações, tanto em ilusão dormida quanto em sonho acordado, um rumor anuncia a chegada da locomotiva e, antes que Rosário consiga ler, Luis se move para a borda do cimentado. Ela o segue. São tantas gentes, porém, que acaba por perder o homem de vista no meio ao povaréu amontoando-se ao lado do vão dos trilhos.

No vagão já não há onde sentar. Ela não chega a se amaldiçoar: foi sorte: em pé frente ao vitrô da porta, do outro lado do vidro no qual Rosário se espreme, está o homem de bigodes, apito entre dedos aguardando que alguma divina ordem venha a ele permitir a saída da composição. Luis, ela lê em voz alta e volta a se rir, não se sabe se do bigode ou de alguma outra graça encontrada nele ou ao redor dele, dessas graças que demoram tempos a ser descobertas. E esse Luis que Rosário acaba de conhecer se vai e se fica na plataforma que foge do trem. Some ao longe, e o substitui a paisagem de casas atarracadas passando cortada pela cerca que isola dos trilhos a vida real.

 

Dois

 

Ainda faltavam 45 minutos para completar 60 anos de idade quando Rosário chegou à casa da filha. Não precisou se anunciar. Foi empurrar o portão da rua e a porta da sala abriu. Ilsa veio em passo de cavalaria, a boca grande bonita bem como era a do pai.

Mãe, exclamou abraçando Rosário, parabéns parabéns, que bom ter chegado na hora certa. Que hora, Rosário pensou, se sempre era a mesma em que chegava, e ia perguntar a Ilsa que hora certa seria aquela mas lá já saía da casa o genro, as abraçou às duas e disse alguma coisa a que Rosário não prestou atenção, ela mais pensava era no homem de bigodes, soube seu nome às quatro e quatro, 16h04, quatro e quatro dá oito, promissor mas trabalhoso, e se do dezesseis e quatro se somam os números chega o três, bonito demais que é número de Deus, mas bem estranho para um casal.

Mãe tá sonhando acordada, não ouve nada que se fala, Ilsa riu, E lá sou mulher de dormir acordada desde quando, Tem uma surpresa, o genro sussurrou, Não tenho surpresa alguma, Rosário o olhou desconfiada, como se andasse ele a ler pensamento, e o genro riu gostoso, Ilsa é que tem a surpresa pra senhora, E que coisa será essa, Vem que vai ver, ele a pegou pela mão e a puxou para a sala.

Bexigas e uma faixa, pendendo acima da televisão. Parabéns Mamãe Com Amor Da Família. Deus, gastaram dinheiro com isso, pensou. Desgostava de surpresas, mais ainda as acompanhadas dessas amorosidades que grudam, beijam molhado, escrevem bobagem em bilhete de papel de pão, falam tolice na orelha. Beijinhos e brigadeiros e um frango assado na mesa. Quem teria enrolado o brigadeiro? Seus olhos então pararam no canto escuro da poltrona onde um velho de rosto muito branco a olhava. Não era estranho mas não lembrava se o conhecia ou se o velho teria tão só cara comum, das que se cruza numa estação e se esquece na próxima.

Acho que a mãe gostou, ouviu Ilsa dizendo da porta, Gostei por demais, tudo muito lindo, Não, mãe, é da surpresa, e Rosário seguiu o olhar da filha e foi ter no velho, que levantou, saiu da sombra do canto e abriu um sorriso de boca grande.

Rosário sentiu a testa fria. Um pano preto passou pela sala e se instalou sobre seus olhos. Era como quando ia ao cinema, trinta, quarenta anos atrás, mas com cores trocadas, o homem de cara branca se movendo na tela de pano preto, ela molhada de testa e ardente de bile na barriga, quando por ordinário se dava o contrário, no outro tempo eram umas umidades abaixo e calores no rosto. Deu um passo para o lado e se caiu no sofá. Um silêncio na sala, a cara branca de farinha fechou a boca que lembrava a de Ilsa, ou a da filha é que lembrava a dele, e o relógio de Rosário pesou no braço como deve ter pesado o braço de quem enrolou tanto brigadeiro, e ela quis só para si aquele silêncio, aquela testa gelada e aquela tontura escura, quis ficar ali quieta e enrolada como a gata que tinham em casa quando Ilsa nasceu, escondida no frio escuro quieto, dizer nada porque não tinha a falar, que ideia aquela, por que tirar o defunto ao buraco, ao túmulo a que pertence, a cara de vela fresca que nem lembrava o homem de bigode Clark Gable, não fosse a bocona rasgada no rosto, não fosse a fenda quase sem beiço ela nem reconhecia o fantasma como o resto do homem que a deixou na terceira fileira do Cine Astor, a sessão acabada e ela esperando, gentes entrando para a repetição do filme e Rosário sem coragem de olhar o relógio, começa outra vez a fita e se vai sucedendo o mesmo que sucedera, correm as letras na tela e são acesas as luzes e as gentes se movem, Rosário teme o relógio teme o tempo talvez tenha sido só um filme e ela sonhado o repetido, pode ter dormido e o tempo parado, e sua dúvida dura até que um homem de terno vem ter a seu ombro, coloca leve a mão sobre ele, a moça me desculpe mas o cinema vai fechar, a moça me desculpe mas tem de sair, e nada de seu Clark Gable voltar do cigarro, quantos cigarros terá fumado em 35 anos, quantos fósforos, para então voltar feito fantasma ou vela derretida sem mais graça sem pavio sem motivo – sem nada que a interessasse olhar ou perguntar além do que já havia olhado e se perguntado e se respondido tantas vezes que melhor nem contar.

Mamãe a senhora ta bem, é a filha perturbando o silêncio escuro que Rosário não quer largar, Um copo de água pra ela, é a voz do pai da filha o que escutou então, desgastada mas a mesma, É o calor, agora é o genro, Essa casa é um inferno durante a tarde, outra vez a filha, e aí chega a água a seus lábios e junto chega um cheiro que reconhece e que é do marido, do ex-marido, do defunto redivivo após quarenta anos, trinta e cinco que seja, o desgraçado manteve o cheiro que Rosário esquecera na poltrona de madeira da terceira fila do Cine Astor, ela agradeceu a Deus e bateu palmas quando demoliram o cinema decrépito, levou Ilsa pequena de colo para assistir a pantomima de dinamite e homens de capacetes amarelos e bombeiros e policiais, Um passo atrás mocinha cuidado com a criança, e então a explosão, várias delas como foguetório de quando chega maconha na favela ou se vai ano velho ou algum vizinho aposenta, Rosário puxou o coro das palmas e chorou emocionada – jurou que seria a última vez com emoção e foi mesmo – quando a poeira e um monte de terra seca, feito túmulo de pobre, foi tudo que restou do Astor.

Mas me deixem que não quero água, Rosário empurrou a mão do genro, me larguem que me afogueiam e se de bebida careço é de coisa com mais força que água pelo amor de Deus, de forma que os três se afastaram cada qual seu passo sem palavra, pensavam talvez que fosse mal agradecimento ela os enxotar quando não mais queriam que ajudá-la no desconforto, e o genro toca a pegar um copo da mesa, derruba nele um tanto de campari que sabe do que Rosário gosta, o desgraçado branquelo de ré já na poltrona e na sombra se põe e Ilsa, rostinho de choro que faz desde menina, A senhora tá bem mãe tá tudo bem mãe, E que há de estar bem se me trazem um estrupício desses sem aviso nem reza bem no meu aniversário, Foi uma trabalheira encontrar o pai, Melhor seria se poupar de trabalho ingrato tirar feriado sair de folga, Não me foi ruim o trabalho ó mãe que fiz feliz de ver a mãe contente, E vai lá algum se contentar em ver defunto andando na sala, Decerto que não que o pai tá bem vivinho e forte, Eu digo minha filha que de seu pai nem osso sobrou.

Enquanto conversava com a filha, Rosário inspecionava com rabo de olho o homem pálido, bigodinho branco raspado por cima. Tinha os braços magros com excesso de pelos e uns dedos finos entrelaçados que pareciam ansiar por lírio branco ou cravo de defunto ou até terço. Rosário deixou de olhá-lo ao aceitar o copo de campari com gelo que o genro trouxe. A compadecia o bico de choro de Ilsa, mas mentir a ela era fora de propósito, não teve mentira antes e não seria agora aos 60 que ia inventar.

Aí ficou um clima de velório, o frango assado murcho dentro do embrulho de celofane e os brigadeiros anêmicos também murchando a olhos vistos, Rosário balançou a cabeça e disse Está tudo certíssimo, foi só tontura de calor e tontice de velha, me desculpem todos e até aquele ali me desculpe, e onde estão as crianças que não vi nenhuma, Aqui, gritou uma voz debaixo da toalha da mesa, os dois pequenos saíram de lá com um canudo enrolado em papel de presente e Rosário ganhou uma sombrinha até simpática, pintada de borboletas e joaninhas.

Ilsa suspirou forte que parecia ter escapado da morte, se abraçou ao marido que a abraçou, ficaram se enxamegando e rindo nos nervos do alívio, de forma que talvez pelo gosto de ver aquilo outra vez bem encaminhado e ainda por persistir na boca de Ilsa um resto do bico de choro foi que Rosário se arrastou à extremidade do sofá, encarou o velho branco cuidando de não o olhar os olhos e perguntou de supetão, Por que veio, Vim por covardia, por medo de não pagar o erro aqui e de ter de pagar além, e se quer saber se me arrependi foi a bem dizer cada dia, isso é modo de falar mas garanto que não teve semana sem encontrar seu rosto num sonho ou pé seu no degrau de ônibus que arranca ou letra de sua mão na escrita de outra pessoa, e foi tormento que vivi, não vida, mas se por covarde vim por covarde antes não voltei, Então seu discurso está feito, minha parte era escutar e escutei, disse Rosário, mas não me faça essas caras não, se poupe dessa conversa cansativa que duas vezes não caio no mesmo buraco, Só peço que me ajude a não morrer em pecado, ele disse, e uma das crianças abriu a porta da sala e a brisa do movimento envolveu Rosário no cheiro do homem e o cheiro a arrastou ao Astor como se o tempo fosse asfalto e seus joelhos rodas gastas e a barriga e os peitos casco lacerado pela lixa de pedriscos e magma, de forma que, ao despencar no cinema, Rosário era uma chaga ensanguentada e dolorosamente exausta.

Foi quem sabe por isso que, embora pedindo que ele não mais falasse, Rosário o perguntou ainda umas perguntas, a começar de Por que fez aquilo, e o homem branco como parede caiada sucessivas vezes contou uma história sobre o ponto de jogo do bicho de que cuidava, do qual Rosário por graça de Deus desconhecia, e de como ele pôs as coisas em confusão ao apostar nos cavalos a féria de um dia e por fim ter de sumir para proteger a Ilsa e a ela, e isso ainda antes de ter puxado cana e amargado a vergonha de não mandar um nada, um cruzeiro que fosse, para casa.

Não acredito no que fala, Rosário o interrompeu, pensando porem que de tão longa a mentira podia ali haver uma ou outra verdade, a parte de ter sido preso quem sabe, mas apostar em corrida de cavalo era coisa de livro que o desgraçado lia quando estavam casados, Rosário bem folheou alguns em busca de explicação para o sumiço do marido, quando ainda com isso se importava, 30 anos atrás, e lá estavam os cavalinhos e a jogatina e vigaristas e prostitutas, terá se aventurado ele por esses lugares de mulheres de pernas escancaradas era coisa que se perguntara mas não o faria a ele, e apesar da quase certeza da farsa, por que não, pensou, e então o desgraçado por pouco não voltou a surgir a Rosário como o herói que era lá longe no tempo, no tempo do casamento e no tempo do amor, quando por menos fosse a tirou das mãos de pior desgraçado que era seu pai, mas será que isso conta, será que mesmo lá antes contou, Rosário tenta lembrar, então o velho branco na poltrona perguntou Nem um pouco me crê, Rosário esforçou o rosto no sorriso possível, apertou a mão fina do homem que a deixou no Astor e levantou sem mais palavra, foi à cozinha onde aqueciam o frango.

 

Três

 

No dia seguinte ao aniversário de 60 anos Rosário acordou às seis horas. Seis mais zero mais seis dá doze que dá três. Esse três a vinha seguindo. A afeiçoava o três – completo, sólido, trindade – mas havia algo de sombrio perturbando seu tranquilo equilíbrio: um ruído, um tremor. Isso, um três com tremores, pensou enquanto recolhia os ovos no galinheiro do quintal, seis de seis poedeiras, doze e outra vez o três, a perfeição, bem ao contrário do quintal largado, reino das galinhas e dos dois cachorros velhos que só faziam dormir, quando será que começou a deixar o lugar de tal jeito abandonado é que não recordava, um chão seco de dar pena, uns fiapos de mato no canto, os enfeites que tinha eram os trapos de cor no varal que nem pezinho de flor maria sem vergonha se aventurava a nascer, daí que Rosário viu uma imagem bonita na imaginação e deixou que a imagem brincasse, era um jardim de flor, depois horta entomatada e com erva de tempero, o perfume se lembrando de Rosário na cozinha e a pegando lá de tarde, então Rosário conferiu as horas no reloginho de pulso e disse pronto, pego o trem das nove e em meia hora chego na loja de semente e depois é enxada e água.

Tomou uma chuveirada, pôs o vestido bege de todo dia, o chinelinho confortável de tecido azul com flores. Se olhou no espelho de passagem, voltou, se olhou no espelho e sentou na cama, se ficou observando o reflexo, o tempo passando e ela ali sem saber pra que ia gastar com horta, com planta de flor, se olhando e pensando, e meia hora depois voltou ao chuveiro mas saiu da água quase no mesmo instante e trancou a porta por dentro, como se mais alguém morasse naquela casa além dela e das galinhas e dos cachorros, e quando destrancou o banheiro estava maquiada, tentando lembrar há quanto não o fazia, e depois de experimentar meia dúzia de roupas escolheu um vestido branco de algodão que quase nem cobria os joelhos, que bem por isso tinha ficado lá nos fundos do armário e cheirava meio a naftalina meio a alfazema, depois vestiu um par de sandálias de amarrar no tornozelo e só.

Estava pronta a tomar rumo da estação ferroviária quando a campanhia tocou. Bolsa em uma mão e chave na outra, abriu distraída a porta da rua.

Merda.

O desgraçado, a cara de farinha de trigo e umas flores na mão.

Bom dia, disse o infeliz, E que é isso agora em meu portão, Rosário se irritou, Trazer uma lembrança de aniversário que ontem temi lhe dar, Temeu por certo e a ousadia de agora não lhe cai bem nem me convém, Só umas flores que vão melhor com a beleza em que se encontra a moça do que comigo, Trinta e cinco anos fizeram tão mal às flores quanto a você que as duas coisas estão murchas, Um café e me retiro eu e minhas flores, Aceito por só dessa vez, Rosário disse sentindo a desolação do Astor, uma tristeza de pregas feitas a máquina de costura, uma fraqueza de raiva sem força de ser raiva, e empurrou a porta a suas costas e entrou deixando o vão aberto para que o homem adentrasse, o que fez de imediato, e Rosário sem palavra se levou ao lume, aqueceu a água e coou o café ralo que ele gostava lá no passado e empurrou a xícara e o açucareiro pela mesa e ele tomou um gole com satisfação, molhando os lábios estalando língua, descansou a xícara e olhou Rosário:

Tente me acreditar, Em que, No que parece mentira bem por ser verdade, E que ganho com isso, O gosto de fazer o justo, Quem é esse pra pedir justiça, Alguém que fala o certo, Ainda que seja assim verdade velha é tão ruim quanto mentira, Só perdão que peço, A porta da rua já conhece e pode ir tranquilo, Não quer crer nem desculpar, Essa é questão que deve fazer a si não a mim, Rosário pela primeira vez desde que o reconheceu na tarde anterior olhou em seus olhos e, sem nada que a interessasse lá, pegou a xícara que ele usara e a jogou no cesto de lixo ao lado do fogão.

O homem levantou, inclinou ligeiramente a cabeça como fazia quando costumava ter um panamá cobrindo os cabelos e se meteu porta da rua afora. O maço de flor se esqueceu sobre a mesa, e já Rosário ia enviá-lo ao mesmo destino da xícara quando melhor pensou e escolheu algumas dentre elas, de mais viço, e as depôs em um jarro com água e pitadas de açúcar. As demais arremessou ao pé do galinheiro, para alvoroço das galinhas e desprezo dos cães. É por isso que mais gosto de vocês, disse a eles.

Passou um tempo olhando o jarro de flores, se perguntando por que não as metera ao lixo. E se não fosse mentira, se o infeliz padecesse de um mal, se quisesse tão só morrer em paz, e se ele tivesse voltado depois do cigarro no Astor e a vida fosse outra diferente da vivida, os dois juntos mais Ilsa, férias na praia e ele com barba de algodão no natal tirando do saco a boneca para Ilsa e um bracelete que vinha direito para suas mãos junto com aquele beijo, depois saindo pelo corredorzinho da casa que seria bem outra casa, tinha corredor e sala de estar talvez até de televisão atrás daquele biombo, e ele voltaria sem barba alegre de ouvir Ilsa contando quem passara ali agora faz pouco, Que azar o meu que fui ao banheiro na hora em que o velhinho resolveu dar as barbas, e um abraço e estamos os três juntos bem grudados, rostos esfogueados de calor bom que sobe da barriga e abraça o coração, e por então já dão as horas de dormir, Ilsa tinha seu próprio quarto e se vai abraçada à boneca, os dois ali observando cada passo da menina até ela sumir na curva da porta, agora só os dois na sala e ele a abraça a olhando nos olhos, a mão firme em sua anca a empurrando gostoso para o outro quarto, cama larga bocas se tocando mãos peito contra peito e as pernas entre as pernas, e quando dormiram é quase manhã e a vida passando assim e as flores no jarro sobre a mesa da cozinha seriam tão as mesmas mas murchas de extenuadas de felicidade, ai que me perco de bobagem, onde já se viu flor cansada e velha que sonha de criança, mas bem que podia ter sido e era só uma coisa ter acontecido em lugar de outra, só uma e não mais e a vida e as flores e as galinhas e os cães teriam, teriam cheiro de acqua velva quem sabe, teriam sol quando chove teriam luz quando de noite, ela se pergunta, pergunta aos bichos do quintal, às plantas que vai ainda plantar, teria um abraço depois de tudo será que teria

Só que não foi assim e nem sei que faço agora, Rosário olhou as flores lembrando coisas que não queria lembrar, o rosto satisfeito dele quando uns dias depois de casarem voltou do trabalho com a mão enfaixada e nem por lei disse o que ocorreu, como conseguiu aqueles cortes nos nódulos dos dedos, e quanto mais Rosário insistia mais ele ria e mais a puxava de encontro a si e dizia indecências e a livrava da roupa e a amava mesmo no chão da sala, e era amor doce de selvagem, embora talvez se engane e o amor tenha sido outro dia, talvez na tarde da mão machucada ele só tenha rido sem palavra e uma vizinha tenha tocado  palmas ao portão, era o que então se fazia essa música das palmas para chamar a algum de dentro de casa, e a vizinha pode ter dito, Seu pai seu pai seu pai, e Rosário a olhado sem entender, Que é que diz de meu pai se eu mesma não sei se o tenho, O velho foi atacado por algum bandido que o destruiu os dentes, fez pasta dos bagos e dizem que por pouco não os cortou fora que o bandido tinha raiva e faca, Mas o que diz quando ocorreu isso, Agora mesmo coisa de hora atrás e ao velho levaram em ambulância não se sabe para onde, Que seja longe, Mas por bem de Deus ele foi vivo e se diz que risco não corre, Já isso me entristece, Decerto que sim que é seu pai, Deus ou o Diabo, o que o escolher, que o socorra, Não diga coisa dessa de quem a gerou, E esmagaram bem esmagado o que ele levava entre as pernas, Diz que sim, calça arriada no meio da avenida e nem se reconhecia o que ali antes havia de haver, Deus seja louvado, e quem fez a obra se sabe, Não que ninguém viu e quem pode ter visto diz que desconhece, que estava olhando ao lado contrário, adormeceu no instante ou barulho de carro chamou a atenção justo no momento, Então que seja e me deixe que tenho de cuidar do meu homem, Rosário disse a cada vizinho que veio palpitar a novidade.

E foi assim, com tanta coisa a lembrar e remendar, que Rosário desistiu da visita à loja de ferragens que também comercia sementes, e mais ainda fez pouco do vestido branco de festa que habitava e das cores e feitiços que pôs a seu rosto para fazer bonito na estação de trens, que bem Rosário sabia o que andava a tramar ao se embonecar logo cedo, quando por comum nem à noite se maquiava ou se banhava em perfume, de forma que naquele dia quem se aproveitou de tanta novidade foram lá os cães, as galinhas do quintal e o moço do açougue onde ela buscou uns bifes que fez no capricho possível da solidão. Não que tenha esquecido do homem da ferrovia, dos bigodes engraçados e do nome Luis. A ele e a suas qualidades lembrou e muito, mais ainda ao deitar à noite, o fez com paixão incomum naqueles tempos e, logo após se estremecer na cama, brigou consigo em voz alta, Idiota, burra, prefere o fingido, podia ter ido em charmes à estação, idiota, burra, gastou o dia inventando o passado como se ele não tivesse feito mal bastante, BURRA IDIOTA, se levou à cozinha para se tirar sorte aos búzios e depois perguntar ao I-Ching o que sucedia, mas no meio do sortilégio esqueceu a pergunta, distraiu da resposta e deitou outra vez, sem rezar que tinha raiva em si e não convinha, e só percebeu que havia dormido quando no fim da madrugada acordou de sonho em que seus dois cachorros discutiam cartas do tarot e chegavam a alguma conclusão surpreendente sobre a posição do enforcado, veredicto que por mais tenha tentado não conseguiu lembrar.

Nem muito depois tocaram à porta. Espiou pela fresta com temor de ser o desgraçado. Era um moleque. Entregou a ela umas flores, um CD e envelope, tudo chegado das mãos do infeliz. O bilhete falava sobre a Áustria.

Ninguém sabe onde fica a Áustria. Nem você nem nossa filha que trabalha em livraria, nem quem da vida faz mapa. Vem um e diz que é Europa, muito bem, aí pergunte como lá nasce o sol e de que felicidade vive no lugar o povo. Ninguém sabe a não ser que tenha sido tocado por seus ventos, coisa que fui sem orgulho, e para que me acredite mando esse disco com música da Áustria, 30 por ser uma a cada ano colecionada, e mais não digo pelo papel. Se me permite pela palavra dita, fico no aguardo da sua que autorize.

Ah, desgraçado.

Desgraçado, enquanto alimentava as galinhas, Desgraçado, e os cães já os fornira antes, Desgraçado, por pouco não pondo a rodar o disco, mas o estranho é que dizia isso e nada sentia por dentro, nem dor nem alvoroço, vinham à cabeça umas imagens quebradas e até felizes do passado juntos bem ali naquela casa, que apesar de mudada era a mesma, e decerto que o desgraçado era engraçado, de falta de risada não foi que morreu o casamento, Ê Rosário é claro que não, foi é de sumiço, e vem lembrança que não se acaba, ele levando Ilsa nenê à feira, as rodas do carrinho teimando na rua de chão, uma fruta salta na mão do infeliz e vira boneco, arranca risada sem fim da menina, Rosário na cena apartada lembra que pensou Ah mas que vida de surpresa, não quero outra nem nada diferente, quem sabe não tenha sido exato isso o pensado de trinta anos atrás mas se escapa alguma palavra ou entra outra nem assim foi diferente a alegria do pensamento, e de coisa lembrada em coisa lembrada Rosário já saiu de casa e andou chão, virou esquina e atravessou rua, disse bom dia e por fim chega à estação de trens, deixa o presente entrar meio à memória feito a brisa que a visita as pernas dentro do mesmo vestidinho branco do dia de ontem que ela de novo traja, as mesmas tintas brincando seu rosto, e lá se vai ela sentar comportada a um banco à espera da composição das nove horas, que veio e se foi sem Rosário, e o banco virou espera do trem das nove e meia e depois das dez e nada de Luis dos bigodes surgir, vá que seja data de folga do homem, de fato lá outro instila seus ventos no apito e ela a este outro segue com os olhos a ver se entra a uma porta ou canto secreto onde se esconda Luis, mas o apitador que lhe rouba Luis é tipo preguiçoso, não deixa a plataforma e quando a marcha de lado a lado o faz a passo lento de velho, e foi tão só isso que esse homem ladrão de Luis fez ainda no dia seguinte e no outro dia que se sucedeu e no outro substituto do sucedido.

Luis apareceu no quinto dia. Parecia mais cheio nas carnes, mais tostado de pele, o bigodão meio branco meio castanho meio preto até que aparadinho, sem as pontas desfraldadas que a fizeram rir no dia do aniversário, e Rosário passeou pela frente dele olhando o chão e tentando respirar um ar que faltava, depois voltou e depois foi novamente, e em certo momento desse vai e retorna os olhos a desobedeceram e caíram a investigar se havia anel ou aliança no dedo de casamento de Luis, Deus seja louvado que ali não tinha argola, era só um dedo moreno de homem, grosso e irregular e sem adereço nem marca que se visse. Então por fim Rosário pode tomar o trem e buscar as sementes na loja de ferragens da cidade, escolheu de flor que de comida não carecia, e no dia seguinte já se levou outra vez à ferrovia que agora a necessidade era comprar alguma roupa, as dela esfarelavam de idade, e à outra manhã a filha tinha de ser visitada e Rosário se abalançou feliz ao trem, então comprar um perfume ficou urgente dado o calor que a punha nuns cheiros tristes de velha, e assim foi até que quinze dias se passaram em tanta viagem de trem e tanto passeio de olho baixo na plataforma e tanta falta de ar que Rosário descuidou de seu negócio de leitura de cartas e de conchas e de pedras a ponto de escassear o dinheiro, o bauzinho das economias magro de um só par de notas e umas moedas, Que passa Rosário, ela se perguntou por falta de quem o fizesse, Resolveu enlouquecer, e respirou fundo, reviu a lista de ligações, abriu a agenda largada na mesa da cozinha, chamou velhas clientes para conferir alguma constelação em aberto e pôs a vida outra vez em marcha, se sentindo miserável mas sem saber que outra coisa empreender.

 

Quatro

 

Não sei fazer duas coisas ao mesmo tempo, Rosário disse a Ilsa enquanto tirava o tarot da filha, num daqueles dias, e Ilsa a olhou esperando que continuasse, fosse algo mais clara, mas aquilo era o bastante para Rosário, um desabafo completo que quase a jogava nua, a frase seguinte já dizia sobre o que se passava nas cartas de Ilsa, e assim a conversa passou a rumo doméstico, das coisas necessárias e das evitáveis, uma dificuldade aqui outra além, as cartas se abrindo fita de cinema sob os olhos de Rosário e ela se perguntando, Meu Deus e se isso são cartas a mim destinadas, Estou a misturar tudo, Que confusão, Rosário pensando essas coisas mas falando bem outras a Ilsa, mostrando à filha o caminho curto aqui, o confortável adiante, foi quando Ilsa perguntou, quase indiferente a pergunta mas bem clara, E o pai, Que é que tem seu pai, Ele diz que a mãe não quer conversa com ele, Minha filha não quero mesmo e desculpe a franqueza, Que franqueza a mãe quer desculpada, A de dizer que esse assunto de seu pai vem de erro grave que você cometeu, A mãe também me desculpe, erro pior é não acreditar nele sem ter ouvido o que ele tem a contar, Ora seja, O pai foi injustiçado, Deus me livre de ter escutado isso da boca que sozinha alimentei, Não foi injustiçado pela mãe, foi é pela vida, Só não gostei de você ter ido atrás dele e pronto, acabou-se, Ele que sofreu tanto em exílio e nem pensão de anistia consegue, que teve de fugir de quartel e sumir do país, não é justo a gente não apoiar o pai, Que exílio é esse minha filha, Exílio que foi sorte, graças a Deus não morreu fazendo guerra e revolução, Esse homem tem é língua de aranha, se de guerra escapou foi de guerra de bandido que ele era, A mãe não sabe porque ele tinha de esconder, A única coisa que esse infeliz esconde é a verdade, minha filha, no tempo em que resolveu sumir já não tinha ditadura de há muito e seu pai nem é de fazer revolução que frouxo não presta pra isso, Mãe não quer entender que o pai não era quem a mãe conheceu, era guerrilheiro disfarçado ele bem me contou, era tudo falso menos o amor pela mãe, Que, quanta mentira colada, minha filha peço de coração fique longe dele, A mãe dia desses há de ver os documentos, Que documentos, Que o pai vai receber da Áustria e provar tudo, Assim seja filha mas cuidado com ele que esse homem é perigo, é feito água que a porta fechada não respeita, e agora chega disso que tem carta ainda a ser aberta.

De forma que, naqueles dias, além do temor de nova visita do infeliz se fazia necessário fugir das investidas de Ilsa, que a qualquer instante e por motivo besta qualquer se punha a contar que o pai consertara o chuveiro, levara as crianças a visitar bichos do zoológico ou tinha feito progresso no caso dos documentos da Áustria, conversas que fácil se tornaram um aborrecimento inesperado quando o cunhado e a filha encasquetaram que aquela casa não andava bem para Rosário, tudo caindo aos pedaços, a vizinhança a cada dia mais feia cheia de bandido e tão longe de tudo que, Pelo amor de Deus, se a mãe cai doente nem socorro tem ao lado e a mãe já não é jovem que se vire sozinha, Quando foi que não me virei sozinha, É só jeito de dizer, Jeito bem esquisito, Deixe de desconfiança minha mãe, Ilsa qual a coisa mais importante que sempre ensinei, Que mentira começa errado e termina pior, Pois acho que falar dessa forma, dizendo um pedaço e escondendo outro, se metendo a me enredar numa história que não sei onde vai parar, é tipo de mentira tão mentirosa que tem vergonha de ser mentira, Mãe me ofende dizendo que dei agora de mentir, pior seria me calar quando vejo o que não vai bem, Se vê que fale, Mãe se mostrando a homem na rua como se fosse, De onde tira esse absurdo que me envergonha ouvir de sua voz, Do jeito que a mãe se anda em roupa de menina como se fosse, Como se fosse o que Ilsa, Andando de cara pintada emperfumada se mostrando, Do que é que fala afinal minha filha que isso só cai pior, De ficar a mãe se enxovalhando em frente a homem na estação, Quem pensa que é além de filha que amo mas é só filha para me dizer absurdo, Pai viu que, Seu pai o quê, Ele viu a mãe se desfilar, Pois pode parar agora dessa conversa dizer ao infeliz que se me segue mando polícia atrás dele e se você me tem respeito vai ser a última coisa que o desgraçado do seu pai há de ouvir de sua voz, Mãe não entende que a gente tenta ajudar, Já basta que a próxima vai ser pior e não sou de ameaça que ameaça é de fraco covarde como seu pai, infeliz sem força que de outro usa por não ter, Ele quer ajudar a mãe assim como a gente, Como pode desaprender em um mês o que 30 anos ensinaram pelo amor de Deus, Como a gente ele quer ver feliz a mãe sem que ela saia por aí pintada de rapariga como fosse, Puta, puta é o que quer dizer Ilsa, Nossa senhora que a mãe agora me consegue ofender que eu não disse isso, Disse o quê então Ilsa, Só que não fica bem para mulher da idade da mãe se sair desse jeito em busca, Fale termine o que ia dizendo, Não tenho nada mais minha mãe, Melhor que tenha depois de chamar sua mãe de puta, De jeito nenhum fiz isso me perdoe se fiz pensar assim, Perdão é palavra que aprendeu com o infeliz e me vem usar na casa em que a criei sozinha, A mãe quer brigar com alguém mas não quero brigar com a mãe, Resposta ruim que não aceito é essa que me dá, Bem que o pai, Pelo amor de Deus outra vez o desgraçado na sua crença não aceito, me deixe que é menos ruim assim com raiva do que eu tendo de abrir a porta da rua para minha própria filha mas antes pegue da mesa a carta não virada e há de ser a Roda da Fortuna, leve consigo a carta e veja lá bem o que vai arranjar.

Ilsa piscou os olhos, passeou as mãos sobre a mesa com indiferença e pinçou a carta. Era a Roda da Fortuna. Olhou incrédula para Rosário e deixou a casa da mãe com a carta na mão, o bico de choro na boca. Rosário trancou a porta da sala e foi ao quintal cavoucar o chão duro com a enxada. Os cães e as seis galinhas tomaram a cozinha de assalto e por lá se empoleiraram longe da zanga que transformava em jardim as laterais do terreno calcinado.

 

Cinco

 

20160, 1902600, 14, em minutos segundos ou dias tanto se lhe dá que tempo não existe para ser contado mas vivido, e vivido foi em qualquer número que se mostre o tempo decorrido sem que de Rosário sua filha soubesse o que fosse, um rangido de sola de sapato da mãe ou dor de angina no peito, essa graças a Deus não houve mas poderia, e de teimosia que vai gerador a gerado nem uma quis falar com a outra nem a outra quis de ouvidos dar a uma, no entanto ambas vivendo suas vidas que tinham de viver naquelas duas semanas sem por aparência mais se aborrecer que o necessário com a briga havida que as fez de mãe e filha em silêncio e silêncio, ambas como aqueles ventos que entram em casa e balançam um cacho de cabelo apesar das janelas bem trancadas a vidro, e se houvera de existir uma conversa nesse tempo de mágoa ela teria por certo acontecido, e por não ter acontecido esse era o caminho traçado que às duas competia seguir, e isso embora posto e claro não menos triste se punha Rosário, jogando milho às galinhas em contrição como se fosse à igreja e tomasse do cálice o pão sem antes a confissão, lançando nacos de carne aos cães à forma de açougueira que se enoja do ato de morte contido em seu gesto, professando suas cartas e búzios e visões como se lesse do almanaque as falcatruas do horóscopo em busca de uns trocos amarrotados (tirados com pressa e desconfiança do bolso da calça ou do nicho da bolsa do freguês), e por sentir uma dor difusa que a queimava o peito e estalava acima dos ombros a nuca morena de que se orgulhava desde menina por ser de desenho sexy e toda só feita para carícia secreta Rosário se saiu a andar pelo bairro, a cada dia mais longe, para tentar que o ar fresco das ruas a aliviasse a tortura e a paisagem do mundo tomasse o lugar dos maus pensamentos, até no desgraçado infeliz pensou como linimento para desabafar o que a angustiava e por graça divina não o fez, mas quanto longe de casa fosse ou quanto perto ficasse em suas andadas todos os dias, 14 na exatidão, a algum momento parava a se refrescar na sombra grande da estação de trens, se deixava lá por hora ou quarto de hora em algum dos bancos ensebados de madeira, girava pela plataforma de olhos baixos até que os olhos cansados de ver o cimento sujo se elevavam e caíam nuns bigodes louros morenos ruivos do rei da estação, do dono do apito e deus dos trens, batiam seus olhos lá naquele Luis do qual só sabia nome se é que a leitura do crachá no dia de seu aniversário fora correta, e então se dúvida havia nem nome teria o homem e sem nome nem existir ele existiria, mas seus olhos não se importavam com detalhes e se punham a medir, esquadrinhar, cobiçar, e nesse ponto Rosário vinha e tomava a razão e os proibia aos olhos de tanta malícia e outra vez os guardava no cimento do chão e logo mais nas pedras da rua e depois no asfalto da avenida e por fim no portão de casa, que já era hora de almoçar e logo de atender a cliente impaciente com a vida que lhe cabia e pronto a jogar sobre a fórmica da mesa algum dinheiro que valesse saber quanto mais haveria de desconforto no futuro quiromântico desvendado por Rosário.

Não seria de acontecer trégua nessa guerra que nem anunciada foi, se queria saber Rosário, não haveria justo descanso às guerreiras que se evitavam por distância ou será que por ter doado o coração a um homem de bigodes que nem conhecia além do nome essas coisas de peleja com a própria filha ocorriam, seria pois preciso que um amor a outro destruísse em substituição para existir, seria isso o comum destino a que por desconhecer Rosário se lançava ao raspar os dedos na noite da cama entre as pernas sonhando os bigodes, seria tão cruel o mundo a tirá-la sem graça do que amava em troca do que amava, ela perguntava a Deus antes de dormir, fiel crente de que os sonhos a responderiam na noite para ver que Deus ou os sonhos já lá se ocupavam de outro imperativo e a ela não cuidavam responder.

As flores que plantara no quintal se mostravam, de tanto ralhar com galinha e cachorro os bichos as deixavam em paz, e o tempo escorria como sempre em seu quase silêncio quando já maio mês de mãe se aproximava, o ar mais fino da estação fria logo cedo na janela, e foi nessa sensação de quase tristeza quieta que um dia, sem mais aviso divino, o telefone se pôs a tocar e Rosário o levantou e disse Alô Ilsa que demora em ligar, A mãe é só isso que tem a dizer, Isso e ainda que é feliz escutar sua voz, Fico contente também que a mãe não guardou mágoa, Coração de mãe é lugar esquisito onde desgosto logo some, É quase que como dizer que me desculpou pelo atrevimento, Se teve atrevimento foi de duas não de uma e melhor que isso fique no passado, Amém, E que mais me conta, Tem mais novidade que o pai recebeu o envelope da Áustria, O que é do agrado de Deus não discuto, Veio um tantinho de papel assim dizendo que lá ele morou e de lá saiu com pressa esquecendo conta a pagar, E nem só longe sobrou conta a essa besta, Deixe mãe que o pai se morre de uns choros que deu de chorar por conta desses papéis, Se me promete que não há sombra de seu pai por aí ainda tomo o trem hoje e jantamos juntas, Então venha logo que a promessa existe.

Foi dar de comer aos cães e galinhas e ao galo – que então um galo de bom tamanho tinha surgido voando pelo muro e ali se instalara feliz do harém – e Rosário se despachou à estação, não sem antes riscar os olhos de preto e verificar o caimento do vestido, um bem reto mas quase atrevido de ombros em mostra que comprara ainda de fresco, e quando atravessou o saguão da ferroviária mal teve tempo de ruminar o chão com os olhos e depois buscar seu Luis de apito em riste, dessa vez Rosário não teve cerimônia que o trem já ali se encostava, bufando os ventos da parada, e Rosário se foi direta a um vagão, entrou apertada pelos povos que também entravam, segurou firme um lugar em pé frente ao buraco da porta, então a porta fechou e foi-se o buraco mas nada do trem andar, o aviso de apito não vinha e o trem ensinado se gelou esperando, aí sim uma apitada curta porém em lugar do movimento da composição o que houve foi o das portas se abrindo, Pronto quebrou, ela pensou já quase a sair do vagão, mas foi olhar onde pisaria e viu umas botas que conhecia, subiu os olhos e tinha Luis ali bem em sua frente, os bigodes dele marrons pretos brancos se moveram a boca abriu e tinha ele uma flor desmilinguida na mão, uma margarida alaranjada de jardim público, e Luis não disse palavra ao entregar a flor na mão de Rosário a olhando bem dentro dos olhos, depois se afastando um passo e apitando a saída da composição.

Categories: contos, Escritos

Eros e Narciso

Eros e Narciso

 

1

 

Vesti minha peruca de louros

E por quatro vezes foi minha mão ao rio

Por quatro vezes venceu a distância

De barro margem e molhado

Por quatro vezes em concha a água colheu

De longe me mirava entre os cabelos sulferinos

Com seus olhos de cisternas noturnas

E de longe a amei o negro brilho dos olhos

E a ofertei em silêncio meus cachos

Úmidos de noite e de morte

E da santa água do rio

Por quatro vezes a olhei de longe

Mas seus olhos só viviam do que no rio via

De seu reflexo no remanso

Na outra margem escura

Do rio de prata metálica,

Seu espelho.

 

2

 

em vão te acendi miradas

em vão te lancei feitiços

tudo em vão tudo vão

só agradeci a deus que tua boca

feita de cântaros de lama pilada

de longe e em vão à água do rio

tocava

e as ramas de que sou feita

prenhes de orvalho e insutis

emanações molhadas

se quedaram como a mão do morto

no derradeiro momento do filme mudo:

quase a tocar os remoinhos girando

que logo mais e no entanto nunca

a teus pés passariam e a teus olhos

arrancariam um último brilho escuro

antes do início do dia

antes da dissolução das formas

antes que te transformasses em uma rocha

um pedaço de tronco

um plátano

de gestos feminis

um sonho que tenta

mas não resiste

ao nascimento da luz.

Categories: Escritos, Ingenuidades

O corte

Novembro 24, 2010 1 comentário

É o que se vê. O homem está ali sob um resto de luz que até parece foco de palco. Sem camisa. Abaixo não se enxerga por sobra de sombra. Acima, rosto bem barbeado e uns olhos de fogo claro, pequenos e marotos. Mas está bravo, o homem. Tem dois riscos no meio da testa dividindo as sobrancelhas. A boca é grave. O melhor, porém, é seguir a linha de seu braço. Não esse. É o direito. Ande pela linha muscular que o circunda, o espirala até a mão: uma faca. E como brilha: seu corpo de prata, longilíneo e ameaçador, treme levemente a cada expiração de pulmão ou golfada de coração ou ainda a cada pensamento que escorrega elétrico pelo cérebro do homem.

O homem, que tem nome de árvore, olha a faca entre aterrorizado e maravilhado. José Manacá, é esse seu nome, gira a lâmina ao ar e observa seu delicado fio, esmerilhado a ponto de jóia.

O homem ri. Dá um passo e as nesgas de luz permitem ver que está nu. Dá outro passo, agora para o lado, e se põe junto a uma mesa, pequena e sólida. Com a mão esquerda, instala o pinto sobre a mesa. Ele escorrega. O homem chamado José Manacá se aproxima mais da mesa e recoloca o pinto sobre ela. Está murcho, tímido, e ele o estica. Sim, é circuncidado. Nem feio nem bonito. Um pau descansando. Uns gramas de carne tubular indiferentes ao que ocorre em torno – inclusive ao fato de descansar sobre mesa e ter por perto uma mão portando faca.

Manacá, que volta a rir mas mantém o ar grave no rosto, inspeciona o próprio pênis.

“Lamento. Vou ter de cortá-lo.”

Ele o diz assim como se alguém o ouvisse, ou mesmo que seu membro flácido pudesse fazê-lo. Libera um suspiro.

“Claro que não é sua culpa. O que fiz fui eu quem fiz. Sua parte? Existir.”

José Manacá volta a inspecionar o pau. Com a ponta da faca, o levanta pela base da glande e olha com curiosidade quase infantil. Chega a inclinar a cabeça para observar algum detalhe, alguma rugosidade inesperada.

“Como não?”, ele arranca a faca de sob o pinto com rapidez inesperada, sem ligar para o risco de arrancar-lhe um pedaço. “Como não?”

O pinto de José Manacá se retrai. O movimento é sutil mas o dono do instrumento o percebe. Não é medo. Está frio. Manacá se inquieta e, pousando a faca sobre a mesa, mede com os dedos em paralelo a extensão do pênis. Aquele gesto, esse gesto, é emprestado. O aprendeu com uma mulher. Os quatro dedos da mão direita rígidos, em continência, usados como régua. Ela dava aulas de piano. Gostava de medir coisas com quatro dedos. Manacá a conheceu por acaso. Ele tinha uma filha com vocação musical. Seis para sete anos. Frente a qualquer som, a menina mudava. Ficava muda, contemplativa, olhinhos congelados. “Graças a Deus”, dizia a esposa de Manacá, aliviada pelo silêncio raro da criança hiperativa.

Manacá perguntou na barbearia, no clube, no restaurante que frequentavam aos sábados. A resposta veio no templo. A mulher do pastor – que José mal conhecia – foi quem disse que sim, sabia de uma excelente professora de música. “Uma tutora”, definiu. “Não se surpreenda com a juventude dela. Será uma experiência única.”

Foi. E não só para a filha de Manacá. José costumava levar de carro a menina às lições, embora poucas quadras distanciassem sua casa do estúdio. Eram aulas de vinte minutos. Ele esperava no automóvel. Quando o verão começou, a professora o convidou para uma limonada e mostrou que a ante-sala era bem mais confortável que lá fora. A aula passou a ser de meia hora. A criança tomou gosto. Logo eram duas e depois três lições por semana. Uns cinquenta minutos cada. A caçula de Manacá aprendia rápido. Fazia as escalas na perfeição possível de sua pequenez, rabiscava as teclas alheia ao mundo. A professora, dispondo refrigerante, biscoitos e bolo ao lado do piano, saía da sala em silêncio: a porta almofadada fechada às costas com cuidado sacramental. Então entregava os seios à gula do pai da menina, deixava-se levar por sua pressa regulada pelo metrônomo clicante indiferente ao lado do sofá – e só afastava o homem de suas coxas e ventre quando as batidas chegavam à exata contagem.

Era de uma precisão que enlevava Manacá. Os quatro dedos em riste se despediam, desde a porta da casa, paralisados no ar como a moça sobre as pernas longas que não gostavam de se esconder – exibiam despudoradamente os poros abertos de sua novidade sob um vestidinho curto que, fora ela outra coisa senão amante, envergonharia José pela falta de sobriedade. Mas não existia motivo para vergonha. Era jovem – como também Manacá – e, ao contrário dele, não tinha em si um espírito velho. Não se interessava em colecionar dinheiro, em ver patrimônio crescer ou em surpreender a dedicada esposa oficial com viagem a lugar de luxo ou jóia no aniversário ou casa nova toda decorada. Essas coisas davam a José a certeza de que fazia o certo. De que era o homem certo para sustentar a vida e o prazer de viver de sua família – as crianças e, antes delas, a esposa. Não só sustentar. Envolver. Assegurar. Prover. Amar. Para José Manacá nunca existiu a possibilidade de amor sem sustento – na verdade, o segundo tinha de vir, necessariamente, antes do primeiro. Era lógico.

Ouvir as marteladas da filha caçula ao piano enquanto se deliciava na professora fazia parte dessa lógica. Desde o primeiro flerte, o primeiro beijo, a sensação das ranhuras dos lábios dela tocando os seus, o cheiro do desejo evaporando das narinas e boca da moça, os seios dela com textura de queijo meiacura: nada disso teria sentido não considerasse o amor pela família e, mais, pela caçula – aquela filha que era mais filha sua que da mãe, como se o tivessem podado um dedo ou orelha e deixado crescer feito planta, até um dia brotar dali a intumescência que se tornaria a menina.

Mas se alguém perguntasse o que de bom ele tirava daquilo, daquelas tardes de sexo cronometrado, Manacá não saberia o que responder. Chegou lá por acaso e por acaso saiu. José deixou de frequentar a professora por conta da igreja – a mesma que o levara às aulas vespertinas de piano, ironicamente, delas o tirou. E nem por isso o ano que passou junto à pianista deixou de ser, à sua maneira, magnífico. Nas primeiras aulas da filha, antes de ter a tutora como consorte ocasional, esperava sem ao certo saber onde estava. Divagava, criava planos, resolvia questões urgentes e inventava outras. Nada desconfortável. Era o tipo de inexistência que costumava cursar quando não fazia algo concreto, algo que o tirasse do chão movediço em que se sentia normalmente, algo como, por exemplo, seduzir a pianista. Mas, curioso, até mesmo a ponte para o mundo que a professora se tornou logo foi tomada pela lama  ardilosa, e o que era conexão virou repetição, volta ao pântano onde José, em corpo imóvel e às braçadas em alma, criava planos, resolvia questões ou simplesmente as inventava.

Foi por isso que o templo se mostrou tão atraente?, José se perguntava. Provável que não. O fato é que a caçula carecia de um pouco de religião. E, bem, ele viu na igreja uma possibilidade de negócios. O pastor precisava reformar a construção. Goteiras, a nova ala no fundo, gesso na fachada. O tipo de coisa que a firma de Manacá fazia. Além do que a esposa de José e as crianças estavam deslocadas desde que se mudaram para a cidade. Conheciam quase ninguém. A turma do templo era boa. Nada de radicalismo: havia hora para Deus e hora para o mundo.

Como uma obra chama outra, das reformas no templo aos projetos para fiéis foi um passo. E Manacá gostou da Bíblia, de suas histórias. Basicamente diziam que ele estava certo. Crescer e multiplicar é bem lógico. Com alguma dificuldade mas sem grande tormento ele conseguiu explicar à professora de piano o chamado de Deus. Então a filha de José trocou as lições de teclado pela escolinha dominical, que consumia toda uma tarde por semana no anexo entre o templo e a casa do pastor e de sua esposa.

Os pais costumavam lá largar as crianças e buscá-las no fim da tarde, quando Silvio Santos já não oferecia grande emoção. Manacá porém preferia deixar sua mulher com o carro, em companhia das novas amigas, e permanecer no frescor confortável do templo. Se abandonava quieto, sentado esperando. Patinava no velho conhecido pântano. Tinha ideias, criava planos mirabolantes, alguém passava varrendo o chão depois sumia. Por vez um senhor suado empurrava a alta porta, abandonando o bafo quente do verão na rua, e se ajoelhava a um canto da nave com o rosto comprimido entre as mãos. Alguns tremiam, giravam os olhos, murmuravam coisas. A maior parte ficava ali quieta uns instantes e então voltava à fornalha da vida com o rosto desafogueado. Mas todos repetiam, em determinado instante, a cena das palmas apertando o rosto. Dessa pose de constrição foi que José tirou Glória, esposa do pastor, em uma tarde de domingo. Depois de tempos a observando congelada na postura sublime, Manacá inquietou-se – supôs algum mal súbito, alguma dor, algum estranho desmaio a ter surpreendido em meio à reza.

“Irmã?”, ele pôs a mão no meio das costas dela, entre os ombros.

Manacá errou na hipótese do desmaio mas acertou na da dor – não súbita, era dor dessas guardadas, com suas quinas amordaçadas para que não gritassem nem fizessem gritar quem a ela albergava. José, a partir de então e por longo período, tornou-se devoto: tratou com a diligência que lhe era particular de atenuar a amargura daquela mulher, de mostrar a ela que existiam saídas para as mais ingratas angústias. Buscou com afinco dela tirar a pedra dolorosa que só em um diminuto istmo de tempo – na geografia localizada entre o início do amor e o orgasmo – parecia se diluir, quebrar-se como mica ao sol espalhando luzes. Era porém rocha aquela dor, e logo mais voltava com sua fúria mineral a atormentar Glória como se nunca tivesse sido lascada.

Para Manacá, a amargura de Glória era incompreensível. Abarcava tudo: o marido pastor com suas manias, a vida que ela deixara de viver, as coisas que fazia e que nunca eram boas o bastante, a estupidez da existência sem sentido e a definitiva surdez de Deus eram cacos que, por vez, ela deixava visíveis, mas o núcleo, a fonte da tortura em que Glória vivia jamais chegou à luz – ao menos não à luz que José via. Não que isso impedisse Manacá de exercer seu papel, de amá-la como possível, ainda que fosse extenuante a urgência do gozo tão só para salvá-la por instantes, tirá-la da masmorra e arrancar dela um sorriso que, sim, valia a semana.

A assiduidade de Manacá no templo, porém, passou a chamar atenção. Talvez tanto quanto a facilidade com que desenvolvia negócios na comunidade, munido de seu verbo fácil, sedutor e agora lotado de expressões retiradas da velha Bíblia. Tudo somado, não deveria ter sido surpresa o pastor chamar José a um canto, certa tarde, quando nem atrás do rabo de saia da esposa do ministro ele estava – simplesmente passava pela frente do templo. O coração de Manacá disparou. Tentou uma desculpa mas, frente à insistência do homem de Deus, o seguiu enxugando o bigode de suor. Dentro do prédio, o patriarca sentou a um dos bancos e aguardou que José se pusesse confortável.

“Eu vejo, Manacá”, o pastor por fim disse.

José Manacá puxou o lenço e enxugou novamente o suor.

“É um dom que me emprestou o Senhor”, o ministro continuou. “Vejo dentro das pessoas.”

Manacá inspirou e relaxou. Fosse o que fosse, não podia fazer grande coisa antes que o glérigo jogasse. Só sorriu, olhando nos olhos o pastor. E esperou.

“O que vejo em você é uma potencialidade. Grande, imensa, como Deus gosta de dar a homens que podem usá-la – para o bem ou para o mal, como tudo.”

O pastor falava com irritante lentidão, como se pregando. Após cada frase, aguardava avaliando o efeito. Manacá lembrou de uma das reclamações de Glória e deu a ela toda razão.

“Conversei com o bispo e ele concorda. Não é fácil nem rápido, mas gostaríamos de ter alguém como você mais operante em nossa comunidade.”

“Operante?”, Manacá perguntou.

“Pregando. Não é decisão de uma hora para outra. Pense nessa oportunidade, que não vem de nós mas do Senhor. Aqui só atuamos como instrumento Dele.”

“Está me convidando a ser pastor?”

“Deus está. Sirvo de voz”, o ministro ponderou. “Mas a disposição de seguir ou não o caminho oferecido por Deus é sua. Converse com sua esposa, com os amigos, com Deus. Veja o que dizem e o que seu coração diz. Isso não é negócio. É um chamado”, disse tomando as mãos de José Manacá – as mesmas mãos que, horas antes, se arredondavam nas curvas adúlteras da mulher do pastor.

Manacá saiu de lá tocado. Se sentia indecente. Com nojo de si. Voltou para casa, jantou com a esposa e os filhos e logo pôs os pequenos ao largo – é hora de dormir e não se discute, ralhou com a mais velha, que oferecia resistência. Depois puxou a esposa para o quarto decidido a jogar a toalha: dizer a ela que era um canalha, um estúpido carro puxado por um caralho desmiolado, fraco, falso, um idiota, verme na forma de pinto.

Não o fez.

“Sente aqui, delícia dos meus ais”, disse à mulher indicando a beira da cama. Então a empurrou contra o colchão, a girou sobre o eixo e tirou sua roupa sem cuidado, a galanteando nuca, ombros e costas com lábios e dentes e língua, o rosto dela comprimido nos lençóis, suas ancas e vulva elevadas aos céus com a mesma paixão que levara à esposa do pastor, a paixão que agora buscava satisfazer o desejo de redenção do pecado que Manacá cometera nem só uma nem só dez vezes.

A primeira pessoa a quem José Manacá segredou a proposta do clérigo foi Glória. A esposa do pastor gargalhou. Não é brincadeira, Manacá disse. Você é a única pessoa que me faz rir, ela falou. É sério, Manacá insistiu. As maçãs salientes, elevadas pelo riso, deixaram o rosto dela: então meu marido sabe, Glória considerou, então estamos perdidos. José riu: meu bem, perdido não existe. Ele sabe o que acontece, Glória disse em agudo, como vou voltar para casa? Mas você está em casa, Manacá se divertiu, isso que seu marido pede é diferente, quer crescer na igreja. Que Deus nos perdoe, ela disse sem ouvi-lo, levando as mãos espalmadas ao meio do colo nu. Não não, isso aqui é café pequeno para Deus, é caso que se resolve se acontece, José ponderou. Mas homem que ele percebeu, a esposa do ministro seguiu em agudo. Manacá cuidadosamente se retirou dela embaixo e tomou suas faces entre as mãos: o que seu marido percebeu é que nós estamos fazendo negócios. Nós quem, ela disse, eu e você? Glória, ele se deixou cair na cama, não leve isso a sério.

“Que?”, ela pergunta. “Enlouqueceu?”

“Juro, ele quer que o templo cresça. Sou o fator de crescimento.”

“Pensa em aceitar?”

“Ele sugeriu que eu pedisse opinião das pessoas. Só isso.”

? Então quero uma resposta”, Glória diz.

“Fica simples. Qual é?”

“Vai largar sua mulher e ficar comigo?”

Foi como terminou o affair com a esposa do ministro. E como, por conta de todas as dúvidas, Manacá decidiu que melhor seria considerar ambas as propostas – a do pastor e a de sua esposa – extremamente lisonjeiras mas igualmente arriscadas. No caso de Glória, mais ainda: no estado de espírito em que ela vivia, com os nervos doentes querendo romper a carne, péssimo resultado era o previsível. E não, Manacá jamais quis abrir mão da família, pela melhor aventura que fosse. Amava a mãe de seus filhos, tinha por ela um tipo de adoração e não a trocaria por ninguém. Isso sempre foi tão claro que espantava a José ouvir de Glória tal absurda ideia.

Por natural que, com essa decisão, não apenas as horas de intercurso com Glória como também a fase evangélica de Manacá e as aulas dominicais de religião de sua filha se tornaram, todas ao mesmo tempo, folha virada. O amor fora de casa minguou. Perdeu-o todo – melhor dizendo, quase todo. Tinha lá a ocasional vizinha maluca, mas de fato ela sempre fora um meteorito a passar no céu, um deixe-me ver se tolero atendê-lo agora de quando em vez. Normalmente ela o tolerava quando a filha de Manacá precisava algum reparo nas roupas, um botão caído ou a manga descosturada do vestidinho. José levava a peça para conserto, e a menina, eterno álibi, para o caso de necessitar alguma prova de medida. O resto era sexo tranquilo enquanto a criança brincava no quintal.

E, certo, havia a irmã da esposa. Não a irmã da esposa do pastor, mas da própria esposa de Manacá. Essa nem devia contar, pois que era não mais que sintoma da fraqueza de José, da fraqueza que ele sentia em seu espírito, de coisa que não se justificava embora mantida. Manacá começara a visitar os lençóis da cunhada há bem mais de dez anos, mas era mulher confusa aquela, um vai e vem cheio de culpa – dela, tenha-se claro – que o enfastiava. Verdade, o crime de abrir o caldeirão e cheirar o cozido lá dentro fora dele. Mas, também verdade, era ela quem reacendia o lume a cada vez que se separavam.

Delícia de mulher, voluptuosa. Seria perfeita não fossem as crises em relação à irmã traída. Como se houvesse traição. “Acha que vou machucar a mulher que amo?”, ele perguntava. Isso não era o bastante para a cunhada. Dizia que Manacá não valia grande coisa. Ameaçava: “vou contar a ela”. José sabia que não passava de retórica, mas as voltas exaustivas à mesma cena tornavam a cunhada mais fonte de irritação do que de prazer. Ele não achava exatamente certo deitar com a irmã da esposa, mas que podia fazer se ela se dispunha com tanta facilidade?

Na realidade, era simples em excesso. A filha mais nova de Manacá ficava lá embaixo, no sobrado confortável, brincando com os primos. No quarto do casal, a brincadeira voava rápida, quase profilática. A cunhada se livrava de José instantaneamente após saltar no negro precipício do prazer e corria ao banheiro, dali despachando ordens.

“Veja como estão as crianças que ouvi um grito”, dizia, ou “põe essa roupa que meu marido hoje chega cedo”, o tubo de perfume já na mão esterilizando o quarto.

“Como é que sua irmã não percebe”, Manacá certo dia disse à cunhada, “que as crianças só gostam de brincar juntas de tempos em tempos?”

“Do que fala, ser?”

“Eu a trazia para brincar quase todo dia. A menina é que quer, dizia. Então passo meses sem vir.”

“Quatro meses”, a cunhada conta.

“Quatro meses longe. E sem explicação a menina quer outra vez brincar com os primos todo dia. Vê que é tão óbvio?”

“Tem nada óbvio. Criança é assim mesmo. Bota essa roupa logo antes que alguma delas resolva subir.”

“Acho que ela sabe.”

“Quem sabe o que?”

“Sua irmã, minha mulher. Ela sabe. Pensa que é idiota? E você não teria vergonha de usar sua filha para acobertar um caso?”

“Que caso? Você tem problema, Zé?”, a cunhada, irritada, entra novamente no banheiro e de lá volta com o spray de desodorizante, empurrando o homem para fora do quarto.

Para fora do quarto ela o empurrava, mas não de suas coxas largas. Isso de certa forma combinava com o funcionamento de José, com seu modo de ser. Em todos seus negócios, Manacá era de uma repetição extraordinária, maníaca. E de uma fidelidade igualmente notável. Teve a cunhada no rol das amantes por 17 anos – exatos, sem tirar nem por. Media pelo aniversário da filha mais nova – a que se acusara de ter usado para acobertar aventuras amorosas. José sabia mas relevava a participação da filha em sua ativa vida sexual – participação indireta, tangente, por certo, e nem assim menos participante.

Ora, ele refletia, era questão de ver pelo lado certo. Jamais pensou em insinuar a filha como aluna de piano ou de religião para ter casos. Uma coisa dessas ofendia sua sensibilidade. Ocorria o contrário – a caçula precisava de um pouco de Deus e aconteceu do clérigo ter aquela bela e disponível mulher. Foi quase o mesmo com o piano e decerto a situação se repetiu nas aulas de tênis e de balé, ou ainda no reforço de matemática, que a menina por demais necessitou. Coincidências. E, por certíssimo, também culpa da mãe, que deixava a filha largada, exigindo de Manacá a excentricidade de funcionar como pai e mãe, eis aí uma crueldade, quando ele podia muito bem estar como os outros maridos jogando bola – ideia odiosa – ou cartas, ou tomando umas cervejas ou espiando as moças na calçada do café. Pois então, só o cenário é outro, lá estão as mulheres o tentando, tentando sua doença que, sim pelo amor de Deus sempre foi uma doença, mas se vê que muda o cenário e a filha não está presente – o restante permanece.

É ou não é?, Manacá perguntou ao psicanalista que um dia, quando bateu nos 40 anos, resolveu consultar. Não recebeu resposta. Perguntou diferente: o que pode haver de errado se todo mundo faz o mesmo? Sem resposta. E que pecado cometo se a casa está em ordem, cuido dos meus muito bem e nem deixo de amar nem de atender minha esposa, que pecado seria esse? O psicólogo mudo. José fez o mesmo por um minuto, olhou o relógio e levantou. Deu duas voltas na salinha. O silêncio o aborreceu. Tirou umas cédulas do bolso, as jogou no colo do terapeuta e saiu. Desistiu de pensar a respeito. Perda de tempo.

Mas agora, bem agora, voltam essas perguntas. Que pecado foi esse? E se nenhum, por que dói? E é dor isso, é dor a confusão? Lá embaixo há barulho de festa. A casa de Manacá, enfeitada, celebra o que ele acaba de saber que é o último aniversário da filha caçula ali. Ela se vai. Contou um instante atrás a José. Pai, vou embora. Pai, bato no teto da casa. Pai, não tem onde caiba aqui o que sou. Dezessete anos. E ele sabe. José Manacá conhece bem o cimento do qual é feito e enxerga a mesma mistura na filha: se ela diz que vai, não fica. Não será seu protesto de pai ou exigência de protetor do clã que a brecará. Lá embaixo o barulho de festa cresce e diminui como as estações se sucedem. Não há penitência nos barulhos da festa. O barulho não se importa com José e não parece perturbado por atrapalhar sua tentativa de, nu no escritório, entender o que se passa. É só a menina indo embora, ele pensa. Mas a faca ao lado do pênis, ambos sobre a mesa, diz alguma coisa diferente.

Categories: contos, Escritos

mulher no espelho

Outubro 16, 2010 2 comentários

mulher no espelho

 


a maleável doçura dura do metal
é o que olha de seus olhos:
dom da terra, que de terra rescende
relembra se umidece
entristece de certa saudade mineral
que jamais se entende
que não se alcança
da carcaça de carne que a adorna
que não se alcança
nem no espelho em que se mira
dourada áurea ou núbia
na imagem em que enfrenta
a estranheza de sua nata profundeza:
inalcançável veio, mina subterrânea,
depósito calcário, luz clandestina.

ah, mas não vale a pena, não vale o espanto
do reflexo que a reflete a mineralidade:
há sol lá fora, o dia corre sereno
e alguém
se há alguém além de seu alguém
pode dizer bobagens chamá-la de meu bem
olhá-la sem a ver e amá-la
sem nunca perceber que é feita de metal
do mais leve delicado e cortante metal
de substância que a estilhaça toda
a despedaça no meio da noite acordada
no tumulto do trânsito no toalete do restaurante
no espelho do shopping center
ou no meio do amor
morno
que por amor se faz sem de fato se fazer.

e talvez a isso se chame felicidade.

Categories: Escritos, Ingenuidades

Menina na janela

Menina na janela

 


Corre corre corre, minha filha minha
Fecha a janela com pressa
Que vi um bicho malvado
Querendo por ela a tirar

Não é nada disso, maezinha minha
É só a menina magrinha
E seu padrinho sem roupa
Se aquecendo na fogueira.

Na fogueira em que se aquecem
Queimam coisas sem ter dó
Fecha fecha fecha a janela, ó minha filha minha
Se não a puxam por ela, a comem inteirinha

Olha olha olha, minha maezinha minha
Já lá um o outro come
E tão alto o grito salta
Que me queima a orelha em volta

Não é grito mas é ai, minha filha minha,
Que mata a menina de leve
E o padrinho bem em breve
Voa à fogueira assoprar

E que nó é esse, minha maezinha minha,
Me apertando a barriga, me querendo chorar?

É só medo de destino, minha filha minha,
Coisa que some sozinha
Quando a janela fechar.

(Ingenuidade 2)

Categories: Escritos, Ingenuidades

Meninos

Meninos


vai dormindinho o menino, vai, na caixa da bicicleta.
seus olhos correm estrelas, vai, seu pai pedala depressa.
corre corrente, corre, o sonho do inocente.

voa coruja por cima, morcego ao lado passa
vai o menino com sono puxando o pai pra casa

padece se chega ladeira, descansa se ela desce
foge o pai do menino da noite que se entretece:
se não logo chega em casa, a mãe dele entristece

(Ingenuidade 1)

Categories: Escritos, Ingenuidades

Doce perfume de mangas podres

Setembro 24, 2010 6 comentários

Doce perfume de mangas podres

Bernardo dormiu depois do almoço e, enquanto acordava, passou algum tempo saboreando aquele estado de semiconsciência em que os ruídos do mundo avançam como patas de gato sobre a região dos sonhos. Foi onde teve o primeiro contato com o berreiro. Levou um susto. Era um matraquear excepcionalmente desagradável, por vezes quebrado por gritos como de macacos. Mas cessou em seguida. Bernardo quase caiu no sono outra vez. Podia escutar a cidade, e se deixou tomar pela calma dos sons conhecidos. Era engano: não passava de um breque: os gritos recomeçaram, e com tal fúria que alguém a cinquenta metros dali poderia ouvi-los perfeitamente.

Deu um pulo sentindo o coração aos trancos. Como naqueles pesadelos da infância. De fato se sentia em um deles. Que diabos era aquilo? Não tinha dormido seus quarenta minutos. Péssimo, levantou praguejando. Abriu a janela. Os gritos ficaram mais fortes e, em seguida, outra vez pararam. Uma brisa suave tornava suportável a tarde de verão. As árvores balançavam os galhos e um perfume adocicado de mangas apodrecendo tomou o quarto. Então a voz esganiçada voltou. Não conseguiu perceber de onde ela partia.

O escarcéu acompanhou Bernardo ao banheiro. Lavou o rosto e escovou os dentes o escutando. E seguiu com ele nos ouvidos até a cozinha. De lá saiu com a xícara grande perfumada de café e entrou no escritório. Bateu a porta a empurrando com o calcanhar e ligou a vitrola. Tinha um disco de Alice Cooper lá. Aumentou o volume: Teenager Lament. Só assim, isolado por uma porta de madeira e outra de música, conseguiu se livrar dos gritos. Depois foi tocando outros discos, todos escolhidos pela massa sonora oferecida, para escapar aos gritos. Na capa de um deles, anotou: Fevereiro. As bestas do apocalipse foram soltas. Uma delas está por perto.

Quando desligou o computador e deixou o escritório, noite, o berreiro cessara. Bernardo o esqueceu até o almoço do dia seguinte: os gritos voltaram.

“O que é isso?”, perguntou à empregada, irritado, ao pegar sua habitual dose formidável de café.

“Brócolis”, ela disse sem parar de mexer na panela.

“Não, esse barulho.”

Ela brecou a colher e levantou os olhos: “a música?”

“Música?”, Bernardo tomou um gole do café. “Parece que estão torturando porcos.”

“Ah”, Dalva disse.

“Não sabe de onde vem?”

“Eu acho que”, ela parou e refletiu, “que não.”

Quando Dalva terminou a frase, Bernardo já saíra. Estava lá fora, no quintal perfumado pelas mangas. Farejava a fonte do som. Tinha quebrado o hábito da soneca após o almoço. Primeira vez em cinco, sete, talvez oito anos. Isso ia acabar com sua tarde, pensava andando pelo gramado. Tinha a xícara de café enroscada no indicador. Os gritos o acompanhavam. E, sim, podia concordar com Dalva. Aquilo seguia alguma métrica musical. Estranha mas – então o telefone tocou. Foi desajeitadamente sacado por Bernardo do grampo em que o mantinha ao cinto. Atendeu tentando proteger o bocal com a mão. Queria evitar que os gritos fossem ouvidos. Podiam ser mal-interpretados. Mas a xícara girou em seu indicador. Deu um banho de café no telefone e, claro, no próprio Bernardo, que a essa altura corria para o escritório tentando entender o que a voz do outro lado falava. Horrível.

A tarde foi mesmo péssima. Perder a dormida depois do almoço acabou com seu planejamento. Dalva bateu à porta e entrou sem esperar quando eram cinco da tarde. Bernardo não havia feito quase nada do que precisava. Cinco horas. Ele irritado, ela de saída. Mas Dalva descobrira a identidade do cantor.

“Que cantor?”, Bernardo perguntou. Baixou o volume do toca-discos. Se arrependeu na hora. “Esse cantor”, balançou a cabeça em direção à porta.

“É filho do casal que mudou em frente”, ela disse.

“Um casal de lobos”, ele disse.

“É um menino. Uns quinze anos. Mas usa fralda.”

“Ah, vá.”

“Não”, Dalva pôs a bandeja com café e biscoitos sobre a mesa. “Acho que são dez filhos.”

“Fraldas?”

“Evangélicos”, ela disse, e por fim Bernardo a olhou, surpreso com a quantidade de informações que coletara.

“E as fraldas?”

“O menino. Ele tem algum problema.”

“Claro que tem!”, Bernardo abriu um sorriso. Girou os olhos para Dalva como se ela tivesse de entender que ele estava sendo espirituoso. Mas se lembrou de seu papel e fechou a cara. “A parte do problema eu percebi.”

Dalva sorriu contida, repetiu que estava de saída e, com o silêncio dele, tomou rumo. Segundos depois Bernardo ouviu o rangido dos gonzos enferrujados do portão. Há anos ouvia o rangido e sempre pensava que devia engraxar os pinos de ferro. Dessa vez só passou por sua cabeça que os pinos guincharam no mesmo tom em que o garoto berrava. Seria possível? Deixou o computador. Foi para o quintal. O nham-nhém-nhum do menino cresceu tanto quanto o cheiro das frutas apodrecendo sob as mangueiras. Bernardo testou o portão. Uma, duas, cinco vezes. Encantador. Exatamente o mesmo tom. Que diabólica coincidência, pensou. Dalva bem que podia estar ali. Ela ia gostar. Quer dizer, do jeito que era curiosa bem que podia gostar.

Da calçada via a casa da frente. Escada em L e varanda alta, bem acima do nível da rua. Uma árvore, a copa dançando à altura da varanda, impedia a visão completa da área. Bernardo podia observar, porém, parte de uma cadeira de rodas.

Dois passos à frente e a ruidosa fonte musical ganha corpo. O garoto é rechonchudo, maçãs do rosto rosadas e olhos caídos. As pálpebras parecem ter sido puxadas até esgarçar e então largadas lá. Espalhadas sobre os olhos. O menino balança o tronco para a frente e para trás. Lento, hipnótico. Os gritos ritmam as flexões. Ou o contrário, tanto faz: para Bernardo, foi como se o berreiro cessasse. Ou melhor, como se som e movimento se abraçassem, um calando o outro. Era de tal modo triste aquilo – o movimento contínuo de um robô industrial e o som sem sentido incorporados a um menino – que Bernardo atravessou a rua e teve de se esforçar para não subir as escadas. Mas que faria se subisse?, pensou. Aquilo era dor, dor e solidão elevadas a grau extremo. Que sabia ele sobre essas coisas?

Do outro lado da rua, em sua casa, o telefone tocou. O esquecera lá. Não se moveu. Paralisado, olhos postos no garoto que agora só se flexionava, boca fechada emitindo um murmúrio grave, baixo. O telefone tocando. O menino sorriu, ou pareceu ter sorrido, a boca bem aberta. Não havia mais murmúrio. Um carro passou e o motorista disse qualquer coisa. Bernardo congelado sobre as pedras da calçada. Tinha a boca aberta como a do menino. A brisa do fim da tarde ganhava corpo. O telefone. A árvore começou a balançar com mais força na frente do garoto. Respiração presa, Bernardo pensou que aquele seria o momento dos gritos de macaco. Os agudos girando na varanda e ganhando o ar. Talvez fosse, não tivesse saído da casa uma mulher encurvada e de óculos. Sem perda de tempo, girou a cadeira de rodas e a empurrou porta adentro. O telefone ainda tocava na casa de Bernardo.

Começou a chover. A rua serena.

Nas tardes seguintes não houve cantoria. Pássaros, caminhões, ecos de cães ladrando e vozes passageiras retomaram seus lugares. Bernardo não mais dormia após o almoço. Encontrou excelentes explicações para a mudança de hábito – o molho muito condimentado, a preocupação com um projeto que se aproximava do fim se de fato estar pronto. Duas da tarde. Mexeu distraidamente o mouse. A tela mostrou o croqui de uma casa. Onde estava o café?

Passou a porta da cozinha, seguiu o corredor e cruzou a sala. Cheiro de mangas amolecidas. Abriu o portão e sorriu o guincho dos gonzos. Nada além do calor sufocante: a rua em silêncio. Deu meia volta. Aquele banco de ferro e ripas, embaixo da mangueira, antes ficava na casa do pai. Não lembrava quando o trouxe. Sentou, abraçado pelo calor e perfume das frutas. Deu por si quando passavam de três da tarde. Uma igreja tocava sinos.

Da porta de vidro da sala, Dalva o olhava. Desconcertada, a bandeja habitual de café nas mãos. Grossas gotas de suor desciam rosto e pescoço de Bernardo. As folhas da árvore balançavam sobre ele. Começou a listar, mentalmente, tudo que tinha de fazer. E dormiu.

Dalva o acordou às cinco. Suado, camisa empapada. Ela tinha de ir. Era quase bela. Bernardo aquiesceu confuso de sono. Acompanhou os passos da moça até o portão. Tão magra, parecia quebradiça. A mão dela subiu ao trinco e parou. Ela virou o rosto só um pouco para trás, mas o bastante para ver o olhar dele, de longe, a seguindo. Bernardo pensou que Dalva voltaria. Mas não. O ruído dos gonzos. O mesmo tom. Onde estaria o menino?

Se deixou olhando as folhas da mangueira, acordando lentamente, e cochilou. Ao abrir os olhos, o mundo era quieto. Bernardo não entendeu imediatamente. 6h31 no relógio de pulso. Costas, braços, pernas, tudo em pandarecos. Mas a mente clara, límpida. Dalva saíra há pouco. Ele tinha a noite toda para recuperar a tarde perdida. Foi alguma coisa com a luz que o despertou completamente. O sol no lugar errado. Olhou outra vez: 6h32. A claridade nas costas. Riu deliciado. Era manhã. Fez as contas coando café: 15 horas dormindo no quintal.

Sentou ao computador. Se sentia ótimo. Seu humor ficou ainda melhor quando a voz esganiçada do garoto ecoou pela casa. Era horrivelmente triste. E, ao mesmo tempo, tão expressiva e melódica quanto… quanto o que? Mozart, talvez Mozart. Uma daquelas peças da infância do gênio. Não, claro que não era isso. Mas, e daí? Com o passar dos dias Bernardo se acostumou a substituir a soneca da tarde por umas tantas furtivas visitas ao quintal. Observava o garoto desde o portão, dois passos além. Não pensava mais em engraxar os gonzos. Os passeios ao sol faziam bem. O calor o relaxava. Rosto e braços ganharam cor. E o humor. Melhor, bem melhor. Dalva até conversava frivolidades com ele. Magra que dava pena. Antes ela não tinha coragem. Achava que ele era um bicho, ele sempre soube. Bernardo se pegava observando a moça, analisando o que ela dizia. Não era feia. Tinha uns olhos tristes profundos. O cabelinho fino. Às vezes uma mecha caía sobre o rosto e se esquecia ali, fazendo sombras. E tão magrinha. Mas balançava toda ao andar. Um gingado macio, calmo. Gostoso de ver.

E Bernardo no quintal. Ouvia, pensava. Tinha vontade de fazer qualquer coisa. Abraçar o menino. Dar um longo passeio com ele. Como se isso, seu interesse pelo garoto, contivesse a cura – pudesse impedir as flexões, o balanço, os gritos tão magoados. Gritos: Dalva dizia música. Lamento seria mais apropriado. Era melancólico. Como a magreza dela. Eram pobres. Dalva também, assim como a família do menino. Planejou mas não ousou oferecer ajuda. Ele ponderava: ser pobre já é humilhante. Não preciso tornar isso pior demonstrando que sei.

Do portão, tomado pelo cheiro das mangas, descobriu que ritmo e entonação do garoto mudavam com os ventos. Tinham sobriedade de oratórios em latim se brisas. Rajadas curtas significavam quase gritos. Ventanias, aquele som de macaco. O ritmo, impressionante. Como se existisse um maestro, um metrônomo. Talvez apenas seguisse o próprio coração, e este acompanhasse o ar em movimento.

No final do verão vieram as chuvas grossas. A água martelava sincopadamente alguma calha ao lado da janela do escritório. Bernardo intuía o lamento, o filtrava da bateria hipnótica da chuva. Nos intervalos de estiagem ia ao quintal. Os gonzos lubrificados pela água nada diziam. O vento passava pela copa agitada da árvore à frente do menino. Ele, olhos brilhantes mas sem foco, respondia. Como se viesse por toda a vida construindo a melodia. Nota a nota descobertas e cantadas. Um diário musical – e sombrio como sua vida, Bernardo pensava.

Foi em uma dessas tardes chuvosas. Só garoava, quase neblina. Bernardo, a caneca de café presa ao dedo, conversava com Dalva na cozinha. Foi ela quem escutou antes. Barulho esquisito, disse. Um silvo agudo, como de metais em atrito, lutando por algo ou contra algo. Ele vinha, o som riscado, lá dos lados do garoto. Do mesmo lugar onde nascia a cantoria. Durou algum tempo, depois parou. Continuaram conversando. Era bem melhor do que ir investigar. Dalva dizia coisas que o deixavam encantado – às vezes pela inocência, outras pelo brilho. E, quando sorria, Bernardo via chispas de luz saindo de seus olhos. Consertava a mecha teimosa do cabelo. Ele quase pedia que a deixasse ali, fazendo sombras, desenhando um mistério em seu rosto.

Dalva mais tarde surgiu no escritório com a informação. O barulho metálico pode ter sido da motosserra. Derrubaram a árvore. A que balançava na frente do garoto. Tinha cupins.

Agora, sem a árvore, Bernardo tem visão perfeita do garoto fazendo flexões em sua cadeira de rodas. E, verdade, até tem ventado bastante. Mas o menino não canta. Nunca mais o fez. Nem os murmúrios, nem os gritos de macaco. Seus olhos embaçados olham o nada. A brisa passa lisa, sem turbulência, pela varanda onde ele entardece em sequências de quietas abdominais que não o tornam nem mais magro nem mais feliz. A música se foi.

“Não era o vento”, às vezes Dalva diz, puxando Bernardo pela mão, do portão onde ele teima ficar, para o escritório.

Bernardo gosta da mão dela. Lembra a textura de frutas.

Categories: contos, Escritos, Long Playing

Maria

Setembro 16, 2010 19 comentários

Maria

Aquela mulher que ali se vê chama Maria. O nome vem de qualquer intercorrência histórica – talvez tenha tido pai ou mãe religiosos, cristãos de domingo benvestidos no templo do senhor, ou mãe e pai de pouca imaginação que à simplicidade do Maria fácil se renderam, talvez ainda nem um nem outro que isso de nomes de bebês se lhes dá à veneta, quase vale dizer o nome se faz ao olhar da mãe que observa o ser enrugado a abandonar seus interiores e diz por que não Maria, e pronto, lá se batiza ou nem se verte água mas o nome gruda ao ser que vem se juntar a nós outros, fica assim como que parte dele, de forma que quando se olha ao ser daí em diante é como se uma voz dissesse essa é Maria e pronto, não se discute, fica inútil futricar os porquês de dedo chamar dedo e não zolo ou outro som que se queira, por mais que zolo possa para algum melhor indicar a textura e a serventia e o design do dedo. E se por certo chama-se Maria essa mulher, igualmente há de ter outro nome que a defina e a substitua das outras Marias paridas e viventes no mundo, que as há às mancheias. Isso embora essa não seja Maria qualquer, mesmo porque caso fosse nem teria sentido vê-la descrita em letra escrita, em letras de forma que por decorrência são formais e tratam dessa forma de assunto de seriedade, mas o fato de ser uma Maria singular, especial talvez, ao contrário de permitir que não tenha um segundo nome mais ainda a obriga a tê-lo, a valer-se dele como passaporte da diferença.

Ocorre que essa Maria, nascida sabe-se lá onde, como e de que mãe, perdeu-se de seu sobrenome, o deixou em algum balcão de pedra ou mesa de fórmica, em algum abraço de êxtase que pela manhã nem mais recordava, em qualquer ângulo de corpo ou copo, ficou o nome esquecido sobre a tampa do criado mudo e aquela mulher que sob a lua entrara ao quarto dotada de nome e sobrenome sai com o sol picando os olhos e sem a metade que a ligava a sua linhagem, a antepassados porventura vindos de centenárias peregrinações por terras hoje escondidas sob o mar, no estio da caminhada se buscando em frenesis sensuais para gerar gente que geraria outras gentes que gerariam por fim alguém perspicaz a ponto de, uma bela noite perdida nos séculos do passado, dizer pronto, estou pronto, agora vou a fornicar e com isso me derreto de gozo mas ainda mais importante com isso intercedo a favor de uma Maria que nasce carregando meu nome e gen daqui a mil anos, e eis aí porque temos de fornicar hoje, mulher, eis que o futuro depende de suas pernas abertas e de alguma colaboração do meu lado, então se adentre, marido, teria de dizer a mulher, e nem telefone nem barulho de bicho ou campainha traiçoeira poderiam atrapalhar o intercurso de amor ou de mero prazer pois que se qualquer coisa desse errado nem existiria hoje a Maria, e felizmente tudo funcionou a contento, muito embora o resultado, a se ver o que se vê olhando Maria, quem sabe não satisfizesse o casal de avós milenares, não só por ter ela perdido o sobrenome que queriam manter vivo como também por seu atual estado sem graça, de ruína, como fosse pedra acinzentada cinzelada a golpes de tragos, o álcool a destilando os traços até se tornarem riscos sórdidos, duros e esquecidos de algum dia terem tido nuances e arredondados, esquecidos de seu colo ter encantado um homem e o feito se sentir nos jardins do rei Salomão ao deitar-se sobre Maria e sussurrar minha amada, tuas ancas são como sonhos de padaria e teu ventre o mais nobre confeito coroa, tu és a rainha com que sonha o minarete deste teu servo e por ti me mato na mais infeliz guerra sem causa se teus prazeres me concedes, não não não, dessas palavras já não se lembra qualquer contorno da pobre Maria, sua pele seca talvez hoje se intumesça mas por arte do trago não do açoite do amor, isso logo se observa nas vestes sujas, nas garras pintadas em rosa descorado e na voz gasta com que explica, sem pesar nem maior emoção, ter uma filha de bom corte, coxas largas como sonho, peitos de rola prontos a satisfazer homem ou mesmo outra cria, experimentada na cama que decerto não ofereceria moça sem teste, uma filha única que tem e portanto que lhe é cara, e se a quer vender nesses seus 14 ou seriam 15 anos é porque já cresceu o que tinha de crescer e não pegou marido nem amante, começa a ser peso de difícil andadura essa menina, Maria como mãe bem sabe que mais dia menos dia a garota se emprenha por falta de cuidado ou vontade do destino, bem sabe quanto é distraída a menina, ainda mais que já cansou de levá-la a homem de toda qualidade mas a largam cedo com uns trocos e de troco não se vive, e é assim que essa Maria, tão de longe esperada por gentes que se esquece os nomes, faz a oferta sem rodeios e espera o resultado, a ver se seu discurso sincero seduz a quem seja no armazém, já que não é a algum que fala mas a todos ali à roda, a quem quiser ouvir e se dispor a perguntar preço, condição de entrega, se há garantia e tudo que se espera de um negócio bem feito, algum ali do bilhar pergunta onde anda a prenda e Maria se sai lépida, cala a boca que não ofereço minha cria a cachorro, o armazém gargalha todo que se estremece e o homem pede desculpa, puxa um copo que cai ao chão, espatifa os vidros de que é feito, a gargalhada sobe outra vez em marola forte de maré vazante e umas vozes buscam do homem a hombridade e o espicaçam por ter vertido pinga e cálice quem sabe por medo da resposta dura de Maria, seu Antonio me dê outro com urgência que esse se foi ao santo ou à santa, diz o homem e já logo cata da mão de seu Antonio o copo quase a transbordar e o eleva acima da cabeça, saúda seja o que for, toma meio gole e leva o restante a Maria, essa vai em homenagem a essa mulher que tem colhão, o bar gargalha, a mão de Maria voa non-stop e pega o copinho duro sem pressa e sem dúvida, o transparente da borda do copo some por sua boca em que resta um tanto de batom mas só nos cantos, nas comissuras, e Maria levanta os olhos e sorri, dentes brancos manchados de alguma tinta marrom nas extremidades todas, como sombras, não tem ninguém interessado, ela pergunta, nem pensem que é de graça porque não é mesmo, essa menina é valiosa, é meu tesouro, pari bem parida e cuidei até aqui como princesa, e onde anda essa princesa agora, quer saber outra voz de homem, e só de homem é voz que se ouve no armazém a essa hora da noite porque não há muita frequência feminina, Maria é honrosa exceção contumaz, quem é que quer saber, Maria procura o dono da voz e ele é seu Antonio, dono do armazém, da venda como se diz aqui, por isso dessa feita não houve gargalhada que a turba o respeita por idade e, que se há de fazer, por ser o homem que serve o que se bebe, Maria o olha com estranheza, dá um passo, cambaleia outro, desiste de andar e toma ares de retidão ao responder que a filha está em casa, a essa hora da noite, que é o lugar certo para uma garota de bons costumes e educação fina, alguém ri mas seu Antonio leva os olhos até o risonho e o riso morre, um silêncio toma o armazém, pois se está em casa está bem que anda perigoso por aqui, diz seu Antonio, e o senhor não gostava de uma ajudante que acompanhasse o senhor que é viúvo, Maria pergunta, não careço nem costumo comprar gente, seu Antonio fala, mas como o armazém segue quieto e seu Antonio sabe do que vive e de onde vem seu sustento logo engata outra frase, diz isso até que podia ser bom quando eu era mais moço, e é o bastante para a gargalhada ecoar outra vez e a bola de sinuca rolar macia em seu tapete verde, ninguém quer saber o preço, pergunta Maria, o homem que ofereceu a pinga a ela se aproxima, não pergunta mas tem a questão pendurada nos olhos, menos para você, Maria diz, não vendo, não faço negócio com cachorro, mas minha pinga aceita, pinga não é negócio é só oferta de amigo, e que amigo sou que não posso ter a guria, é amigo e cão, Maria mostra os dentes, o homem vai dizer alguma coisa mas um confrade o puxa de volta aos tacos de bilhar, oferto a menina a qualquer um menos a esse um, Maria agora grita, seu Antonio a olha e pergunta se acha certo vender uma filha, eu quero saber o preço, diz outra voz, de um rapaz nem tão novo nem tão velho que se encontrava desde a chegada de Maria encostado à pedra do balcão, sozinho bebericando uma cerveja que parece não se acabar, uns 30 anos e a pele esticada de sol que se costuma ter na região, pele de um liso brilhante que com o tempo vai se cumprir em destino de rugas, cabelo preto bem curto e um olhar quase tímido, é quem faz a pergunta sem se mover, os homens do armazém não prestam atenção, já se riram da piada da noite e têm outros interesses, não querem saber dos absurdos de Maria que, é usual, amanhã terá outra coisa a vender ou trocar por um punhado de amendoim torrado e uns copos, coisa que ela só não faz nos começos de mês quando recebe a pensão do falecido e se diverte pagando em dinheiro o que bebe, e o senhor faz o que, Maria pergunta ao desconhecido que quis saber o preço, cuido de sítio, ele diz, tem casa ou mora com a criação, não sou homem de deitar com bicho criado, então tem casa, a senhora quer vender a menina ou quer saber da minha vida, os dois que não vou entregar barato essa cria que me custou a vida, tenho casa com luz e água e telefone e televisão, tem dinheiro também, o que dá para o sustento tenho, e quer saber o preço da menina sem conhecer, de forma alguma decerto conheço sua filha que anda com a senhora e sempre vejo as duas, vai bem assim e o preço é duzentos, a senhora me desculpe mas faço outra oferta, ih meu filho essa não cola que é conversa de pobre não aceito menos, meu assunto não é barganha eu quero é casar com ela, Maria o olha sem entender, até como se não mais o enxergasse embora não tire o olhar do moço, que radariza com o cuidado que consegue ter em seu estado de álcool, puxa do maço do moço um cigarro e o acende, o faz sem tirar os olhos dele, suga com força a fumaça e infla o rosto ao soltar uma nuvem no rosto dele, me paga um vermute, o moço não abre a boca só vira a cabeça para seu Antonio que, do outro lado da pedra do balcão, escolhe a garrafa e serve, Maria toma um gole e ri, não entendi o que o senhor quer, Maria diz, frisando o senhor, é o que eu disse quero casar com ela não comprar a menina, o senhor sabe o que quer dizer casar, sei que já casei e tenho filho que cuido e mora comigo mas ando sozinho e a menina sua filha é de meu interesse, o senhor me diz que não quer pagar, Maria o interrompe, digo é que quero casar, venha comigo um tanto, Maria cambaleia em direção à porta da rua do armazém e o rapaz a segue, lá fora longe dos olhos e ouvidos do povo do armazém Maria o pega pela mão e indica com o queixo um canto ao lado onde há um banco de madeira sombreado por um pé de dama da noite, e no banco, recostada e meio dormindo está a filha de Maria, mas a senhora disse que ela estava em casa, o rapaz olha embaraçado para Maria, eu falo o que preciso falar e vá lá conversar com ela depois nos acertamos, a senhora desculpe mas não quero comprar quero casar já disse, vá lá e depois se vê, Maria solta a mão do moço e o empurra em direção à filha, que o olha desconfiada, tem o mesmo olhar de desconfiança de Maria só que leve, como que perdido do mundo, e é bonito esse olhar no rosto que guarda uma lembrança de criança e já umas tintas de mulher, um rosto de calma e movimento lento, gostoso de se olhar e prometoso de perfumes de madeira verde úmida sob o cabelo todo cacheado, quer me comprar, você estava ouvindo a conversa, então quer me comprar, eu disse que caso com você, é igual o mesmo, de forma alguma que é, você gosta de me olhar que sei, gosto não escondo, também não acho ruim ir com você, aceita casar comigo, aceito namoro se ela deixar, e como não ia deixar, depende de como ela anda no dia para deixar ou não, falo com ela e acerto isso, o moço agora se aproximou o bastante para ver uma longa cicatriz abaixo de uma das orelhas da garota, avançando por sob os cabelos, que foi isso, conto quando for namoro, vai ser logo, então conto quando for casamento, se me aceita depois do namoro vai também ser logo, é o que quero ver, pode confiar, ele diz, e a menina, que como a mãe tem por nome Maria, entende que vai ouvir essa mesma frase, pode confiar, muitas vezes, mas tantas vezes que um dia nem precisará ouvi-la para saber que foi dita, sendo o bastante para escutá-la observar um qualquer movimento de uns músculos no rosto do moço que será seu namorado e depois marido e depois ex-marido, e é por isso que, enquanto ele dá as costas para voltar ao armazém e negociar com a Maria mãe, os olhos da Maria filha se enchem de lágrimas de pesar pelo futuro, quando ela o deixará com dois outros filhos, um deles a terceira Mariazinha, em troca de acusar o marido de tê-la comprado e em troca de seguir pelo mundo com outro sujeito que mais lembra os homens que ali agora ao lado da mãe a cortejam pagando com um trago, um gracejo, uma atenção qualquer vagabunda, e é só por isso que os olhos da Maria filha se embaçam de água e que ela respira fundo, tão fundo quanto pode, enquanto espera que o futuro namorado venha com a resposta da mãe e a despose e por fim cumpra o destino.

Categories: contos, Escritos

O Dom da Invisibilidade Cap 7

Agosto 10, 2010 1 comentário

(quer ler os anteriores? Eis: Capítulo 1Capítulo 2Capítulo 3Capítulo 4Capítulo 5Capítulo 6)

Capítulo 7

E lá se manda Onofre Dei para a cozinha. Não parece ser ato que se faça, mas ele é peça da casa. Aqui é, como Bandeira, amigo de rainha e rei. Tudo pode etc. Veja como cruza o limiar mágico, o portal da caverna dos cozimentos, sem qualquer cerimônia: simplesmente entra, como fosse mera porta de vai-e-vem, dessas de mola movida, o que sem dúvida é, porém sem o mera. Não há nada de mera ali. Não entraria assim a mais iluminada sacerdotisa nos vapores de Delfos, e ele o faz talvez até por desconhecer a gravidade de sua obra e, assim, portanto, sendo pelos espíritos da cozinha perdoado. Isso de fato é curioso: por que se intui os seres superiores e invisíveis perdoarem a feitos de inocentes quando, na palpável realidade da vida, a ninguém e nenhum nada é perdoado pela natureza? Tolice, claro, questão sem nexo. Estamos é mordidos de inveja por Dei ter avançado onde gostaríamos de estar – e mais ainda considerando lá a presença de Yasmin em sua máxima potência, pelo que se diz, no auge do reino em que reina.

Que haverá ali, que surpresas, que belos artefatos e supinas moças? De que cores serão seus pelos e unhas, que sutis ou grosseiros panos usarão sobre os corpos? Serão belas ninfas ou inexpressivas transeuntes da rua, quase transparentes por suas figuras comuníssimas? Interessante que não se as tenha visto nenhuma delas aqui ao ar livre, exceto uma em momento fugaz no cair da tarde, mas então lá estávamos preocupados em entender quem era o cavalheiro que observávamos – logo se descobriu ser Giuseppe – e por descuido nela não nos detivemos. Agora, curioso, não sobra na memória sequer um traço da personagem que vimos (e por certo a vimos), como se tivesse sido uma sombra ou mais uma das invisibilidades que vivem a nos bulir, normalmente sem que percebamos.

Está um calor dos infernos aqui. Terão algum tipo de arrefecimento na cozinha? Íamos quase a considerar que a resposta viria com o radialista, quando dali retornar – se vem pingando, o quente de lá é maior que o de cá. Mas Dei pinga o tempo todo. A informação seria inútil. Estamos a ficar ansiosos, é o que parece? Sim. Não, não, é só o vinho, o abafado, o fato de estarmos quase cansados de não saber o que ocorre com Giuseppe, ele que vimos correndo seminu para a avenida e dela sumindo nos escuros da noite, quando, em verdade, deveria estar convalescendo no hospital ou, se morto, estar quieto na laje do morgue. Bem confuso tudo isso. E aí vem, com um punhado de tampas de garrafa chacoalhando nas mãozinhas bem desenhadas, a linda Eneida. Entra por sob as mesas, passa embaixo de cadeiras, vem vasculhando o chão e recuperando as tampinhas de metal, as balançando como chocalho ou pandeiro, e cantando uma musiquinha infantil – mas o que ela canta não combina em nada com a melodia:

Pois se há um jeito

Se há um jeito

Haverá de surgir

Há de surgir

Bem no formato

No formato

Mais que perfeito

Escutou também? Que raios de canção infantil é essa? Deve lá de ser coisa de Piaget e seus tijolos, por certo, que isso em nossos ouvidos quase nos faz corar – se fosse possível hoje em dia um ser corar – dado o absurdo desse encadeamento de palavras. Criança que se preza deve cantar casos de cachorrinhos latindo e ovelhinhas balindo no fundo do quintal, se tanto, nada dessas temerárias construções que, santo deus!, parecem tiradas de filme de horror. Deve ser o calor, a vozeada do bar, que ela certamente não canta o que ouvimos. O lamentável é que a criança segue sem tropeço na mesma canção, e nos chega perto o bastante para alguém mais informado das covas ouvitórias afirmar que o faz afinadinha, o tom em lá menor, não que faça diferença mas é em lá menor que a danada nos passa ao lado da mesa e prossegue até as bordas do precipício da cozinha, ali há manadas de tampinhas que agora se juntam na sacolinha feita em dobra do vestido na altura do ventre, e a música segue. É uma lição a aprender: há também invisíveis sonoros, o que por pouco não escapava a nossa busca. Da mesma forma que as orlas das coisas olháveis esmaecem quando não as prestamos atenção, também os sons, que são outro tipo de coisa visualizável, podem fazê-lo. Pois a casa se encontra no auge da balbúrdia, os nativos todos excitados com a premente chegada da carne enterrinada em molho e temperos, e os garçons berrando ordens uns aos outros e ainda aumentando o volume da música das caixas acústicas sorrateiramente espalhadas por todo o canto, tudo isso são ruídos a não querer mais, e no entanto eles não existem para nossa percepção que se ajustou a certo único ruído afinado em lá menor, pondo tudo o demais em suspensão silenciosa, como a que dizem precede os graves momentos derivados de acidentes e coisas assim, a exemplo do ocorrido com Giuseppe quando o carro capotou. Tira a poesia da imagem, claro: nesse caso, ele não teria ouvido Vesselina Kasarova entoando Mozart enquanto o horizonte rolava calmamente a sua frente, destruindo o auto que o levava e trincando e depois quebrando em cacos seus ossos, não do auto mas dele, Giuseppe, e a nós agradaria muitíssimo mais que sua destruição, se inevitável, se fizesse a som vivo e bonito, não em silêncio subterrâneo aquático, e tudo indica que foi no líquido abafado a frequência experimentada por ele.

Graças a deus o radialista sai do quarto de cozinha, que ele nos tira dessa impressão triste de fado – já se usou essa comparação aqui a algum canto, parece que o tom melancólico nos pega por vezes. E vem atrás de Dei, maravilha dos olhos e das sensações, a núbia Yasmin envolta em miasmas de sensualidade, como se os evaporasse, como se composta deles, e por certo deles é composta caso contrário não os evolaria, anda lindamente apesar de vestida em dor, e enquanto Onofre Dei vai reto e passa pela menina que colhe tampas de garrafa a mulher delicadamente se inclina e pega ao colo Eneida, ah, o momento único do encontro do mesmo com o mesmo, como se o filho pródigo retornasse ao regaço caseiro sem nem avisar sua chegada e ali simplesmente se pusesse ao pé de quem ama e de quem o ama e se intrincasse naquilo em que por direito é intrincável, e é o belo que ao belo retorna quando as duas juntas, uma aos braços da outra, seguem sobre os pés de uma e o desejo de ambas passeando com os cachos dos cabelos misturados e os rostos colados e algo de perfeito as envolvendo em seu caminho lento até a mesa de Esplendorosa e do médico Granel, onde a pequena apeia ao colo da mãe e pronto – a magia se desfaz, embora outra magia se construa no mesmo instante em que Esplendorosa a beija e se interessa pelas tampas que a menina espalha na mesa.

Dei se perdeu em lugar que não vemos. Yasmin, após entregar Eneida, senta ao lado do casal. Ela encara Granel com um sorriso tão autêntico quanto possa ser um sorriso. Que faz aqui?, (ela não larga o sorriso mas é como se quisesse jogá-lo longe), é seu amigo morrendo e parece que nada acontece, Não é isso não é isso, É o que então? o que o faz não se mover nem quando seu único amigo morre?, Quem diz que é único?, Eu digo e sei o que digo e você sabe também, Não é o único, Quer se fazer de idiota ou o que? porra, por que está aqui e não no hospital, me fale, me convença de que ele está certo quando o trata como alguém que merece respeito, Também estou morrendo e, você vê, não há ninguém me velando, Morrendo qualquer um de nós está, porra, mas não brinco de filosofia, Nem eu, Nem você? que bosta de amigo é? tem ideia de como ele está? É provável que eu morra antes dele, a aids me come o miolo com mais velocidade que as hemorragias dele e nem me há solução que a ele existe, Que se foda sua morte rápida se sua vida se limita a ficar parado olhando, Yasmin diz, e o sorriso que vinha mantendo se desfaz em avalanche silenciosa, pois o que disse o fez em voz baixa e bem contida a ponto de não interferir na conversa sobre tampinhas de garrafa que Eneida e Esplendorosa mantêm a poucos centímetros, de maneira que só a ouvimos pelas graças de nossos poderes especiais nesse bar adquiridos, ou só aqui percebidos, mas eis que o médico e a bela seguem a falar e agora Granel está inquieto, se mexe muito na cadeira, faz menção de levantar e permanece sentando, a energia do movimento o elevando e ele se ficando, uma tensão que se instala no médico e o faz construir no rosto um trejeito de choro infantil, mas o choro não acontece e se soma ao irrealizado movimento de fugir, a comparação razoável seria com águas de tempestades entrando em alvoroço no falso remanso de um dique, este prestes a romper mas semelhando a inalterável, Granel balança a cabeça com vigor, leva as mãos ao rosto e as esfrega  como se quisesse esmagar os olhos para nunca mais olhar nada além de seu próprio escuro, mas quando Yasmin levanta ele também o faz e pergunta por que ela está ali e se acha isso justo, por que Francisco continua ali e se também a ele as perguntas acusatórias de Yasmin se aplicam, e Yasmin tem agora um sorriso de nojo e com ele diz, o escutamos tão límpido que talvez o povo do bar todo o ouça, que tanto ela quanto Francisco ficam por ter sido pedido por Giuseppe, e então ela dá as costas a Granel, à encantadora Eneida e a Esplendorosa, abre sorriso de primavera e rola entre as mesas, entre as pessoas e a agitação barulhenta com o semblante tomado em brilhos que podem ser de raiva ou lágrimas, mas de um ou de outro sendo não a impedem de corrigir a postura inadequada de um garçom que serve pelo lado esquerdo do cliente, fazer piada com outro habitué sobre o regime da esposa e, mais a frente, dizer à porta da cozinha, com postura marcial, as duas únicas palavras que a freguesia quer ouvir: “pode soltar”.

Chega a ser impiedoso essa mulher com olhos em água, circulando sem que notem sua tristeza e tendo de tomar os lugares que o hoje fraco maître Francisco não ocupa e ainda as lacunas de relações públicas que por direito a Giuseppe competiam. Não que ela demonstre a tristeza, isso de demonstrar trata-se mais de nossa observação colocando pesos em suas costas, belas costas que o vestido desnuda pela metade ou talvez um-terço.

Mas nem ao radialista Dei as atribulações de Yasmin parecem justas. Vem ele dizendo que pessoa com tal histórico de aflições bem poderia se poupar de fazer o que não quer, e ela não quer fazer o que faz aqui, mas estou é inventando piada porque Yasmin não é mulher de considerar o ruim como ruim e, se bem notam, tira prazer do que pratica, chora só com metade do rosto e seu choro contém paciências que a mim me escapam, de modos que cada um pode olhá-la pelo lado que interessa ao olhar, e não digo novidade se contar que quase todos só a observam pela metade feliz por fazer algo bom, algo que gosta e que é o momento dela bem agora, sem pensar se seu objeto de amor morre no futuro ou se havia morrido até antes de bater o carro, e isso é um excelente motivo de comemoração já que, assim, ela nos informa que viver não depende da vida, dessas externalidades que se ensina ser vida, embora claro devemos prestar atenção se há falta de vinho à mesa mesmo com ela pregando que não será o vinho a nos redimir e tampouco o cabrito, que lá vêm as terrinas e fumegam de um jeito que não resta alternativa senão se deixar levar por elas, cumprir nosso papel e deixar que o do cabrito se cumpra. Verdadeiramente – Onofre Dei senta e engrena com cuidado de gesto estudado o guardanapo à moda de babador –, verdadeiramente o que importa é observar e não se importar.

“Não se importar?”, pergunta o camaleão – a leitora-leitor, a paráfrase de Giuseppe encarnada, como se quis ao início deste relato apenas como experiência líterometafísica ou qualquer outro subterfúgio semelhante –, pois vem a pergunta com irritação e a irritação prossegue nos olhos do ser mutante, presos em Dei, “quer dizer que se põe no lugar de francoatirador que recusa o gatilho? Deixa que o injusto passe à frente sem mover nada além dos olhos? Fosse o que diz levado em conta há apenas uns anos e o senhor estaria, desculpe mas estaria, pendurado a uma fogueira na Espanha ou fervendo em algum tanque de Treblinka!”

“Ah, não tenha dúvida”, Onofre Dei termina de ajustar o guardanapo e estica o braço para preencher a taça do convidado, “e certamente hoje em dia viveria situação ainda pior se tivesse resolvido nascer mais a leste ou mais a oeste, em um desses lugares onde gente como eu continua não valendo grande coisa. Mas, aqui onde estou, me há o conforto de terem feito o serviço sujo por mim. Não vou reclamar disso nem fazer desfeita com o herói que me antecedeu. Se luto, mijo sobre as cabeças daqueles que me emprestam os ombros para que eu olhe mais longe.”

“E o futuro que viva com os problemas que deixou de resolver, não é?”

“Pode ser. Nem sou tão forte assim, nem tão heróico nem tão bravo. Sou só um bêbado. Bêbados dizem coisas que vocês precisam ouvir por não ter ousadia de pensar. Por onde acha que os deuses falam? Pela garganta dos pregadores das igrejas enlameadas ou dos portavozes corporativos é que não. Não, receio que não. Esses são os torpes, e é irônico que a eles se preste mais atenção que a embriagados, mas, por favor, não me soque”, Dei diz empurrando discretamente o maço de cigarros para os lados da mesa, talvez esperançoso de que isso possa ajudar o camaleão a serenar – o que de fato seria interessante, as bochechas do senhor à extremidade se encontram em fogo e seus punhos fechados, pesados sobre a mesa, soam ameaçadores.

“Não o quê?”, ele diz pegando o maço com a mão tensa, os nódulos brancos dos dedos estranhamento aparentes.

“Não me soque!”, Onofre Dei ri, o homem da ponta o escrutina um segundo e também resolve rir e respiramos todos aliviados, que isso andava mesmo por caminho esquisito.

“O que li em algum lugar, e concordo”, Dei ainda não se satisfez, “é que andamos planejando o mais mirabolante ataque a deus, e sim, aqui digo do maior deles, criamos essa patética civilização só para isso e agora, bem agora, se descobre que ninguém tem a mínima ideia de onde deus se encontra. Da minha parte, desconfio que ele está ali”, o radialista aponta a terrina de seus três litros que nos chega a mesa.

O perfume é maravilhoso. Mas espere um pouco antes de terçar garfo e faca – vamos deixar que os ruídos e movimentos do mundo nos voltem a tocar, que já deve ter observado o quanto nos distanciamos deles nos últimos minutos, envoltos que ficamos em redoma de silêncio e sombra enquanto esses dois nossos amigos tentavam brigar. É como brisa fresca que o mundo a nós retorna, as luzes do entorno são reacendidas e o vozerio feliz transtorna nossos tímpanos – é a felicidade da vida, se nos permite imagem batida e nem por isso menos correta. É bonito ver como é simples a alegria. Como qualquer bobagem pode alimentá-la. Alguém que chega atrasado, veja na escadaria, já dispara os mecanismos e roldanas que faz radiantes os rostos de quem espera, e um desses rostos se levanta e abraça o atrasado e segreda qualquer coisa a seu ouvido e, presto!, a radiância também nele se instala.

“A felicidade é uma virose”, diz uma voz de suspiros feminina saindo dos lados onde o garçom chega com a generosa tigela. Os três à mesa nos surpreendemos, mas por certo não é dele a voz – Onofre Dei é o primeiro a se dar conta e levanta da mesa em êxtase.

“É uma honra que não pensei hoje merecer”, ele diz para a voz, que natural se trata da voz de Yasmin, vinda na sombra do rapaz que põe a terrina na mesa.

“Vá se catar, gordo”, ela ri, enlaçando o radialista pela lateral e nos dirigindo os olhos negros que, ao menos em nós, nos causa uma comichão na altura do diafragma e torna penosa a tarefa de respirar. “Espero que gostem. Sei que vieram de longe por isso, Dei me disse uma dúzia de vezes, e peço que desculpem por não fazer sala. A gente”

“Não precisa explicar”, o radialista a corta. “Também estamos torcendo pelo italiano.”

Yasmin olha Dei com desconfiança.

“Que foi?”

“Nada”, ela diz, e sua beleza é como um dia nascendo cansado após semanas de tormenta, “mas você sabe que pode ser inútil, não é?”

“Torço assim mesmo”, Dei fala.

“Sei. É tão absurdo. Antes de ser sedado, ele pediu que eu viesse. Disse que eu devia ficar feliz aqui. Que qualquer outra coisa seria errada, e que ele saberia se não estivéssemos bem. Chantagem de quem acha que vai morrer, vê? E não sei porque caralhos vim.”

“Porque é o certo, menina. Isso de ficar em hospital olhando doente, sinceramente, o fazemos por nós, para nos sentir bondosos. Não tem a ver com o acamado. Giuseppe deve achar o mesmo que eu.”

“Que seja”, a diva diz, expira sonoramente e se solta de Dei, batendo palmas: “a primeira mesa servida e fazem pouco do guisado?”

“É isso”, diz Dei. “Fica com a gente?”

“Claro que não”, a núbia ri, e então temos certeza de que é um sorriso profissional.

“De fato”, o radialista Onofre Dei diz enquanto ela se afasta, “não há cabrito no prato. É empréstimo poético. Yasmin, quando o inventou, queria dizer da complexidade de seus sentimentos para com Giuseppe. O italiano é o cabrito. O cordeiro.”

“Tão só uma blasfêmia?”, pergunta a metamorfose em que a estimada leitora – e por conseguinte o querido leitor – se transformou. “Uma diabrura, um jogo com os cristãos, brincadeira sem graça nesse nível?”

“Não, não. Bem que seria engraçado colocar-se Giuseppe a pasto sobre a mesa, todo mês, como fosse o deus católico, não cristão mas católico, sua carne devorada enquanto ele rodava as mesas a ver as impressões dos fregueses, conferir o acerto do vinho de um ou outro comensal, esse tipo de ocupação nobre que têm os donos de restaurantes em nome da perfeita deglutição dos carboidratos, da educação afinada das glândulas gustativas para perceber certa sutileza do coentro posto a dedo miúdo ou da manjerona fresca jogada aqui e ali. Creio que seria ainda melhor que a realidade.”

“Sei, é, sim, mas não importa”, o leitor diz impaciente, “mas, deus do céu, como não tem cabrito? Não chamam a isso Noite do Cabrito?”, pergunta puxando um trago do vapor cheiroso do prato que o garçom monta à sua frente.

“Posso quase garantir. É dessas brincadeiras de amantes. Não o digam por aí, mas é só brinquedo de alcova. Desses de…”

“Pode garantir ou garante? Tem ou não tem?”, ele e ela voltam a farejar o prato, agora montado e belo como um Kandinsky de traços cheios, cores e grafismos entrecruzados ora, levemente tangentes ora, a mancha larga do cozido dominando o quadro como erupção vulcânica em planície de porcelana, as gotas do macarrãozinho árabe insuladas a um canto feito cardume e uns tons verde-azulados de algo vegetal displicentemente arrumados a enfeixar tudo em certa lógica que, paradoxal, não nos atinge na mente que pensa, mas naquela de bicho que compreende sem entender.

“Mas claro que há”, Dei suspira e limpa uma gota de saliva na comissura da boca. “É homenagem de alcova, pelos deuses! O nome do homem. Cabrito, cordeiro, é ele. Giuseppe é o cabrito: Giuseppe Cordeiro. Seu problema, com todo o respeito, é que não quer ver. Giuseppe é tão italiano quanto a Diva ou eu ou você, quanto qualquer brasileiro, mistura aleatória de sabores, e nem duvide que haverá nele alguma lembrança genética de seu bisavô ou de mais antigo ancestral nascido em terras de romanos, como por certo há de haver qualquer traço do cabrito-bicho nessa maravilha de que vamos nos empanturrar, e o que digo é que o Giuseppe italiano é só invenção dele mesmo, ou talvez nossa, provável que de ambos, já disseram aqueles antigos que o universo é uma bela sala de exibição de cinema, nada além disso, e que como todos somos filhos da mesma bactéria, e portanto todos negros, indianos e judeus, nem difícil será lembrar-se do Torá quando diz que só enxergamos do mundo aquilo que levamos dentro de nós, mas vamos deixar isso para outro momento que o que vejo são nossos esplêndidos pratos prontos. Está liberado, filho”, Onofre Dei desenha uma agradecida mesura com a cabeça ao atônito garçom que tenta acompanhar o palavrório do radialista.

“É comida do amor”, diz nosso convidado. Seus olhos estão fechados, há essa expressão de júbilo na boca que mastiga, fios de suspiros escapando das narinas agora largas e logo mais afiladas, no jogo camaleônico que nos fartamos de mostrar e bisar.

Saberia quem nos acompanha a glória de experimentar esses traços que misturam o suculento ao suave, a delicadeza de uma nota isolada à solidez de um naipe completo de metais, baixo sincopado, bateria e guitarras em tom grave? Nos tenta a ideia de contar a receita do prato, suas horas de descanso prévio em vinha d’alhos amortecidas por carinhos de mão de raros massagistas, as especiarias lançadas ao azeite talvez apenas para entreter os legumes em odores, os dedos prendendo brilhos de faca e de tomates sobre a tábua para lançá-los em cascatas vermelhas ao fogo. Nos tenta, mas já desistimos há muito por temor de que as palavras maculem a verdade do prato, tirando dele sua força, a substituindo pela força feminina de gozo e jogos de esconder que as palavras não se cansam de mostrar que têm.

No entorno, repetindo o que disse Onofre Dei sobre o Torá, o vozeio decresce até fingir que some: é trocado por sussurros e grunhidos, dos que fazem vesícula e outros nossos ornamentos internos, e por um sem fim de estalidos de metal contra prato, talher que raspa em dente, vidro que outro igual encontra e toda essa feliz plenitude de ruídos que nos põe em contato com o que quer que seja o prazer de comer em bandos. Dói entender que, assim, quase se chega ao fim, ao objetivo da noite, mas isso não nos deve tirar da mente que estamos vivos agora, não daqui a cinco ou vinte minutos. Seria atroz pecado olhar o futuro – coisa que, por normal, tem como único condão transparentizar o presente, torná-lo inócuo, inexistente em essência. E a vida só corre como deve correr quando fincamos pés no agora e podemos ver que à direita, um tanto à frente, os pratos estão intocados na mesa de Esplendorosa – apenas dela, sim, pois o médico Granel e a pequena Eneida dali sumiram. Esplendorosa treme visivelmente, soluça, ampara a testa na mão cujo cotovelo já se encontra amparado na mesa. O maître Francisco corre a socorrer a mulher em prantos. Conversa com ela, a abraça, balança a cabeça repetidas vezes. O choro diminui até se tornar regato e secar. Francisco a ajuda a levantar e a segura pelo braço.

Onofre Dei não tira os olhos do prato: acontece sempre, diz, ela tem muitas sensibilidades. Peça a um desses meninos que ofereça guarda a ela em nossa mesa, Dei olha muito sutilmente, quase que só com as pálpebras, ao caro leitor, no masculino sim pois que agora é um homem de traços longos e bonitos que tem acento na ponta da mesa, e nem precisamos insistir ou dizer que a sugestão do radialista tem tom de ordem para que o camaleônico conviva lance a mão ao ar, já lá está ela balançando e um garçom a vê e nos vem em voo raso, escuta o que tem de escutar e sai planando ligeiro, confia a informação a Francisco e este a repassa a Esplendorosa, tudo assim nessa forma de motocontínuo porque temos pressa de voltar as mãos, a atenção e a boca ao cozido maravilhoso que aguarda o retorno de nossa gula, que de fato é tanta que nem prestamos muita atenção ao vício de observar e não nos perguntamos o que terá acontecido para que tanto choro Esplendorosa derramasse e tampouco onde foram Eneida e Granel, e ainda que relação tem a falta dos dois e as lágrimas, e isso entre outras coisas mais.

E então o que sucede é que o garçom volta, aí chega ele, enquanto Francisco e Esplendorosa se movem em outra direção, para mais longe, passam pela portinhola do balcão e entram por dissimulada passagem na parede ao fundo, que estranhamente não tínhamos até o momento notado existir, e o garçom diz que Esplendorosa agradece, que virá sim mas antes quer se recompor, conversar com Francisco e o por a par de umas tantas coisas que a perturbam, o garçom diz tudo isso e sai, some, vai pelas mesas atender e some por ter se transformado em um garçom entre vários garçons, foi-se sua individualidade, ficou como aqueles rapazes que enchem academias a fazer músculos e se tornam um tão igual ao outro que nem o outro nem o um existem, se tornam o mesmo e indissolúvel monte de músculos invisível por excessiva repetição, e agora vamos pensando e falando e comendo ao mesmo tempo, buscando preencher nosso vazio de satisfação com o desaparecimento da comida já que, assim como a nós viventes, o objetivo das coisas de comer é o sumiço, a mais total invisibilidade, a dessubstancialização.

“Seria por isso que se vem a bares beber a não mais querer em grupos cada vez maiores, seria para sumir em cardume de iguais, para dizer basta à insuficiência que a vida ordinária oferece quando comparada à vida inventada nos livros e filmes e imaginação?”, pergunta o camaleão com infantilidade mas como se estivesse a ler nossos pensamentos.

“Isso é bobagem”, o radialista responde passando miolo de pão nos sucos que restaram no prato. “As pessoas se embebedam desde o sempre e se os bares estão mais cheios é porque sobra gente no mundo. Se começam a filosofar os bares, o planeta se acaba antes do estoque de garrafas, é o que basta saber, sinceramente, o digo a sério, não se chega a lugar algum inventando razões para o que não tem razão, para o que é por ser, como a vida é esse lugar em que o sol nasce e as coisas giram e os bichos se comem sem objetivo se não continuar, nada tem objetivo além disso, nem a dor nem as tristezas que nossa amiga banha na pia do lavatório para vir com a cara limpa, a inútil cara limpa do choro que vimos e sabemos e que alguns entre nós talvez tenham sentido por lembrar dos próprios choros, e não duvide que virá ela sorrindo, falsa sorrindo, evitando enxergar em outros olhos o reflexo do que nela dói para esquecer o motivo, e se a vida for boa e suficiente e curta o bastante então o esquecimento será aceitável, sem necessidade de chafurdações nas memórias em busca de explicações que não existem e que se existem são insuficientes a compor a vida, que na verdade é isso que aqui fazemos e não a explicação, a explicação é a torpe distorção de espelho mal intencionado, nada, nada além disso.”

“Bobagem é o que você fala”, diz Esplendorosa, que estranhamente ouvia de algum desvão além das costas de nossa mesa, “isso é uma asneira sem fim, um amontoado de palavras que só olha a quem as dita, uma estupidez que nem poderia sair de outra boca senão a boca de alguém que não conhece o amor, que despreza compaixão, que se imagina melhor que deus para não enxergar o que de fato é. Seu discurso é patético.”

“E no entanto eu também a amo”, o radialista nos surpreende com a agilidade de levantar instantaneamente e, em uma longa mesura de filme, puxar a cadeira para Esplendorosa.

Ela ri e o beija nos lábios. Seus olhos ainda brilham úmidos mas há o sorriso forçado nos músculos que sustentam seu rosto, como bem disse o radialista. Aceita a cadeira e senta-se com vagar, aguardando que Dei a empurre por sob sua bunda. Os dois se olham nos olhos como se contivessem segredos: como amantes ou como recém conhecidos em aberto flerte.

“Por não me conhecer e por estar junto a quem estão”, Esplendorosa sorri ainda flertando com Dei, “talvez imaginem que sabem de mim mais do que eu mesma saiba. Eu me acostumo. Não se preocupem.”

“É, e eu que sou acusado de dizer bobagens”, Dei diz. “Essa mulher é a mais sublime tolice ambulante que pude conhecer. Se houvesse deus e anjos, ela os seria todos e sobraria para nos contentar. Mas é uma mulher que sofre, não é?”, o radialista pergunta a ela, e tudo que fala não se nos dirige, mas é tão só a ela que se destina. É tão claro que nos põe como se estivéssemos a olhar a tela grande do cinema, sem qualquer chance de reação além de nos mexer desconfortáveis na cadeira, olhar a um lado e a outro ou coçar uma coceira que nem existe de fato.

“Não me foda”, ela responde. “Estão bebendo vinho? Aceito”, ela pega o copo de Dei e toma um gole avantajado.

“E o que foi feito do marido?”, o radialista quer saber.

“Marido. Ah. Sabe que amo aquele cara? Marido. Bem que podia, não?”

“Que foi feito dele?”, Dei insiste.

“Ahhhh”, ela diz, suspirando e nos olhando um a um na mesa, com vagar. “Ele foi lá fazer a cagada definitiva. Mostrar o pai morrendo a Eneida. Para que ela não tenha de perder um só pai. Ele acha que vai morrer logo mas não se contenta com isso. Tem de piorar tudo. É o jeito que ele tem de amar. Cansei de evitar por ela. Acho que é isso. Mas é estranho porque se todos morrem logo ali na esquina, como ele pensa, eu é que fico para cuidar da tristeza dela. Não é engraçado?”

Dei olha inquieto para os lados. “Não tem nenhum garçom?” Levanta e chacoalha as mãos. “Precisamos de um copo, um copo e mais vinho.” E levanta o corpão que agora oscila a olhos vistos. “Ora, alguém viu.” Dei sinaliza com as mãos o formato, ou o que se supõe ser o formato, de um copo.

Funcionou. Quem traz o copo é Francisco. O maître o deixa à mesa sem cuidado e mira Dei:

“Venha um minuto aqui”, o chama.

Dei levanta, mãos apoiadas na mesa, mas está bêbedo em excesso. Senta outra vez:

“Diga. Não há mais muito segredo.”

Francisco dá as costas e se vai. Quase some nas tramas invisíveis do bar lotado, gente em pé, sentada, andando, entrando e saindo do foco de luz em que nos mantemos no centro do palco da visão que há da casa. Quando o último fragmento de sua camisa branca está a sair do foco, se volta. Retorna. Pega uma cadeira na mesa vizinha. Ela é colocada ao lado de Onofre Dei, um tanto atrás porque já não cabe alguém no horizonte de nossa mesa. Dei o olha e Francisco olha a Dei. O fazem em estranho silêncio. Não é só silêncio de voz. É de alma. É de algo que pede compreensão. Ou socorro.

“Pedi um favor a você há seis anos”, o maître Franciso fala.

“Pediu: pediu que eu não falasse nada que você não pudesse escutar.”

“Exato. Mas agora mudou. Quero saber.”

“Não posso dizer. Não agora. Não nunca. Isso mudou.”

“Agradeço”, Francisco diz, e escute bem o tom com que o diz, “e peço que reconsidere.”

“Fale com ela. Ela pode dizer o que você não queria ouvir e agora quer.”

Francisco enrubesce. Nota como tensiona as mandíbulas e seus lábios ficam finos e claros? Não fosse a barulheira do bar poderíamos ouvir, por provável, os dentes rangendo. Não nos cabe a ninguém na mesa falar o que seja. Nem a Esplendorosa, que tem os grandes olhos desenhados a riscos de cajal tão abertos que parecem prestes a se descolar das cavidades onde se guardam.

“A negra”, o maître começa mas pára: um tempo inteiro em que universos podem brilhar e sumir, a música cessa e o vento espalha a vida como palhas de fantasia. “Yasmin. Ela não pode me contar o que seja no momento. Foi também ao hospital. Estão todos lá. Quase que só falta você, minha amiga”, Francisco passa a mão pelas costas de Esplendorosa e a puxa delicadamente. “Quase porque Giuseppe também lá não se encontra. Desapareceu.”

“Graças a deus”, Esplendorosa diz, rosto aliviado.

“QUE?”, o radialista Dei exclama.

“Sumiu do quarto, da UTI, do hospital”, diz Francisco. “Sumiu do coma.”

“QUE?”, Dei repete, outra vez em pé, mas menos balouçante que há pouco.

“Qual a surpresa?”, Esplendorosa pergunta.

“Ele disse que o italiano desapareceu do hospital, pelo amor de deus!”, diz Dei. “Como assim?”

“Pelo amor de deus falo eu”, o maître Francisco levanta da cadeira com as mãos sobre a mesa. “Acha que sou idiota? Vi o semvergonha correndo pela avenida, pelado, tão bem quanto sei que todos aqui viram.”

“Não, não aquilo”, Dei começa, mas Esplendorosa o interrompe: “Não vi porra nenhuma pelada na avenida, porra, do que é que está falando?”

“É o seguinte”, Francisco começa a falar, nos olhando a todos na mesa, mas pára. Suspira quem sabe tentando esfriar os vermelhos que o tomaram o rosto. Parece prestes a fazer uma bobagem qualquer, como ter um ataque cardíaco ou algo semelhante.

“O que é isso?”, Esplendorosa repete o tom histérico já experimentado mas agora uma oitava acima, e é triste ouvi-la perguntar porque parecia óbvio que ela o sabia, que ela também havia acompanhado Giuseppe à nossa mesa e depois rolando pelo bar e berrando pelos lados do balcão e sumindo no meio do povaréu e tudo o mais, e o triste vem não exatamente de Esplendorosa não tê-lo visto mas dela não fazer parte de nosso talvez esquizofrênico talvez iluminado clube.

“Ele passeou por aqui”, diz o camaleão que é a leitora e o leitor, “sentou bem aí onde você está” (pois!, olhe o arrepio pela espinha de Esplendorosa) “e saiu nu na avenida. Todo mundo viu.”

“Viu o caralho!”, Esplendorosa diz. “Porra, meu, vocês estão bêbados. Até um velho como você, que é que pensa que é?”, agora ela se dirige apenas a Onofre Dei, o sábio radialista, que a observa com a testa franzida, um ar de desgosto como do pai desatento que flagra o filho aprontando algo que não deveria, qualquer coisa como assaltar na esquina ou vender umas drogas ou se aboletar a um canto escuro oferecendo o corpo em troca de trocados, e por fim o que há é que nem o arrasado de seu semblante resiste ao choro dessa feita seco, sem lágrima que se veja, despencando impiedosamente do pobre rosto de Esplendorosa, ele mesmo tão enrugado dos rios que passaram a noite a correr-lhe face abaixo que só faz lembrar os calcinados terrenos do sertão a pleno verão, mas cá está  uma alma que faz algo além de só observar, e é do maître Francisco que falamos pois que ele, sem delicadeza mas com a elegância do gesto certo, que deve ser feito custe o que custar, segura Esplendorosa pelos ombros e a chacoalha uma duas três quatro vezes talvez mais que nos penitencia contar, e segreda coisas ao ouvido dela e quase que a beija o recôncavo da orelha e por um triz não a mordisca o pescoço de pele clara encharcada a perfume e cremes, e segue a fazê-lo, os chacoalhões e as palavras miúdas a ponto de não as alcançarmos, em uma dança a milímetros de erótica e a centímetros de violenta que aos poucos a tira do transe da tristeza, a apazigua e nos permite suspirar sem entender o que tanto a dói mas a entendendo por cada qual ter suas dores incompreensíveis que vez por outra só mesmo pedem um chacoalho que tenha o bastante de energia e o tanto de sedução capazes de remoldar o seja lá o que for que se carrega nos miolos ou no coração, a depender da inclinação de cada um. E é um alívio vê-la em paz, uma de suas mãos a passear leve sobre o cenho outra a segurar a mão de Francisco que ainda em seu ombro descansa.

“Calma”, o maître sussurra. “Mesmo se ele contar, ela não quer a menina. Deixe que as coisas aconteçam. Calma.”

Onofre Dei esqueceu a sede de vinho e seu copo, que passou a noite a se agitar em um sobe e desce frenético, descansa na mesa ao lado do antebraço largo do radialista, os pelos ora brancos ora negros ora vermelhos alevantados como de animal de caça frente ao objeto de cobiça. Seus olhos tomaram um tanto do triste que escorria de Esplendorosa. A mão grande sobre a mesa parece cansada. Ela já tentou se erguer algumas vezes mas volta ao descanso. Não se sabe o que faria se a içasse. Talvez esbofeteasse a mulher que o interpelou tão grosseiramente, talvez elevasse a taça de vinho ou mesmo sacasse do vácuo um teco de parmesão e se pusesse a nos enfeitiçar a todos girando varinha de condão e contando uma história longa e incandescente sobre vertigens que acometem viajantes antes do último passo ao cadafalso da juventude ou da velhice ou de um amor. Ou talvez só pegasse a mão dela e a estreitasse como fazem os amigos. Dei porém nada faz. Só a espreita prenhe de movimentos.

“Desculpe”, Esplendorosa diz, quebrando o silêncio terno que nos tomara nosso foco de luz e de ilusão, e pega ela os dedos de Dei e os aperta, inverte o que devia ter sido feito e põe cada coisa no lugar onde deveria sempre ter estado. Dei sacode a cabeça, sutil movimento, e sorri.

“Entre um velho e outro”, o radialista pondera, “escute o que aquele ali diz. Ele está certo. Yasmin não fará nada. Nem escutará. Ela não quer ouvir. Não quer ver. Nunca quis. Ela e o italiano só querem sumir.”

“Ele já conseguiu”, Francisco desenha um sorriso ao dizê-lo mas o sorriso é quase um tremor em seus lábios.

“Que é que vocês viram?”, Esplendorosa tem em cada mão a mão de um dos amigos.

Francisco balança a cabeça.

“Hora de fechar a conta”, Onofre Dei, o radialista, diz.

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