Orquídea

 

 

O assustador efêmero de tuas flores
após tão larga gestação
é o que afinal te salva.

 

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Sonho

a mariposa
sonha que é
libélula

mas ronda
do abajur
a luz amarela.

Categories: Escritos

Cena 1

Cenário urbano: A chuva explode em poças destroçadas por pneus que jamais a entenderão.

Classe média

Todo dezembro eles pintam a casa
da mesma cor que no ano passado
mas dizem orgulhosos que dessa vez
se encontrou o tom perfeito.

A cada três anos castram
cuidadosamente
o quintal em busca da réstia de sol
que ficara escondida pelo mato crescido
Depois mostram – orgulhosos – a várzea vietcongue
dizimada por napalm
e convidam o incauto a um banho
de piscina de plástico
e duas supinas cervejas em lata

De quatro em quatro anos ordenam
- aos gritinhos de prazer da senhora da casa -
a criação de um belo jardim florido
para zerar o tédio do quintal desolado

No quinto, trocam o piso da garagem
pelo mais recente lançamento da indústria cerâmica
e se miram em êxtase no espelho indizível
que serve a pés, pneus e ao tombo
que vovó levará
para cumprir o destino das ancas
desencaixadas

Ao sétimo ano será cambiada a cerâmica
por antiderrapante azulejo
Mas antes,
no sexto,
se verá o quintal encapado
em harmonia com o lindo
chão espelhado

Depois há que se plantar a árvore
dos 15 anos do primogênito
(a mesma em que papai se vai a
pindurar o corpo no futuro longínquo)
e refazer a pintura
e trocar as janelas
e soldar as grades
e abrir a porta da sala
a golpes de marreta
para que o caixão bem velado
possa com mamãe ganhar a rua
e deixar quem sabe que todos
- e até mesmo ela -
descansem em paz.

Categories: Escritos

1968

 

Tio Luciano tinha uma bolsa dessas que se esgarçam as fibras nas costuras, coisa talvez do cansaço de suas viagens, do uso como travesseiro que ele gostava de dar a ela, da idade dele e dela e de mais uns tantos motivos que a nós crianças fugia. Mamãe e papai não gostavam que os pequenos falássemos de tio Luciano a estranhos. “Mamãe e papai, não” diz mamãe, sempre observando por sobre nossos ombros, “É papai e mamãe, porque papai vem antes.” Sim, papai e mamãe nos olhavam enviesado quando alguma visita a nossa casa se prometia, já sabíamos bem sabido que o olhar de canto de olho era Ordem de Silêncio a respeito de tio Luciano e fim das brincadeiras sobre o misterioso conteúdo de sua bolsa, a que chamávamos Marmafaz – tanto a brincadeira quanto a bolsa – por conta do Hebreu Marmafaz, o homem que perdeu o rosto em aposta com um antigo Rei, história que tio Luciano nos contava nas noites em que não estava ocupado lendo livros sem capa ou conversando em voz baixa com papai e mamãe na cozinha, todas situações que exigiam trancar a casa e prometermos não abrir a porta da rua nem responder a quaisquer pessoas que batessem palmas ou apertassem a campainha, ainda que fosse algum amigo, nos mantendo naquele silêncio que tínhamos aprendido quando vovô e vovó morreram: um silêncio tão chato que queríamos morrer também, então brincávamos de parar a respiração, ela era substituída por um tipo de palpitação que, aí sim, nos fazia crer que os mortos éramos nós, não vovô e vovó no meio da sala embutidos nos caixões, que a nós lembravam a mesa do almoço de domingo, que substituíam tal e qual, embora um tanto mais altos e sem a guarda das doze cadeiras que a partir de então passaram a ser dez.

 

A voz de tio Luciano era uma voz grave de piano desafinado, como o que ficava na sala até vovó mandar levá-lo à garagem e cobri-lo com cobertores, isso logo após o irmão de tio Luciano desaparecer tão misteriosamente quanto as viagens de tio Luciano, num ir e vir de mar a que não percebíamos a lógica, mas a nós muita coisa, e talvez a maior parte delas, surgia e sumia sem explicação, e ai de um de nós se aos adultos perguntasse, era um tal de tapa voar que nos perdíamos da razão da pergunta, de forma que logo aprendemos ser melhor inferir que aferir, melhor supor que saber, sonhar que viver. Tio Luciano, de alguma forma, apesar de pertencer ao mundo dos grandes, também pensava o mesmo, visto que por comum preferia o quarto sombreado que mamãe sempre deixava pronto para seu uso, ainda que por meses ele não nos visitasse, do que todo o restante da casa, e se algo marcava suas visitas era o fechado das portas e o cerrado das janelas, com persianas baixadas e cortinas esticadas mesmo se na época das férias, com o verão lá fora e a sombria escuridão abafada aqui dentro, como se estivéssemos no porão do barco de Noé e fôssemos os escolhidos, o par daquela espécie, a sobreviver, já que nem aos amigos mais próximos podíamos admitir entrar pela porta da jangada em que a vida se transformava: era assim feito se ao acordar não acordássemos e o sonho continuasse nos contornando e nos conformando, de maneira que quando voltávamos das férias só não éramos os mais pálidos entre todos pela graça do sol que nos tostava a pele vindo das histórias do Hebreu Marmafaz, ele sempre em busca de seu rosto, furtado pelo Rei, em terras de dias escaldantes e areias traiçoeiras onde o sol mal se punha e logo surgia outra vez, a noite só o instante quando se acorda entre um sonho e outro: e a dizer que não se prefere assim a vida não nos arriscaríamos, ao menos nos tempos durante os quais tio Luciano permanecia entre nós, já que se diferente fosse o resultado seria aquela inexplicável sucessão de sopapos seguidos da explicação de que nos bater doía mais a papai e a mamãe, dependendo de quem distribuísse as bolachas e cintadas, do que a nós que as levávamos.

 

A meus irmãos e a mim, portanto, restava esperar que tio Luciano se saísse em viagem, deixando a casa outra vez aberta a nós vivos, porque de certa maneira desconfiávamos que há muito ele se encontrava em estado de espírito, daí o cuidado todo de papai e mamãe em escondê-lo, dado que mortos são levados e escondidos abaixo da terra como bem aprendemos quando vovó e vovô morreram e, em nossa primeira visita ao cemitério, os acompanhando ao lado de suas caixas de madeira, vimos que as calçadas ao largo do buraco em que os meteriam a ambos estavam tomadas por homens da polícia, alguns com quepes e medalhas e botões de ouro nos casacos, outros com óculos de vidros tão pretos que a princípio julgamos serem cegos, e decerto que eles cercavam a nós que levávamos nossos mortos para ter certeza de que do chão onde seriam plantados não escapassem, e se tal cuidado se exigia no trato com os mortos não se poderia concluir outra coisa senão o perigo de quem eles se recusassem a tanta terra ter sobre a cara. Também bem sabíamos que papai já desconfiava ou mesmo já tinha antes visto que aos defuntos se reservavam homens bem armados como seguro de que não resolveriam, os mortos, no meio do enterro, se levantar dizendo “pronto, cansamos disso, não queremos o enfado de só a minhoca olhar pelo vitrozinho da caixa, vamos voltar à casa de livros sem capa e silêncios, acabou-se o que era doce e ponto final”, e por conta do risco de os guardas resolverem sacar suas pistolas no caso da desobediência de vovô e vovó é que papai durante a noite colocou sob cada um dos dois as espingardas e balas e revólveres que estavam enterrados no quintal de casa, de maneira que vovô e vovó ficariam desajeitados e talvez com dores nas costas deitados sobre as armas caso mamãe não tivesse voltado da rua com as flores e feito um tapete com elas, cobrindo os aços com cravos e malmequeres e margaridas e poucas rosas, que rosas andavam caras, e a cada flor posta mamãe rezava baixinho a Reza dos Tempos, “existe um tempo para morrer outro para matar, esse tempo há de chegar”, mas mais que isso não sabemos da Reza dos Tempos porque papai nos viu olhando o movimento e desceu a mão na orelha do nosso irmão mais novo, depois nos enxotou a todos com o cinto dobrado voando no ar e nos acertando lambadas que, felizmente, amanhã não teríamos de explicar na escola, já que amanhã seria o dia do enterro de vovô, vovó e das armas todas desencavadas do fundo do quintal.

 

Tudo isso foi muito antes de tio Luciano voltar de uma de suas viagens com uma mulher tão suja que passava os dias tomando banho e dizendo que nunca mais ficaria limpa, a quem chamávamos de A Mulher dos Choros. Mamãe não gostou daquela visita, e enquanto nos incumbia de aferroar as portas e conferir se cada janela se encontrava bem travada ela até esqueceu da Lei do Silêncio de Quando Tio Luciano Está em Casa e começou uma gritaria com papai e com tio Luciano, e todos ficamos com pena dos dois que não conseguiam responder se estavam loucos ou não porque mamãe não parava de perguntar se eles tinham perdido a cabeça e se sabiam a merda que tinham feito, e concluímos que papai e tio Luciano por algum motivo haviam os dois feito coco sobre A Mulher dos Choros, a explicação era esquisita mas foi de nossa irmã e ela normalmente acertava, e quando nos dias seguintes ouvimos que A Mulher dos Choros não conseguia ficar limpa por mais chuveirada tomasse, então ficou claro que outra vez nossa irmã estava certa, e só faltava entender porque alguém faria de uma moça, uma privada. “Sexo” disse nossa irmã, “sexo explica tudo”, e embora isso fosse possível ela não soube explicar o que seria sexo e, portanto, colocamos o esclarecimento na categoria das possibilidades, uma categoria que só fazia crescer desde que as conversas na cozinha deixaram de ser em voz baixa e podíamos acompanhá-las do quarto, e assim aprendemos que além de óleo, laranja ou arroz também se podia comprar gente, e nisso tio Luciano foi claro quando disse que protegia A Mulher dos Choros porque os amigos dela tinham se vendido, e não entendemos a troco do que uma pessoa compraria outra pessoa até ver um dos amigos da Mulher dos Choros na televisão, papai e mamãe ficaram nervosos, “desgraçado traidor vendido”, o que nos mostrou que a tevê andava comprando pessoas para aparecer nos programas, aliás nos mais chatos, mas A Mulher dos Choros disse a mamãe que ela e papai não sabiam nada, que não tinha como escapar, tio Luciano disse que a bolsa dele tinha a resposta e A Mulher dos Choros gritou “não!” e se entrou no chuveiro para um banho.

 

Às vezes, durante a noite, éramos acordados pelos gritos da Mulher dos Choros, que como nosso irmão mais novo devia sofrer de pesadelos, mas ao contrário dele, que não tinha ninguém além de nós e de nossos argumentos que não funcionavam para convencê-lo de que era só sonho, A Mulher dos Choros contava com tio Luciano, mal ela começava a chorar já ele se punha a consolá-la e ouvíamos a voz grossa de piano desafinado como uma canção, e ele cantava “ah meu amor ah meu amor ah meu amor”, e então por mais que ela chorasse de medo do pesadelo logo tio Luciano a convencia de que estava tudo bem e ela até ria alto e tio Luciano também, que ele devia ter dito algo engraçado ao ouvido dela, e de manhã ela acordava cedo e contava piadas e ria muito com as piadas, mas mamãe não gostava das piadas e nunca ria.

 

“Se você não faz, não é minha culpa” uma vez tio Luciano disse a mamãe, e mamãe deixou apressada a cozinha e se fechou no quarto, só saiu à noite, quando papai voltou, os olhos de mamãe miúdos de choro que ela deve ter dormido e sonhado pesadelo, mas papai não a consolou como tio Luciano com A Mulher dos Choros e nem os dois riram alto decerto porque mamãe devia ter chorado enquanto papai estava fora e nem mais lembrava do pesadelo, mas triste ela estava tanto que disse “não agüento mais” e papai respondeu “vou dar um jeito” e mamãe falou que era muito desrespeito além do que desperdício e ainda pior as roupas de rapariga, nossa irmã gostou demais dessa palavra e logo uma de suas bonecas, aquela do estrangeiro que tio Luciano trouxe de uma viagem e que era uma boneca que tinha outras bonecas dentro dela, ganhou o nome Rapariga, mamãe é que não podia saber daquele nome senão era um peteleco na orelha, uma palmada de estalo na bunda, um croque na cabeça, o diabo acontecia se ela calhasse de ouvir nossa irmã com a Rapariga nas mãos a embalando com a música de acalmar pesadelo, “ah meu amor ah meu amor que me morro, ah meu amor que me some o ar que me some tudo que me acaba o mundo”, decerto um sopapo vinha ligeiro na cara se mamãe ouvisse porque aquela música tinha um gosto estranho, punha a nós todos esquisitos aquela música, dava um medo de correr, mas de correr para dentro do medo.

 

“Mas que roupa de rapariga é essa?” papai perguntou a mamãe, e ficamos com medo de que ele fosse lascar uma cintada nela, a voz dele era voz de sova.

 

“De rapariga rameira ela se veste, não vê?”e a voz dela também era de sova, então ficamos com medo de que ela desse um tabefe em papai, mas mamãe começou a chorar, nosso irmão mais novo cantou baixinho “ah meu amor meu amor”, papai nem ouviu graças a Deus, nem quem sabe sabia essa brincadeira, ele saiu do quarto dele e dela batendo a porta, entrou no nosso e estávamos todos dormindo quando ele entrou.

 

Não, ainda não foi nesse dia que A Mulher dos Choros e tio Luciano foram embora. Nem nesse dia nem tão perto nem tão longe desse dia, que esses dias todos parecem sempre os mesmos, como se fosse domingo com chuva se esquecendo de acabar, assim do mesmo jeito que tio Luciano e A Mulher dos Choros se esqueciam que ali não era a casa deles, mamãe dizia isso toda noite a papai e papai com a voz de sono, “vou dar um jeito”, e pode ter sido uma vez só que aconteceu essa conversa mas ela parece um eco que se repete até que perdemos o ano na escola, foi por faltas papai disse, ano que vem se resolve mamãe disse, e então havia uma explicação para aquele domingo que não se acabava dentro de casa, nossa irmã acha que o mundo enlouqueceu e agora há dois relógios, um que funciona o tempo dentro de casa outro que gira mais rápido lá fora, daí papai e mamãe terem se confundido e não nos deixado sair para a escola, pensavam que o domingo continuava olhando o relógio imóvel de casa, “e se o domingo não acabar nunca?”nossa irmã perguntou, já mamãe a olhou assim torto, fez cara de que ia voar peteleco e, não, saiu correndo se fechou no quarto, papai foi atrás dela e tio Luciano acendeu um cigarro, foi A Mulher dos Choros quem respondeu à nossa irmã, “o domingo um dia cansa e se manda”, tio Luciano a olhou meio assim e bateu a mão na bolsa que ia onde ele ia, “se ele não se manda, me mando eu”.

 

Devia ser perto do natal, nós vimos um reclame na televisão de um porquinho com gorro vermelho e depois ele virou linguiça com gorro vermelho, nosso irmão mais novo acha que esse foi o ano que não teve natal, pode ser mesmo, teve o ano que o natal se esqueceu de aparecer, natal sempre demorava muito mas daquela vez a espera foi tão longa que, quando perguntamos a papai se a árvore com as bolas e as luzes podia ser montada, papai disse rindo que já era época de começar as aulas, o natal tinha passado sem passar, e mamãe disse que éramos grandinhos para entender, “entender o que?” perguntamos, e mamãe disse que faria um bolo e que a escola seria outra e que teríamos nomes diferentes só pra variar, “nomes diferentes?”, escola diferente vida diferente nome diferente papai disse, só pra variar mamãe falou, “vida diferente quer dizer que as coisas que acontecem não vão acontecer mais?” nosso irmão menor perguntou, e sabíamos do que ele estava falando, era de peteleco tapa tabefe, de porrada tropicão cintada, de chinelo que canta e croque na cuca, mamãe riu disse sim, fez o bolo raspamos o tacho tio Luciano cantou uma música chata com o violão da Mulher dos Choros e, de noite, papai e mamãe brincaram de pular na cama no quarto fechado e tio Luciano cantou “ah meu amor” para A Mulher dos Choros e dessa vez ela nem foi ao banheiro tomar o banho que não se acaba mais.

 

Então mudamos de casa, foi durante a noite a mudança e só levamos livros sem capa e umas roupas e uns brinquedos e umas malas e uns silêncios, que não se podia abrir o bico durante a mudança, e quando de manhã a casa nova era pequena mas legal, tinhas outras casas quase grudadas e ganhamos um cachorro chamado Zorro e nomes novos também, até papai e mamãe e A Mulher dos Choros e tio Luciano eram outras pessoas, só pra variar mamãe disse, o banheiro era do lado de fora e chamava casinha, tinha um buraco escuro no meio do chão e as coisas caíam lá embaixo, puooof, um dia Zorro caiu também e os vizinhos disseram que não tinha o que fazer mas tio Luciano foi com uma corda e saiu do buraco da casinha fedendo com Zorro vivinho nos braços e fomos para o mar tomar banho e foi o único dia que tio Luciano e A Mulher dos Choros saíram para passear com a gente, quando papai chegou os três brigaram mas depois se abraçaram e papai chorou, Zorro também chorou mas só um pouco, mamãe riu muito, foi quando ela começou a rir, “depois ela nunca mais parou” lembra nosso irmão mais novo, “isso não importa”diz nossa irmã, mas bem sabemos que ela mamãe nunca mais parou de rir, ela ri até dando peteleco, que os petelecos tinham parado mas voltaram, e parece um richoro, essa palavra nossa irmã inventou, já vimos no dicionário e não tem richoro, então essa palavra é dela, “quando se inventa uma coisa precisa por uma bandeira na coisa” ensinou o Hebreu Marmafaz em uma das histórias mais bacanas contadas por tio Luciano, de quando Marmafaz inventa A Aposta Perfeita e vai com ela reaver o rosto que perdeu para o Rei, ele e o Rei eram os dois apostadores sem fim, mas quando o pobre Hebreu descarado chega e começa a explicar a aposta o Rei logo percebe a artimanha, percebe que vai perder e – záz! – põe seu nome na invenção de Marmafaz e acaba que, daí em diante, o que era esperança de um vira golpe de outro.

 

Quando começou a risada? Que risada?

 

Não, nunca foi risada, por isso nossa irmã inventou richoro, a palavra tem o ri pequeno e o choro maior, mamãe começa a rir e termina chorando, ela repete tanto o começo e o fim que parece uma gargalhada mas não é engraçado, e se alguém escuta o richoro durante um tempo pode escolher o que ouvir, algumas pessoas pensam que ela está chorando outras que está rindo, nosso irmão menor acha que vai pelo que acontece nas ideias da pessoa essa escolha, e nós escolhemos que é rir mas nunca risada, já papai deve achar ainda outra coisa diferente, quando ela começa o richoro papai liga a música bem alto e todos dançamos senão ele fica uma fera e o richoro então é uma cuíca de samba ou uma coruja dessas que aparecem à noite no quintal da nossa casa nova, ao lado do rio fino que corre ali mas não podemos brincar nele que tem doença, os moleques das casas grudadas na nossa brincam e não andam doentes, também tem que eles nasceram perto do rio e nós não, mas quando a música toca alto em casa e nós dançamos na sala, que é a sala e a casa, porque a casa é uma sala e é mais divertido do que ter quarto, então quando a música é alta brincar no quintal nem pensar, é hora de dança e alegria e de mamãe coruja richorando.

 

Teve o dia que mamãe não conseguiu parar de verdade. Nosso irmão menor acha que ela não queria parar. Foi na tarde em que aparecerem uns homens barbudos e tio Luciano e A Mulher dos Choros saíram para viajar com eles. Mamãe deu tchau da porta e fechou a porta. Aí mamãe começou a rir e quando papai chegou do trabalho nos levou ao hospital e deixou mamãe em casa richorando bem como ela estava, sem roupa nem nada, que depois de nos pegar ela tinha ficado com muito calor, e nossa irmã tinha dormido no meio da sala e da sova e como ela não acordava papai teve de levá-la no colo e de manhã nós voltamos para casa, menos nossa irmã que só voltou dois dias depois, e quando entramos em casa mamãe tinha assado um bolo e estava limpando os livros sem capa, papai fez chocolate quente e tomamos com bolo depois ele saiu para passear com mamãe e trancou a porta de casa com uma corrente para ninguém entrar lá e nem fomos para a escola e um dente do nosso irmão mais novo caiu, papai só não deve ter percebido que também não podíamos sair de casa e ele demorou muito para voltar do passeio com mamãe, tanto que fizemos as coisas ali no chão da sala, no cantinho, cobrimos as coisas com folhas do caderno de nossa irmã, “e se papai ficar bravo e mamãe rir?” nosso irmão menor perguntou, melhor nem pensar, a casinha fica fora e, além disso, Zorro também tinha feito as coisas dele na sala, o dia demorou tanto que ficamos com medo do tempo lento ter voltado, como quando o domingo não ia embora, e nem havia nossa irmã para explicar, brincamos que nosso irmão mais novo era o Zorro, os dois tinham os olhos pintados de preto, papai disse que logo sara mas, de verdade, foi o máximo ele ter virado Zorro, podia correr pela casa e morder tudo, ele mordeu o sapato azul de mamãe e um livro sem capa e uma pulseira e um anjo da guarda de plástico que nos protegia, o anjo foi o mais gostoso ele disse, ficamos com fome mas só um pouco, o anjo da guarda virou angu quando Zorro e nosso irmão mais novo lutaram por ele, cada um rosnando com um lado do anjo nos dentes, Zorro cachorro de verdade ganhou, “morre cadela! morre cadela!” nós gritamos os hinos de guerra e Satanás morreu virou angu e graças a Deus agora ninguém mais com asas protege a gente.

 

Dessa vez papai trouxe pizza, limpou as coisas que fizemos no cantinho e chutou Zorro para fora, “mamãe não vem?” perguntamos papai não respondeu, ficou olhando nosso irmão menor comendo pizza, “onde foi tio Luciano?”, “viajar com os barbudos” nosso irmão menor disse, “mamãe ficou doente de dor de cabeça” papai contou, “de richoro?” outra vez papai não respondeu, acabamos a pizza papai abriu a garrafa de perfume que era só dele e de tio Luciano e tomou o perfume e deitou no sofá e disse mamãe vai demorar e dormiu e dormimos nós.

 

Depois veio Dona Fábia, que cuidou de nós enquanto mamãe sarava da dor de cabeça, e nossa irmã voltou do hospital, tinha uma arma no braço feita de gesso, agora além de nome novo tínhamos história nova, papai ensinou a história e era divertida, a gente tinha de dizer que nossa irmã subiu na árvore de manga e voou até a manga maior mas então o voo acabou, nossa irmã foi ao chão, quebrou o braço se espatifou, nossa irmã agora era a Supermoça e sempre a víamos com sua capa azul e vermelha feita de umas roupas que A Mulher dos Choros deixou em casa quando ela e tio Luciano foram viajar com os barbudos, nosso irmão mais novo e Zorro tinham rasgado os panos brincando de cão zangado e o que restou dos panos era a capa, até à escola ela ia de capa, a qualquer momento podia surgir um pedido de socorro, e mesmo depois de tirar o gesso do braço ela continuou sendo Supermoça e mesmo depois que os olhos de nosso irmão menor perderam as rodas pretas ele seguiu sendo Zorro e andando de quatro e coçando pulgas que nunca conseguíamos ver e lutando com o outro Zorro, o cachorro de verdade, por um pedaço de pão ou resto de frango assado do almoço de domingo.

 

Dona Fábia durou até o dia em que disse não aguento mais esse menino no chão cheirando pé de mesa e mijando na terra, então ela tentou pegar nosso irmão menor pelos braços, o levantou assim um pouco ele rosnou, Dona Fábia riu disse deixe disso menino, foi com o rosto pertinho do dele, já se via que ela tinha suas dificuldades para levantá-lo, e ele rosnando mostrando os dentes a água descia da boca, o ataque veio porém por trás, Supermoça voou do alto de um edifício que era a mesa e acertou em cheio a bunda de Dona Fábia, então Supermoça gritou “largue nosso irmão menor sua megera desalmada”, Dona Fábia gemia muito e nosso irmão mais novo Zorro tascou uma mordida na bochecha gorda de Dona Fábia, os vizinhos acudiram e ficamos presos em casa, que os vizinhos e Dona Fábia trancaram a porta por fora com a corrente, até que papai chegou do trabalho e nos puxou as orelhas e esquentou nossas bundas e arrancou um tufo de cabelo de nossa irmã, dormimos sem comer essa noite, o que também não era novidade, e dormimos sem os anjos que o anjo já tinha morrido faz tempo.

 

No dia seguinte comemos sopa de fubá com couve na escola e ficamos fortes.

 

No outro dia teve vacinação, o cheiro de álcool e o barulho de vidro das seringas nos seguiam na fila que não acabava e nosso irmão mais novo dentou o braço do enfermeiro, vieram vários deles e o seguraram e espetaram a agulha, depois o levaram para o pátio, o largaram no fundo onde os meninos maiores fazem campeonato de cuspe e coisas com as partes e fumam, buscamos nosso irmão menor depois da sineta e ele gania baixinho tão baixinho que dava um aperto na barriga da gente.

 

Em casa, a porta estava aberta. Nossa irmã investigou antes de entrar, “tem um homem lá”, fomos de manso mas era tio Luciano, bem diferente ele, careca e uns óculos maiores que a cara, roupa de festa com gravata, era o novo tio Luciano que ia só esperar papai e mamãe voltar depois teria uma viagem bem longa para o País das Montanhas, perto de onde o Hebreu Marmafaz perdeu o rosto o apostando com o Rei, “vai ver Marmafaz?” nosso irmão menor perguntou, coçando uma pulga daquelas que não se vê, “não só vou como a boa notícia é que ele vai ter sua cara de volta” tio Luciano informou, “mas a história é de mil anos atrás” nossa irmã olhou desconfiada, “o negócio é que enquanto não resolvem o jogo do rosto de Marmafaz, nem ele nem o Rei envelhecem” disse tio Luciano, e depois, piscando os olhos, “mas vou virar esse jogo”, vai como como como perguntamos, tio Luciano abriu a mala que estava no chão, ao lado da mesa e ao lado de Zorro, a mala cheia de dinheiro, “vou comprar a cara de Marmafaz e devolver a ele”tio Luciano contou, nosso irmão menor parou de coçar as pulgas e ficou olhando as notas marrons e verdes e azuis amarradas com elásticos, com cara de bobo, tio Luciano começou a cantar nossa Música Secreta que ele ensinou, de pé ó vítimas da fome, cantamos com ele bem baixo, foi dando um calor na gente, vontade de abraçar, a gente se abraçou, tio Luciano chorou a gente chorou, “e mamãe onde está?”, “no médico de dor de cabeça até o mês que vem que nunca vem” nossa irmã disse, “no hospital de loucos com richoro” nosso irmão menor contou melhor contado.

 

A cara de tio Luciano virou uma careta. “Putamerda” ele disse.

 

Tio Luciano fechou a mala pegou a bolsa esgarçada também chamada Marmafaz olhou dentro dela escreveu um número num papel juntou um dinheiro, “vão lá no bar o dinheiro para o dono do bar telefonem a papai digam que o tio passou aqui que ele não volte digam que ele não volte fiquem no bar até papai chegar vão logo levem o cachorro”, foi nos empurrando para a porta, descemos a ladeira correndo, Zorro latindo na sombra de nosso irmão menor.

 

Foi nossa irmã quem falou ao telefone, ela é melhor nessas coisas, todos queríamos ouvir papai, nossa irmã não deixou até contar o que tinha de contar e de escutar papai, então pudemos nos juntar os ouvidos no telefone e papai tossia tanto que não deu para entender se dizia alguma coisa, desligamos, o dono do bar nem tocar no dinheiro ele quis, “de criança não cobro telefone”, e agora que fazer com o dinheiro?, “melhor perguntar a tio Luciano” nossa irmã decidiu, “mas ele disse” “não interessa o que ele disse agora mudou tudo” nossa irmã falou, aí fomos subindo a rua em silêncio devagar que é grande a subida, o chão virou pedra virou terra virou lama nós subindo, já na virada de casa bem na esquina eles lá, íamos voltar mas Zorro saiu correndo latindo entrando em casa latindo correndo, um deles deu um tiro, foi um tiro só que ouvimos, Zorro voou pela porta entrou na sala feito anjo sem asa feito foguete discovoador morcego, voando planador arraia passarinho, Zorro deslizou e era uma nuvem um sonho um pressentimento ele era, corremos todos atrás dele Zorro Zorro Zorro e ele lá morto no meio da sala, da sala que era a casa toda, e tio Luciano deitado ao lado dele dormia tão cansado que tinha esquecido de fechar os olhos e os homens polícia de boné e revolver fazendo a maior farra em casa, os livros sem capa para todo lado, as roupas panelas o colchão novinho que papai comprou, tanta algazarra e nada de tio Luciano acordar, descansando para depois encontrar o Hebreu Marmafaz e devolver sua cara que o Rei ganhou em uma aposta muito, muito estranha.

 

 

Categories: contos, Escritos

Air Bag

então ficamos combinados assim, você aí em sua sanidade consentida e venal, eu aqui posando de louco, e assim se faz um acordo, um deal você diz, e o acordo é justo ser eu o doido não você, e assim sendo tudo se me é permitido já que aos malucos etc, e esse et coetera é o que mais importa, é de onde nascem as verdades e onde minto a me esbaldar, de forma que ao fim do dia estaremos quites, cada qual em sua própria cela, ia dizer jaula mas me pareceu por demais marcada a expressão, até cruel, e não me encanta a violência, não ao menos aquela que nos levaria a todos às jaulas, caso não levante nem me esfregue ao rosto seu iPod branco imaculado, seu laptop reluzente em acabamento piano com milhares de músicas de péssima qualidade que nunca escutará e suas bibliotecas de Alexandria contidas num único punhado de botões de silício ou coisa mais banal inseridos em caixas plásticas respingadas de merda, pois que ao banheiro as leva as caixas plásticas para ler seus jornais sem nexo, cujas notícias se repetem sem que queira perceber, além de seus maravilhosos textos da mais recente e alvissareira safra de novos escritores popstar surgidos em programas de tevê e festivais lítero-culturais-religiosos, cuja sombra mostra os dentes arreganhados da indústria que diz combater mas, bem, não vai olhar as sombras, ninguém vai olhar as sombras, elas que se fiquem em sua solidão escura no chão pisado pelas multidões, em todos os cantos as há as multidões, e de sombras e tristesa cuida a ciência com pílulas de doce conversão, cada sombra em luz convertida, cada luz fraca em luz forte, cada luz forte em clarão e por fim em relâmpago, até que da luz se faça a luz e todos cegos quedemos, envoltos em brumas de luz branca perfeitamente modulada pelos comprimidos que à boca logo cedo nos impingem, os miasmas evaporando de meus olhos como lingeries em anúncios de cinema, a gostosa intocável em seu ninho de câmera lenta e três metros de altura para melhor me provar que não existo, sou talvez e se tanto uma pupila dua pupilas dotadas de pernas e cartão de crédito, e é o que basta, e sua normalidade escorre em lento chuvisqueiro do vidro blindado do carro blindado ao páralama blindado e brilhante, mas a lama, a lama se esconde, a lama se soma a outras lamas, a pequenos destroços de animais por sobre cujo corpo os pneus radiais de milhares de dinheiros passam sem ver, sem que sinta você um solavanco sequer, seu automóvel com perfeitos sistemas amortecedores nem sequer o deixa notar que há o chão abaixo de você, e se há solavanco não é de chão de gato esmagado pneu mola ou braço de fibra de carbono, mas tão só de soluço mal engolido, soluço que diz ser a picanha do almoço ou jantar esquecida a algum canto do estômago, e então estamos combinados que não me mostra seus medos e finjo não vê-los em seus olhos nervosos e em seus gestos finos que recatadamente – note bem, recatadamente- faz por bem executar com tal cuidado que a nada nem ninguém toquem, exceto se o tocado foi antes comprado faturado dividido em dez parcelas iguais sem juros e abençoado por nota fiscal impostos taxas seguros e programas aplicativos antiviróticos criados por neuróticos, vendidos por neuróticos e por fim usados por inocentes que não o são, neuroticamente olhando para o outro lado e assoviando uma canção que não está entre as 28.452 canções gravadas em seu disco de proporções abissais que a nada mais servem que somar e somar e somar indescritíveis espaços sem fim para melhor preencher seu vazio infinito e sua vontade de prosseguir sem cessar acumulando o que não é acumulável e desprezando o que jamais será desprezível, mas as cavernas sob os páralamas seguem guardando sangue lama óleo e pedaços de pombas assadas por mendigos e bosta e água podre e bactérias e sonhos, e talvez o dedo de uma criança ou sábio, gangrenado e esquecido entre as pistas da autoestrada que leva de lugar nenhum ao mesmo lugar mais além, mas corta antes o que até ontem era floresta e abrigava vida, baratas ratos e mariposas, quem sabe besouros quem sabe soluços desses que escapam do miolo de automóveis quase herméticos como o seu e fluem pelo filtro do ar condicionado localizado ao lado da bomba do air bag que salva até a vida, mas jamais a vida.

Categories: contos, Escritos

Ingenuidade de inverno tropical

No sol do meiodia
que arrepia
Frio e luz brincam na calçada
que maçada
Flertando moças que passam
e se assam
Em roupas de grossa lã
que de manhã
Furtaram ao negro armário
como Romário
Furtava do adversário.

Mas que bobagem: não há Romário
nem armário nem lã
só esse tolo afã
de clicar a moça suada
nesse tailleur enfiada
esperando algum vento
que acabe com seu tormento

Rosário e os trilhos

Março 27, 2011 9 comentários

Rosário e os trilhos

 


Quando Rosário Del Rio viu pela primeira vez os bigodes fartos e antiquados de Luis ela não pode fazer outra coisa senão se rir. Rosário tinha 59 anos e dentro de duas horas – conferiu no reloginho de pulso – faria 60. Estava justo a esperar a composição das quatro da tarde que a levaria à balbúrdia da casa da filha, com os netos barulhentos e a inevitável festa surpresa que, embora não a surpreendesse há muito, arrancava dela uns punhados de lágrimas guardadas para essas ocasiões. Gostava de tomar aquele trem tanto por ser mais vazio, antes dos horários em que operários e gentes do subúrbio como ela apinhavam os vagões, quanto para chegar a tempo de ajudar a filha e o cunhado a preparar sua festinha – o que naturalmente não era dito nem por ela nem pelos dois, que por costume se mostravam surpresos com a inesperada visita de Rosário.

Mas isso seria lá depois de tomar o trem. Naquele instante Rosário se ria de Luis, o homem de bigodões, que decerto ela ainda não sabia chamar-se assim. Luis estava vestido com o que já fora o elegante costume dos funcionários da ferrovia – sapatos pretos sem cordões, calças cáqui com barra dobrada italiana e vincos, camisa, gravata preta fina e um tipo de dólmã também cáqui pontilhado por botões metálicos –, mas já então havia mais melancolia naquela roupa do que a quase arrogância com que era envergada no passado. Os bigodes confusos, aparados porém com fios rebeldes crescendo em todas as direções, combinavam com o traje. Também neles se via a melancolia difusa que flutuava ainda por toda a estação. Rosário passeava os olhos pela plataforma como se buscasse algum interesse para passar o tempo, mas o fato é que os queria aos dois olhos bem focalizados na figura de Luis, em pé ao lado de um guichê fora de uso, embora a envergonhasse a curiosidade. Assim estava ela a passar pelo homem o olhar como facho de farol em baía perigosa, ora iluminando umas rochas ora a crepitação das ondas ora em neblina acanhada se encobrindo.

Na flutuação, quase ao fim da plataforma, um casal de índios ao chão vendia badulaques e, ainda mais adiante, três crianças se esparramavam sobre um velho banco de madeira esperando maior movimento para ofertar os olhos tristes remelentos aos passantes em troco de alguma moeda. Rosário, impaciente com o cenário repetido – os mesmos passantes, os mesmos índios e crianças cujos rostos, só os rostos, mudavam a cada viagem de trem –, voltava e retornava a inspecionar Luis e, ao mesmo tempo, Deus do céu, se via incrédula com a ousada infantilidade da bisbilhotice. Tentava mal disfarçar as olhadelas cada vez mais longas a Luis, esperançosa de que ele a notasse, que visse seu olhar percorrendo a distância e o atingindo, o tocando o risco de pente no cabelo brilhantinado, a coceira que o afligia na orelha, o tremor discreto quando olhava a curva dos trilhos além da estação.

Luis levava ao pescoço um cordão na extremidade do qual pendia um judicioso apito, daqueles que se usam para ordenar aos trens movimento ou paralisação. Rosário não estava perto o bastante a observar os detalhes do objeto, mas já havia visto um deles e sabia o quanto bastava para imaginar seu toque sedoso de madeira manuseada e sua movimentação no peito de Luis, seguindo a modulação respiratória, talvez até cardíaca, do funcionário da estrada de ferro.

Aos cinco minutos para a chegada do trem a imagem do homem ao lado do guichê se tornou quase um filme desses de caderno que, à força de polegar, indicador e pressão, mostram cenas seccionadas em movimento tremeluzente – pessoas passando com pressa para se postar onde supõem estará uma das portas do trem é que fazem o jogo de cena, e tal movimento de entrada na estação parece indicar que se chega o momento de Rosário descobrir de quem vem observando com tanta insistência ao menos o nome, pois se em fato nada existe antes de ganhar batismo, Luis para Rosário ainda era tão só uma possibilidade de existência, quase um sonho, e como essa mulher não é das que gostam de sonhos, mas das que preferem algo concreto a um punhado de imagens, ela sai apressada no contrafluxo e, evitando um viajante aqui outro ali, logo se põe perto para ler o crachá alfinetado ao dólmã de Luis. Mas como acostuma acontecer a essas situações, tanto em ilusão dormida quanto em sonho acordado, um rumor anuncia a chegada da locomotiva e, antes que Rosário consiga ler, Luis se move para a borda do cimentado. Ela o segue. São tantas gentes, porém, que acaba por perder o homem de vista no meio ao povaréu amontoando-se ao lado do vão dos trilhos.

No vagão já não há onde sentar. Ela não chega a se amaldiçoar: foi sorte: em pé frente ao vitrô da porta, do outro lado do vidro no qual Rosário se espreme, está o homem de bigodes, apito entre dedos aguardando que alguma divina ordem venha a ele permitir a saída da composição. Luis, ela lê em voz alta e volta a se rir, não se sabe se do bigode ou de alguma outra graça encontrada nele ou ao redor dele, dessas graças que demoram tempos a ser descobertas. E esse Luis que Rosário acaba de conhecer se vai e se fica na plataforma que foge do trem. Some ao longe, e o substitui a paisagem de casas atarracadas passando cortada pela cerca que isola dos trilhos a vida real.

 

Dois

 

Ainda faltavam 45 minutos para completar 60 anos de idade quando Rosário chegou à casa da filha. Não precisou se anunciar. Foi empurrar o portão da rua e a porta da sala abriu. Ilsa veio em passo de cavalaria, a boca grande bonita bem como era a do pai.

Mãe, exclamou abraçando Rosário, parabéns parabéns, que bom ter chegado na hora certa. Que hora, Rosário pensou, se sempre era a mesma em que chegava, e ia perguntar a Ilsa que hora certa seria aquela mas lá já saía da casa o genro, as abraçou às duas e disse alguma coisa a que Rosário não prestou atenção, ela mais pensava era no homem de bigodes, soube seu nome às quatro e quatro, 16h04, quatro e quatro dá oito, promissor mas trabalhoso, e se do dezesseis e quatro se somam os números chega o três, bonito demais que é número de Deus, mas bem estranho para um casal.

Mãe tá sonhando acordada, não ouve nada que se fala, Ilsa riu, E lá sou mulher de dormir acordada desde quando, Tem uma surpresa, o genro sussurrou, Não tenho surpresa alguma, Rosário o olhou desconfiada, como se andasse ele a ler pensamento, e o genro riu gostoso, Ilsa é que tem a surpresa pra senhora, E que coisa será essa, Vem que vai ver, ele a pegou pela mão e a puxou para a sala.

Bexigas e uma faixa, pendendo acima da televisão. Parabéns Mamãe Com Amor Da Família. Deus, gastaram dinheiro com isso, pensou. Desgostava de surpresas, mais ainda as acompanhadas dessas amorosidades que grudam, beijam molhado, escrevem bobagem em bilhete de papel de pão, falam tolice na orelha. Beijinhos e brigadeiros e um frango assado na mesa. Quem teria enrolado o brigadeiro? Seus olhos então pararam no canto escuro da poltrona onde um velho de rosto muito branco a olhava. Não era estranho mas não lembrava se o conhecia ou se o velho teria tão só cara comum, das que se cruza numa estação e se esquece na próxima.

Acho que a mãe gostou, ouviu Ilsa dizendo da porta, Gostei por demais, tudo muito lindo, Não, mãe, é da surpresa, e Rosário seguiu o olhar da filha e foi ter no velho, que levantou, saiu da sombra do canto e abriu um sorriso de boca grande.

Rosário sentiu a testa fria. Um pano preto passou pela sala e se instalou sobre seus olhos. Era como quando ia ao cinema, trinta, quarenta anos atrás, mas com cores trocadas, o homem de cara branca se movendo na tela de pano preto, ela molhada de testa e ardente de bile na barriga, quando por ordinário se dava o contrário, no outro tempo eram umas umidades abaixo e calores no rosto. Deu um passo para o lado e se caiu no sofá. Um silêncio na sala, a cara branca de farinha fechou a boca que lembrava a de Ilsa, ou a da filha é que lembrava a dele, e o relógio de Rosário pesou no braço como deve ter pesado o braço de quem enrolou tanto brigadeiro, e ela quis só para si aquele silêncio, aquela testa gelada e aquela tontura escura, quis ficar ali quieta e enrolada como a gata que tinham em casa quando Ilsa nasceu, escondida no frio escuro quieto, dizer nada porque não tinha a falar, que ideia aquela, por que tirar o defunto ao buraco, ao túmulo a que pertence, a cara de vela fresca que nem lembrava o homem de bigode Clark Gable, não fosse a bocona rasgada no rosto, não fosse a fenda quase sem beiço ela nem reconhecia o fantasma como o resto do homem que a deixou na terceira fileira do Cine Astor, a sessão acabada e ela esperando, gentes entrando para a repetição do filme e Rosário sem coragem de olhar o relógio, começa outra vez a fita e se vai sucedendo o mesmo que sucedera, correm as letras na tela e são acesas as luzes e as gentes se movem, Rosário teme o relógio teme o tempo talvez tenha sido só um filme e ela sonhado o repetido, pode ter dormido e o tempo parado, e sua dúvida dura até que um homem de terno vem ter a seu ombro, coloca leve a mão sobre ele, a moça me desculpe mas o cinema vai fechar, a moça me desculpe mas tem de sair, e nada de seu Clark Gable voltar do cigarro, quantos cigarros terá fumado em 35 anos, quantos fósforos, para então voltar feito fantasma ou vela derretida sem mais graça sem pavio sem motivo – sem nada que a interessasse olhar ou perguntar além do que já havia olhado e se perguntado e se respondido tantas vezes que melhor nem contar.

Mamãe a senhora ta bem, é a filha perturbando o silêncio escuro que Rosário não quer largar, Um copo de água pra ela, é a voz do pai da filha o que escutou então, desgastada mas a mesma, É o calor, agora é o genro, Essa casa é um inferno durante a tarde, outra vez a filha, e aí chega a água a seus lábios e junto chega um cheiro que reconhece e que é do marido, do ex-marido, do defunto redivivo após quarenta anos, trinta e cinco que seja, o desgraçado manteve o cheiro que Rosário esquecera na poltrona de madeira da terceira fila do Cine Astor, ela agradeceu a Deus e bateu palmas quando demoliram o cinema decrépito, levou Ilsa pequena de colo para assistir a pantomima de dinamite e homens de capacetes amarelos e bombeiros e policiais, Um passo atrás mocinha cuidado com a criança, e então a explosão, várias delas como foguetório de quando chega maconha na favela ou se vai ano velho ou algum vizinho aposenta, Rosário puxou o coro das palmas e chorou emocionada – jurou que seria a última vez com emoção e foi mesmo – quando a poeira e um monte de terra seca, feito túmulo de pobre, foi tudo que restou do Astor.

Mas me deixem que não quero água, Rosário empurrou a mão do genro, me larguem que me afogueiam e se de bebida careço é de coisa com mais força que água pelo amor de Deus, de forma que os três se afastaram cada qual seu passo sem palavra, pensavam talvez que fosse mal agradecimento ela os enxotar quando não mais queriam que ajudá-la no desconforto, e o genro toca a pegar um copo da mesa, derruba nele um tanto de campari que sabe do que Rosário gosta, o desgraçado branquelo de ré já na poltrona e na sombra se põe e Ilsa, rostinho de choro que faz desde menina, A senhora tá bem mãe tá tudo bem mãe, E que há de estar bem se me trazem um estrupício desses sem aviso nem reza bem no meu aniversário, Foi uma trabalheira encontrar o pai, Melhor seria se poupar de trabalho ingrato tirar feriado sair de folga, Não me foi ruim o trabalho ó mãe que fiz feliz de ver a mãe contente, E vai lá algum se contentar em ver defunto andando na sala, Decerto que não que o pai tá bem vivinho e forte, Eu digo minha filha que de seu pai nem osso sobrou.

Enquanto conversava com a filha, Rosário inspecionava com rabo de olho o homem pálido, bigodinho branco raspado por cima. Tinha os braços magros com excesso de pelos e uns dedos finos entrelaçados que pareciam ansiar por lírio branco ou cravo de defunto ou até terço. Rosário deixou de olhá-lo ao aceitar o copo de campari com gelo que o genro trouxe. A compadecia o bico de choro de Ilsa, mas mentir a ela era fora de propósito, não teve mentira antes e não seria agora aos 60 que ia inventar.

Aí ficou um clima de velório, o frango assado murcho dentro do embrulho de celofane e os brigadeiros anêmicos também murchando a olhos vistos, Rosário balançou a cabeça e disse Está tudo certíssimo, foi só tontura de calor e tontice de velha, me desculpem todos e até aquele ali me desculpe, e onde estão as crianças que não vi nenhuma, Aqui, gritou uma voz debaixo da toalha da mesa, os dois pequenos saíram de lá com um canudo enrolado em papel de presente e Rosário ganhou uma sombrinha até simpática, pintada de borboletas e joaninhas.

Ilsa suspirou forte que parecia ter escapado da morte, se abraçou ao marido que a abraçou, ficaram se enxamegando e rindo nos nervos do alívio, de forma que talvez pelo gosto de ver aquilo outra vez bem encaminhado e ainda por persistir na boca de Ilsa um resto do bico de choro foi que Rosário se arrastou à extremidade do sofá, encarou o velho branco cuidando de não o olhar os olhos e perguntou de supetão, Por que veio, Vim por covardia, por medo de não pagar o erro aqui e de ter de pagar além, e se quer saber se me arrependi foi a bem dizer cada dia, isso é modo de falar mas garanto que não teve semana sem encontrar seu rosto num sonho ou pé seu no degrau de ônibus que arranca ou letra de sua mão na escrita de outra pessoa, e foi tormento que vivi, não vida, mas se por covarde vim por covarde antes não voltei, Então seu discurso está feito, minha parte era escutar e escutei, disse Rosário, mas não me faça essas caras não, se poupe dessa conversa cansativa que duas vezes não caio no mesmo buraco, Só peço que me ajude a não morrer em pecado, ele disse, e uma das crianças abriu a porta da sala e a brisa do movimento envolveu Rosário no cheiro do homem e o cheiro a arrastou ao Astor como se o tempo fosse asfalto e seus joelhos rodas gastas e a barriga e os peitos casco lacerado pela lixa de pedriscos e magma, de forma que, ao despencar no cinema, Rosário era uma chaga ensanguentada e dolorosamente exausta.

Foi quem sabe por isso que, embora pedindo que ele não mais falasse, Rosário o perguntou ainda umas perguntas, a começar de Por que fez aquilo, e o homem branco como parede caiada sucessivas vezes contou uma história sobre o ponto de jogo do bicho de que cuidava, do qual Rosário por graça de Deus desconhecia, e de como ele pôs as coisas em confusão ao apostar nos cavalos a féria de um dia e por fim ter de sumir para proteger a Ilsa e a ela, e isso ainda antes de ter puxado cana e amargado a vergonha de não mandar um nada, um cruzeiro que fosse, para casa.

Não acredito no que fala, Rosário o interrompeu, pensando porem que de tão longa a mentira podia ali haver uma ou outra verdade, a parte de ter sido preso quem sabe, mas apostar em corrida de cavalo era coisa de livro que o desgraçado lia quando estavam casados, Rosário bem folheou alguns em busca de explicação para o sumiço do marido, quando ainda com isso se importava, 30 anos atrás, e lá estavam os cavalinhos e a jogatina e vigaristas e prostitutas, terá se aventurado ele por esses lugares de mulheres de pernas escancaradas era coisa que se perguntara mas não o faria a ele, e apesar da quase certeza da farsa, por que não, pensou, e então o desgraçado por pouco não voltou a surgir a Rosário como o herói que era lá longe no tempo, no tempo do casamento e no tempo do amor, quando por menos fosse a tirou das mãos de pior desgraçado que era seu pai, mas será que isso conta, será que mesmo lá antes contou, Rosário tenta lembrar, então o velho branco na poltrona perguntou Nem um pouco me crê, Rosário esforçou o rosto no sorriso possível, apertou a mão fina do homem que a deixou no Astor e levantou sem mais palavra, foi à cozinha onde aqueciam o frango.

 

Três

 

No dia seguinte ao aniversário de 60 anos Rosário acordou às seis horas. Seis mais zero mais seis dá doze que dá três. Esse três a vinha seguindo. A afeiçoava o três – completo, sólido, trindade – mas havia algo de sombrio perturbando seu tranquilo equilíbrio: um ruído, um tremor. Isso, um três com tremores, pensou enquanto recolhia os ovos no galinheiro do quintal, seis de seis poedeiras, doze e outra vez o três, a perfeição, bem ao contrário do quintal largado, reino das galinhas e dos dois cachorros velhos que só faziam dormir, quando será que começou a deixar o lugar de tal jeito abandonado é que não recordava, um chão seco de dar pena, uns fiapos de mato no canto, os enfeites que tinha eram os trapos de cor no varal que nem pezinho de flor maria sem vergonha se aventurava a nascer, daí que Rosário viu uma imagem bonita na imaginação e deixou que a imagem brincasse, era um jardim de flor, depois horta entomatada e com erva de tempero, o perfume se lembrando de Rosário na cozinha e a pegando lá de tarde, então Rosário conferiu as horas no reloginho de pulso e disse pronto, pego o trem das nove e em meia hora chego na loja de semente e depois é enxada e água.

Tomou uma chuveirada, pôs o vestido bege de todo dia, o chinelinho confortável de tecido azul com flores. Se olhou no espelho de passagem, voltou, se olhou no espelho e sentou na cama, se ficou observando o reflexo, o tempo passando e ela ali sem saber pra que ia gastar com horta, com planta de flor, se olhando e pensando, e meia hora depois voltou ao chuveiro mas saiu da água quase no mesmo instante e trancou a porta por dentro, como se mais alguém morasse naquela casa além dela e das galinhas e dos cachorros, e quando destrancou o banheiro estava maquiada, tentando lembrar há quanto não o fazia, e depois de experimentar meia dúzia de roupas escolheu um vestido branco de algodão que quase nem cobria os joelhos, que bem por isso tinha ficado lá nos fundos do armário e cheirava meio a naftalina meio a alfazema, depois vestiu um par de sandálias de amarrar no tornozelo e só.

Estava pronta a tomar rumo da estação ferroviária quando a campanhia tocou. Bolsa em uma mão e chave na outra, abriu distraída a porta da rua.

Merda.

O desgraçado, a cara de farinha de trigo e umas flores na mão.

Bom dia, disse o infeliz, E que é isso agora em meu portão, Rosário se irritou, Trazer uma lembrança de aniversário que ontem temi lhe dar, Temeu por certo e a ousadia de agora não lhe cai bem nem me convém, Só umas flores que vão melhor com a beleza em que se encontra a moça do que comigo, Trinta e cinco anos fizeram tão mal às flores quanto a você que as duas coisas estão murchas, Um café e me retiro eu e minhas flores, Aceito por só dessa vez, Rosário disse sentindo a desolação do Astor, uma tristeza de pregas feitas a máquina de costura, uma fraqueza de raiva sem força de ser raiva, e empurrou a porta a suas costas e entrou deixando o vão aberto para que o homem adentrasse, o que fez de imediato, e Rosário sem palavra se levou ao lume, aqueceu a água e coou o café ralo que ele gostava lá no passado e empurrou a xícara e o açucareiro pela mesa e ele tomou um gole com satisfação, molhando os lábios estalando língua, descansou a xícara e olhou Rosário:

Tente me acreditar, Em que, No que parece mentira bem por ser verdade, E que ganho com isso, O gosto de fazer o justo, Quem é esse pra pedir justiça, Alguém que fala o certo, Ainda que seja assim verdade velha é tão ruim quanto mentira, Só perdão que peço, A porta da rua já conhece e pode ir tranquilo, Não quer crer nem desculpar, Essa é questão que deve fazer a si não a mim, Rosário pela primeira vez desde que o reconheceu na tarde anterior olhou em seus olhos e, sem nada que a interessasse lá, pegou a xícara que ele usara e a jogou no cesto de lixo ao lado do fogão.

O homem levantou, inclinou ligeiramente a cabeça como fazia quando costumava ter um panamá cobrindo os cabelos e se meteu porta da rua afora. O maço de flor se esqueceu sobre a mesa, e já Rosário ia enviá-lo ao mesmo destino da xícara quando melhor pensou e escolheu algumas dentre elas, de mais viço, e as depôs em um jarro com água e pitadas de açúcar. As demais arremessou ao pé do galinheiro, para alvoroço das galinhas e desprezo dos cães. É por isso que mais gosto de vocês, disse a eles.

Passou um tempo olhando o jarro de flores, se perguntando por que não as metera ao lixo. E se não fosse mentira, se o infeliz padecesse de um mal, se quisesse tão só morrer em paz, e se ele tivesse voltado depois do cigarro no Astor e a vida fosse outra diferente da vivida, os dois juntos mais Ilsa, férias na praia e ele com barba de algodão no natal tirando do saco a boneca para Ilsa e um bracelete que vinha direito para suas mãos junto com aquele beijo, depois saindo pelo corredorzinho da casa que seria bem outra casa, tinha corredor e sala de estar talvez até de televisão atrás daquele biombo, e ele voltaria sem barba alegre de ouvir Ilsa contando quem passara ali agora faz pouco, Que azar o meu que fui ao banheiro na hora em que o velhinho resolveu dar as barbas, e um abraço e estamos os três juntos bem grudados, rostos esfogueados de calor bom que sobe da barriga e abraça o coração, e por então já dão as horas de dormir, Ilsa tinha seu próprio quarto e se vai abraçada à boneca, os dois ali observando cada passo da menina até ela sumir na curva da porta, agora só os dois na sala e ele a abraça a olhando nos olhos, a mão firme em sua anca a empurrando gostoso para o outro quarto, cama larga bocas se tocando mãos peito contra peito e as pernas entre as pernas, e quando dormiram é quase manhã e a vida passando assim e as flores no jarro sobre a mesa da cozinha seriam tão as mesmas mas murchas de extenuadas de felicidade, ai que me perco de bobagem, onde já se viu flor cansada e velha que sonha de criança, mas bem que podia ter sido e era só uma coisa ter acontecido em lugar de outra, só uma e não mais e a vida e as flores e as galinhas e os cães teriam, teriam cheiro de acqua velva quem sabe, teriam sol quando chove teriam luz quando de noite, ela se pergunta, pergunta aos bichos do quintal, às plantas que vai ainda plantar, teria um abraço depois de tudo será que teria

Só que não foi assim e nem sei que faço agora, Rosário olhou as flores lembrando coisas que não queria lembrar, o rosto satisfeito dele quando uns dias depois de casarem voltou do trabalho com a mão enfaixada e nem por lei disse o que ocorreu, como conseguiu aqueles cortes nos nódulos dos dedos, e quanto mais Rosário insistia mais ele ria e mais a puxava de encontro a si e dizia indecências e a livrava da roupa e a amava mesmo no chão da sala, e era amor doce de selvagem, embora talvez se engane e o amor tenha sido outro dia, talvez na tarde da mão machucada ele só tenha rido sem palavra e uma vizinha tenha tocado  palmas ao portão, era o que então se fazia essa música das palmas para chamar a algum de dentro de casa, e a vizinha pode ter dito, Seu pai seu pai seu pai, e Rosário a olhado sem entender, Que é que diz de meu pai se eu mesma não sei se o tenho, O velho foi atacado por algum bandido que o destruiu os dentes, fez pasta dos bagos e dizem que por pouco não os cortou fora que o bandido tinha raiva e faca, Mas o que diz quando ocorreu isso, Agora mesmo coisa de hora atrás e ao velho levaram em ambulância não se sabe para onde, Que seja longe, Mas por bem de Deus ele foi vivo e se diz que risco não corre, Já isso me entristece, Decerto que sim que é seu pai, Deus ou o Diabo, o que o escolher, que o socorra, Não diga coisa dessa de quem a gerou, E esmagaram bem esmagado o que ele levava entre as pernas, Diz que sim, calça arriada no meio da avenida e nem se reconhecia o que ali antes havia de haver, Deus seja louvado, e quem fez a obra se sabe, Não que ninguém viu e quem pode ter visto diz que desconhece, que estava olhando ao lado contrário, adormeceu no instante ou barulho de carro chamou a atenção justo no momento, Então que seja e me deixe que tenho de cuidar do meu homem, Rosário disse a cada vizinho que veio palpitar a novidade.

E foi assim, com tanta coisa a lembrar e remendar, que Rosário desistiu da visita à loja de ferragens que também comercia sementes, e mais ainda fez pouco do vestido branco de festa que habitava e das cores e feitiços que pôs a seu rosto para fazer bonito na estação de trens, que bem Rosário sabia o que andava a tramar ao se embonecar logo cedo, quando por comum nem à noite se maquiava ou se banhava em perfume, de forma que naquele dia quem se aproveitou de tanta novidade foram lá os cães, as galinhas do quintal e o moço do açougue onde ela buscou uns bifes que fez no capricho possível da solidão. Não que tenha esquecido do homem da ferrovia, dos bigodes engraçados e do nome Luis. A ele e a suas qualidades lembrou e muito, mais ainda ao deitar à noite, o fez com paixão incomum naqueles tempos e, logo após se estremecer na cama, brigou consigo em voz alta, Idiota, burra, prefere o fingido, podia ter ido em charmes à estação, idiota, burra, gastou o dia inventando o passado como se ele não tivesse feito mal bastante, BURRA IDIOTA, se levou à cozinha para se tirar sorte aos búzios e depois perguntar ao I-Ching o que sucedia, mas no meio do sortilégio esqueceu a pergunta, distraiu da resposta e deitou outra vez, sem rezar que tinha raiva em si e não convinha, e só percebeu que havia dormido quando no fim da madrugada acordou de sonho em que seus dois cachorros discutiam cartas do tarot e chegavam a alguma conclusão surpreendente sobre a posição do enforcado, veredicto que por mais tenha tentado não conseguiu lembrar.

Nem muito depois tocaram à porta. Espiou pela fresta com temor de ser o desgraçado. Era um moleque. Entregou a ela umas flores, um CD e envelope, tudo chegado das mãos do infeliz. O bilhete falava sobre a Áustria.

Ninguém sabe onde fica a Áustria. Nem você nem nossa filha que trabalha em livraria, nem quem da vida faz mapa. Vem um e diz que é Europa, muito bem, aí pergunte como lá nasce o sol e de que felicidade vive no lugar o povo. Ninguém sabe a não ser que tenha sido tocado por seus ventos, coisa que fui sem orgulho, e para que me acredite mando esse disco com música da Áustria, 30 por ser uma a cada ano colecionada, e mais não digo pelo papel. Se me permite pela palavra dita, fico no aguardo da sua que autorize.

Ah, desgraçado.

Desgraçado, enquanto alimentava as galinhas, Desgraçado, e os cães já os fornira antes, Desgraçado, por pouco não pondo a rodar o disco, mas o estranho é que dizia isso e nada sentia por dentro, nem dor nem alvoroço, vinham à cabeça umas imagens quebradas e até felizes do passado juntos bem ali naquela casa, que apesar de mudada era a mesma, e decerto que o desgraçado era engraçado, de falta de risada não foi que morreu o casamento, Ê Rosário é claro que não, foi é de sumiço, e vem lembrança que não se acaba, ele levando Ilsa nenê à feira, as rodas do carrinho teimando na rua de chão, uma fruta salta na mão do infeliz e vira boneco, arranca risada sem fim da menina, Rosário na cena apartada lembra que pensou Ah mas que vida de surpresa, não quero outra nem nada diferente, quem sabe não tenha sido exato isso o pensado de trinta anos atrás mas se escapa alguma palavra ou entra outra nem assim foi diferente a alegria do pensamento, e de coisa lembrada em coisa lembrada Rosário já saiu de casa e andou chão, virou esquina e atravessou rua, disse bom dia e por fim chega à estação de trens, deixa o presente entrar meio à memória feito a brisa que a visita as pernas dentro do mesmo vestidinho branco do dia de ontem que ela de novo traja, as mesmas tintas brincando seu rosto, e lá se vai ela sentar comportada a um banco à espera da composição das nove horas, que veio e se foi sem Rosário, e o banco virou espera do trem das nove e meia e depois das dez e nada de Luis dos bigodes surgir, vá que seja data de folga do homem, de fato lá outro instila seus ventos no apito e ela a este outro segue com os olhos a ver se entra a uma porta ou canto secreto onde se esconda Luis, mas o apitador que lhe rouba Luis é tipo preguiçoso, não deixa a plataforma e quando a marcha de lado a lado o faz a passo lento de velho, e foi tão só isso que esse homem ladrão de Luis fez ainda no dia seguinte e no outro dia que se sucedeu e no outro substituto do sucedido.

Luis apareceu no quinto dia. Parecia mais cheio nas carnes, mais tostado de pele, o bigodão meio branco meio castanho meio preto até que aparadinho, sem as pontas desfraldadas que a fizeram rir no dia do aniversário, e Rosário passeou pela frente dele olhando o chão e tentando respirar um ar que faltava, depois voltou e depois foi novamente, e em certo momento desse vai e retorna os olhos a desobedeceram e caíram a investigar se havia anel ou aliança no dedo de casamento de Luis, Deus seja louvado que ali não tinha argola, era só um dedo moreno de homem, grosso e irregular e sem adereço nem marca que se visse. Então por fim Rosário pode tomar o trem e buscar as sementes na loja de ferragens da cidade, escolheu de flor que de comida não carecia, e no dia seguinte já se levou outra vez à ferrovia que agora a necessidade era comprar alguma roupa, as dela esfarelavam de idade, e à outra manhã a filha tinha de ser visitada e Rosário se abalançou feliz ao trem, então comprar um perfume ficou urgente dado o calor que a punha nuns cheiros tristes de velha, e assim foi até que quinze dias se passaram em tanta viagem de trem e tanto passeio de olho baixo na plataforma e tanta falta de ar que Rosário descuidou de seu negócio de leitura de cartas e de conchas e de pedras a ponto de escassear o dinheiro, o bauzinho das economias magro de um só par de notas e umas moedas, Que passa Rosário, ela se perguntou por falta de quem o fizesse, Resolveu enlouquecer, e respirou fundo, reviu a lista de ligações, abriu a agenda largada na mesa da cozinha, chamou velhas clientes para conferir alguma constelação em aberto e pôs a vida outra vez em marcha, se sentindo miserável mas sem saber que outra coisa empreender.

 

Quatro

 

Não sei fazer duas coisas ao mesmo tempo, Rosário disse a Ilsa enquanto tirava o tarot da filha, num daqueles dias, e Ilsa a olhou esperando que continuasse, fosse algo mais clara, mas aquilo era o bastante para Rosário, um desabafo completo que quase a jogava nua, a frase seguinte já dizia sobre o que se passava nas cartas de Ilsa, e assim a conversa passou a rumo doméstico, das coisas necessárias e das evitáveis, uma dificuldade aqui outra além, as cartas se abrindo fita de cinema sob os olhos de Rosário e ela se perguntando, Meu Deus e se isso são cartas a mim destinadas, Estou a misturar tudo, Que confusão, Rosário pensando essas coisas mas falando bem outras a Ilsa, mostrando à filha o caminho curto aqui, o confortável adiante, foi quando Ilsa perguntou, quase indiferente a pergunta mas bem clara, E o pai, Que é que tem seu pai, Ele diz que a mãe não quer conversa com ele, Minha filha não quero mesmo e desculpe a franqueza, Que franqueza a mãe quer desculpada, A de dizer que esse assunto de seu pai vem de erro grave que você cometeu, A mãe também me desculpe, erro pior é não acreditar nele sem ter ouvido o que ele tem a contar, Ora seja, O pai foi injustiçado, Deus me livre de ter escutado isso da boca que sozinha alimentei, Não foi injustiçado pela mãe, foi é pela vida, Só não gostei de você ter ido atrás dele e pronto, acabou-se, Ele que sofreu tanto em exílio e nem pensão de anistia consegue, que teve de fugir de quartel e sumir do país, não é justo a gente não apoiar o pai, Que exílio é esse minha filha, Exílio que foi sorte, graças a Deus não morreu fazendo guerra e revolução, Esse homem tem é língua de aranha, se de guerra escapou foi de guerra de bandido que ele era, A mãe não sabe porque ele tinha de esconder, A única coisa que esse infeliz esconde é a verdade, minha filha, no tempo em que resolveu sumir já não tinha ditadura de há muito e seu pai nem é de fazer revolução que frouxo não presta pra isso, Mãe não quer entender que o pai não era quem a mãe conheceu, era guerrilheiro disfarçado ele bem me contou, era tudo falso menos o amor pela mãe, Que, quanta mentira colada, minha filha peço de coração fique longe dele, A mãe dia desses há de ver os documentos, Que documentos, Que o pai vai receber da Áustria e provar tudo, Assim seja filha mas cuidado com ele que esse homem é perigo, é feito água que a porta fechada não respeita, e agora chega disso que tem carta ainda a ser aberta.

De forma que, naqueles dias, além do temor de nova visita do infeliz se fazia necessário fugir das investidas de Ilsa, que a qualquer instante e por motivo besta qualquer se punha a contar que o pai consertara o chuveiro, levara as crianças a visitar bichos do zoológico ou tinha feito progresso no caso dos documentos da Áustria, conversas que fácil se tornaram um aborrecimento inesperado quando o cunhado e a filha encasquetaram que aquela casa não andava bem para Rosário, tudo caindo aos pedaços, a vizinhança a cada dia mais feia cheia de bandido e tão longe de tudo que, Pelo amor de Deus, se a mãe cai doente nem socorro tem ao lado e a mãe já não é jovem que se vire sozinha, Quando foi que não me virei sozinha, É só jeito de dizer, Jeito bem esquisito, Deixe de desconfiança minha mãe, Ilsa qual a coisa mais importante que sempre ensinei, Que mentira começa errado e termina pior, Pois acho que falar dessa forma, dizendo um pedaço e escondendo outro, se metendo a me enredar numa história que não sei onde vai parar, é tipo de mentira tão mentirosa que tem vergonha de ser mentira, Mãe me ofende dizendo que dei agora de mentir, pior seria me calar quando vejo o que não vai bem, Se vê que fale, Mãe se mostrando a homem na rua como se fosse, De onde tira esse absurdo que me envergonha ouvir de sua voz, Do jeito que a mãe se anda em roupa de menina como se fosse, Como se fosse o que Ilsa, Andando de cara pintada emperfumada se mostrando, Do que é que fala afinal minha filha que isso só cai pior, De ficar a mãe se enxovalhando em frente a homem na estação, Quem pensa que é além de filha que amo mas é só filha para me dizer absurdo, Pai viu que, Seu pai o quê, Ele viu a mãe se desfilar, Pois pode parar agora dessa conversa dizer ao infeliz que se me segue mando polícia atrás dele e se você me tem respeito vai ser a última coisa que o desgraçado do seu pai há de ouvir de sua voz, Mãe não entende que a gente tenta ajudar, Já basta que a próxima vai ser pior e não sou de ameaça que ameaça é de fraco covarde como seu pai, infeliz sem força que de outro usa por não ter, Ele quer ajudar a mãe assim como a gente, Como pode desaprender em um mês o que 30 anos ensinaram pelo amor de Deus, Como a gente ele quer ver feliz a mãe sem que ela saia por aí pintada de rapariga como fosse, Puta, puta é o que quer dizer Ilsa, Nossa senhora que a mãe agora me consegue ofender que eu não disse isso, Disse o quê então Ilsa, Só que não fica bem para mulher da idade da mãe se sair desse jeito em busca, Fale termine o que ia dizendo, Não tenho nada mais minha mãe, Melhor que tenha depois de chamar sua mãe de puta, De jeito nenhum fiz isso me perdoe se fiz pensar assim, Perdão é palavra que aprendeu com o infeliz e me vem usar na casa em que a criei sozinha, A mãe quer brigar com alguém mas não quero brigar com a mãe, Resposta ruim que não aceito é essa que me dá, Bem que o pai, Pelo amor de Deus outra vez o desgraçado na sua crença não aceito, me deixe que é menos ruim assim com raiva do que eu tendo de abrir a porta da rua para minha própria filha mas antes pegue da mesa a carta não virada e há de ser a Roda da Fortuna, leve consigo a carta e veja lá bem o que vai arranjar.

Ilsa piscou os olhos, passeou as mãos sobre a mesa com indiferença e pinçou a carta. Era a Roda da Fortuna. Olhou incrédula para Rosário e deixou a casa da mãe com a carta na mão, o bico de choro na boca. Rosário trancou a porta da sala e foi ao quintal cavoucar o chão duro com a enxada. Os cães e as seis galinhas tomaram a cozinha de assalto e por lá se empoleiraram longe da zanga que transformava em jardim as laterais do terreno calcinado.

 

Cinco

 

20160, 1902600, 14, em minutos segundos ou dias tanto se lhe dá que tempo não existe para ser contado mas vivido, e vivido foi em qualquer número que se mostre o tempo decorrido sem que de Rosário sua filha soubesse o que fosse, um rangido de sola de sapato da mãe ou dor de angina no peito, essa graças a Deus não houve mas poderia, e de teimosia que vai gerador a gerado nem uma quis falar com a outra nem a outra quis de ouvidos dar a uma, no entanto ambas vivendo suas vidas que tinham de viver naquelas duas semanas sem por aparência mais se aborrecer que o necessário com a briga havida que as fez de mãe e filha em silêncio e silêncio, ambas como aqueles ventos que entram em casa e balançam um cacho de cabelo apesar das janelas bem trancadas a vidro, e se houvera de existir uma conversa nesse tempo de mágoa ela teria por certo acontecido, e por não ter acontecido esse era o caminho traçado que às duas competia seguir, e isso embora posto e claro não menos triste se punha Rosário, jogando milho às galinhas em contrição como se fosse à igreja e tomasse do cálice o pão sem antes a confissão, lançando nacos de carne aos cães à forma de açougueira que se enoja do ato de morte contido em seu gesto, professando suas cartas e búzios e visões como se lesse do almanaque as falcatruas do horóscopo em busca de uns trocos amarrotados (tirados com pressa e desconfiança do bolso da calça ou do nicho da bolsa do freguês), e por sentir uma dor difusa que a queimava o peito e estalava acima dos ombros a nuca morena de que se orgulhava desde menina por ser de desenho sexy e toda só feita para carícia secreta Rosário se saiu a andar pelo bairro, a cada dia mais longe, para tentar que o ar fresco das ruas a aliviasse a tortura e a paisagem do mundo tomasse o lugar dos maus pensamentos, até no desgraçado infeliz pensou como linimento para desabafar o que a angustiava e por graça divina não o fez, mas quanto longe de casa fosse ou quanto perto ficasse em suas andadas todos os dias, 14 na exatidão, a algum momento parava a se refrescar na sombra grande da estação de trens, se deixava lá por hora ou quarto de hora em algum dos bancos ensebados de madeira, girava pela plataforma de olhos baixos até que os olhos cansados de ver o cimento sujo se elevavam e caíam nuns bigodes louros morenos ruivos do rei da estação, do dono do apito e deus dos trens, batiam seus olhos lá naquele Luis do qual só sabia nome se é que a leitura do crachá no dia de seu aniversário fora correta, e então se dúvida havia nem nome teria o homem e sem nome nem existir ele existiria, mas seus olhos não se importavam com detalhes e se punham a medir, esquadrinhar, cobiçar, e nesse ponto Rosário vinha e tomava a razão e os proibia aos olhos de tanta malícia e outra vez os guardava no cimento do chão e logo mais nas pedras da rua e depois no asfalto da avenida e por fim no portão de casa, que já era hora de almoçar e logo de atender a cliente impaciente com a vida que lhe cabia e pronto a jogar sobre a fórmica da mesa algum dinheiro que valesse saber quanto mais haveria de desconforto no futuro quiromântico desvendado por Rosário.

Não seria de acontecer trégua nessa guerra que nem anunciada foi, se queria saber Rosário, não haveria justo descanso às guerreiras que se evitavam por distância ou será que por ter doado o coração a um homem de bigodes que nem conhecia além do nome essas coisas de peleja com a própria filha ocorriam, seria pois preciso que um amor a outro destruísse em substituição para existir, seria isso o comum destino a que por desconhecer Rosário se lançava ao raspar os dedos na noite da cama entre as pernas sonhando os bigodes, seria tão cruel o mundo a tirá-la sem graça do que amava em troca do que amava, ela perguntava a Deus antes de dormir, fiel crente de que os sonhos a responderiam na noite para ver que Deus ou os sonhos já lá se ocupavam de outro imperativo e a ela não cuidavam responder.

As flores que plantara no quintal se mostravam, de tanto ralhar com galinha e cachorro os bichos as deixavam em paz, e o tempo escorria como sempre em seu quase silêncio quando já maio mês de mãe se aproximava, o ar mais fino da estação fria logo cedo na janela, e foi nessa sensação de quase tristeza quieta que um dia, sem mais aviso divino, o telefone se pôs a tocar e Rosário o levantou e disse Alô Ilsa que demora em ligar, A mãe é só isso que tem a dizer, Isso e ainda que é feliz escutar sua voz, Fico contente também que a mãe não guardou mágoa, Coração de mãe é lugar esquisito onde desgosto logo some, É quase que como dizer que me desculpou pelo atrevimento, Se teve atrevimento foi de duas não de uma e melhor que isso fique no passado, Amém, E que mais me conta, Tem mais novidade que o pai recebeu o envelope da Áustria, O que é do agrado de Deus não discuto, Veio um tantinho de papel assim dizendo que lá ele morou e de lá saiu com pressa esquecendo conta a pagar, E nem só longe sobrou conta a essa besta, Deixe mãe que o pai se morre de uns choros que deu de chorar por conta desses papéis, Se me promete que não há sombra de seu pai por aí ainda tomo o trem hoje e jantamos juntas, Então venha logo que a promessa existe.

Foi dar de comer aos cães e galinhas e ao galo – que então um galo de bom tamanho tinha surgido voando pelo muro e ali se instalara feliz do harém – e Rosário se despachou à estação, não sem antes riscar os olhos de preto e verificar o caimento do vestido, um bem reto mas quase atrevido de ombros em mostra que comprara ainda de fresco, e quando atravessou o saguão da ferroviária mal teve tempo de ruminar o chão com os olhos e depois buscar seu Luis de apito em riste, dessa vez Rosário não teve cerimônia que o trem já ali se encostava, bufando os ventos da parada, e Rosário se foi direta a um vagão, entrou apertada pelos povos que também entravam, segurou firme um lugar em pé frente ao buraco da porta, então a porta fechou e foi-se o buraco mas nada do trem andar, o aviso de apito não vinha e o trem ensinado se gelou esperando, aí sim uma apitada curta porém em lugar do movimento da composição o que houve foi o das portas se abrindo, Pronto quebrou, ela pensou já quase a sair do vagão, mas foi olhar onde pisaria e viu umas botas que conhecia, subiu os olhos e tinha Luis ali bem em sua frente, os bigodes dele marrons pretos brancos se moveram a boca abriu e tinha ele uma flor desmilinguida na mão, uma margarida alaranjada de jardim público, e Luis não disse palavra ao entregar a flor na mão de Rosário a olhando bem dentro dos olhos, depois se afastando um passo e apitando a saída da composição.

Categories: contos, Escritos

Eros e Narciso

Eros e Narciso

 

1

 

Vesti minha peruca de louros

E por quatro vezes foi minha mão ao rio

Por quatro vezes venceu a distância

De barro margem e molhado

Por quatro vezes em concha a água colheu

De longe me mirava entre os cabelos sulferinos

Com seus olhos de cisternas noturnas

E de longe a amei o negro brilho dos olhos

E a ofertei em silêncio meus cachos

Úmidos de noite e de morte

E da santa água do rio

Por quatro vezes a olhei de longe

Mas seus olhos só viviam do que no rio via

De seu reflexo no remanso

Na outra margem escura

Do rio de prata metálica,

Seu espelho.

 

2

 

em vão te acendi miradas

em vão te lancei feitiços

tudo em vão tudo vão

só agradeci a deus que tua boca

feita de cântaros de lama pilada

de longe e em vão à água do rio

tocava

e as ramas de que sou feita

prenhes de orvalho e insutis

emanações molhadas

se quedaram como a mão do morto

no derradeiro momento do filme mudo:

quase a tocar os remoinhos girando

que logo mais e no entanto nunca

a teus pés passariam e a teus olhos

arrancariam um último brilho escuro

antes do início do dia

antes da dissolução das formas

antes que te transformasses em uma rocha

um pedaço de tronco

um plátano

de gestos feminis

um sonho que tenta

mas não resiste

ao nascimento da luz.

Categories: Escritos, Ingenuidades

O corte

Novembro 24, 2010 1 comentário

É o que se vê. O homem está ali sob um resto de luz que até parece foco de palco. Sem camisa. Abaixo não se enxerga por sobra de sombra. Acima, rosto bem barbeado e uns olhos de fogo claro, pequenos e marotos. Mas está bravo, o homem. Tem dois riscos no meio da testa dividindo as sobrancelhas. A boca é grave. O melhor, porém, é seguir a linha de seu braço. Não esse. É o direito. Ande pela linha muscular que o circunda, o espirala até a mão: uma faca. E como brilha: seu corpo de prata, longilíneo e ameaçador, treme levemente a cada expiração de pulmão ou golfada de coração ou ainda a cada pensamento que escorrega elétrico pelo cérebro do homem.

O homem, que tem nome de árvore, olha a faca entre aterrorizado e maravilhado. José Manacá, é esse seu nome, gira a lâmina ao ar e observa seu delicado fio, esmerilhado a ponto de jóia.

O homem ri. Dá um passo e as nesgas de luz permitem ver que está nu. Dá outro passo, agora para o lado, e se põe junto a uma mesa, pequena e sólida. Com a mão esquerda, instala o pinto sobre a mesa. Ele escorrega. O homem chamado José Manacá se aproxima mais da mesa e recoloca o pinto sobre ela. Está murcho, tímido, e ele o estica. Sim, é circuncidado. Nem feio nem bonito. Um pau descansando. Uns gramas de carne tubular indiferentes ao que ocorre em torno – inclusive ao fato de descansar sobre mesa e ter por perto uma mão portando faca.

Manacá, que volta a rir mas mantém o ar grave no rosto, inspeciona o próprio pênis.

“Lamento. Vou ter de cortá-lo.”

Ele o diz assim como se alguém o ouvisse, ou mesmo que seu membro flácido pudesse fazê-lo. Libera um suspiro.

“Claro que não é sua culpa. O que fiz fui eu quem fiz. Sua parte? Existir.”

José Manacá volta a inspecionar o pau. Com a ponta da faca, o levanta pela base da glande e olha com curiosidade quase infantil. Chega a inclinar a cabeça para observar algum detalhe, alguma rugosidade inesperada.

“Como não?”, ele arranca a faca de sob o pinto com rapidez inesperada, sem ligar para o risco de arrancar-lhe um pedaço. “Como não?”

O pinto de José Manacá se retrai. O movimento é sutil mas o dono do instrumento o percebe. Não é medo. Está frio. Manacá se inquieta e, pousando a faca sobre a mesa, mede com os dedos em paralelo a extensão do pênis. Aquele gesto, esse gesto, é emprestado. O aprendeu com uma mulher. Os quatro dedos da mão direita rígidos, em continência, usados como régua. Ela dava aulas de piano. Gostava de medir coisas com quatro dedos. Manacá a conheceu por acaso. Ele tinha uma filha com vocação musical. Seis para sete anos. Frente a qualquer som, a menina mudava. Ficava muda, contemplativa, olhinhos congelados. “Graças a Deus”, dizia a esposa de Manacá, aliviada pelo silêncio raro da criança hiperativa.

Manacá perguntou na barbearia, no clube, no restaurante que frequentavam aos sábados. A resposta veio no templo. A mulher do pastor – que José mal conhecia – foi quem disse que sim, sabia de uma excelente professora de música. “Uma tutora”, definiu. “Não se surpreenda com a juventude dela. Será uma experiência única.”

Foi. E não só para a filha de Manacá. José costumava levar de carro a menina às lições, embora poucas quadras distanciassem sua casa do estúdio. Eram aulas de vinte minutos. Ele esperava no automóvel. Quando o verão começou, a professora o convidou para uma limonada e mostrou que a ante-sala era bem mais confortável que lá fora. A aula passou a ser de meia hora. A criança tomou gosto. Logo eram duas e depois três lições por semana. Uns cinquenta minutos cada. A caçula de Manacá aprendia rápido. Fazia as escalas na perfeição possível de sua pequenez, rabiscava as teclas alheia ao mundo. A professora, dispondo refrigerante, biscoitos e bolo ao lado do piano, saía da sala em silêncio: a porta almofadada fechada às costas com cuidado sacramental. Então entregava os seios à gula do pai da menina, deixava-se levar por sua pressa regulada pelo metrônomo clicante indiferente ao lado do sofá – e só afastava o homem de suas coxas e ventre quando as batidas chegavam à exata contagem.

Era de uma precisão que enlevava Manacá. Os quatro dedos em riste se despediam, desde a porta da casa, paralisados no ar como a moça sobre as pernas longas que não gostavam de se esconder – exibiam despudoradamente os poros abertos de sua novidade sob um vestidinho curto que, fora ela outra coisa senão amante, envergonharia José pela falta de sobriedade. Mas não existia motivo para vergonha. Era jovem – como também Manacá – e, ao contrário dele, não tinha em si um espírito velho. Não se interessava em colecionar dinheiro, em ver patrimônio crescer ou em surpreender a dedicada esposa oficial com viagem a lugar de luxo ou jóia no aniversário ou casa nova toda decorada. Essas coisas davam a José a certeza de que fazia o certo. De que era o homem certo para sustentar a vida e o prazer de viver de sua família – as crianças e, antes delas, a esposa. Não só sustentar. Envolver. Assegurar. Prover. Amar. Para José Manacá nunca existiu a possibilidade de amor sem sustento – na verdade, o segundo tinha de vir, necessariamente, antes do primeiro. Era lógico.

Ouvir as marteladas da filha caçula ao piano enquanto se deliciava na professora fazia parte dessa lógica. Desde o primeiro flerte, o primeiro beijo, a sensação das ranhuras dos lábios dela tocando os seus, o cheiro do desejo evaporando das narinas e boca da moça, os seios dela com textura de queijo meiacura: nada disso teria sentido não considerasse o amor pela família e, mais, pela caçula – aquela filha que era mais filha sua que da mãe, como se o tivessem podado um dedo ou orelha e deixado crescer feito planta, até um dia brotar dali a intumescência que se tornaria a menina.

Mas se alguém perguntasse o que de bom ele tirava daquilo, daquelas tardes de sexo cronometrado, Manacá não saberia o que responder. Chegou lá por acaso e por acaso saiu. José deixou de frequentar a professora por conta da igreja – a mesma que o levara às aulas vespertinas de piano, ironicamente, delas o tirou. E nem por isso o ano que passou junto à pianista deixou de ser, à sua maneira, magnífico. Nas primeiras aulas da filha, antes de ter a tutora como consorte ocasional, esperava sem ao certo saber onde estava. Divagava, criava planos, resolvia questões urgentes e inventava outras. Nada desconfortável. Era o tipo de inexistência que costumava cursar quando não fazia algo concreto, algo que o tirasse do chão movediço em que se sentia normalmente, algo como, por exemplo, seduzir a pianista. Mas, curioso, até mesmo a ponte para o mundo que a professora se tornou logo foi tomada pela lama  ardilosa, e o que era conexão virou repetição, volta ao pântano onde José, em corpo imóvel e às braçadas em alma, criava planos, resolvia questões ou simplesmente as inventava.

Foi por isso que o templo se mostrou tão atraente?, José se perguntava. Provável que não. O fato é que a caçula carecia de um pouco de religião. E, bem, ele viu na igreja uma possibilidade de negócios. O pastor precisava reformar a construção. Goteiras, a nova ala no fundo, gesso na fachada. O tipo de coisa que a firma de Manacá fazia. Além do que a esposa de José e as crianças estavam deslocadas desde que se mudaram para a cidade. Conheciam quase ninguém. A turma do templo era boa. Nada de radicalismo: havia hora para Deus e hora para o mundo.

Como uma obra chama outra, das reformas no templo aos projetos para fiéis foi um passo. E Manacá gostou da Bíblia, de suas histórias. Basicamente diziam que ele estava certo. Crescer e multiplicar é bem lógico. Com alguma dificuldade mas sem grande tormento ele conseguiu explicar à professora de piano o chamado de Deus. Então a filha de José trocou as lições de teclado pela escolinha dominical, que consumia toda uma tarde por semana no anexo entre o templo e a casa do pastor e de sua esposa.

Os pais costumavam lá largar as crianças e buscá-las no fim da tarde, quando Silvio Santos já não oferecia grande emoção. Manacá porém preferia deixar sua mulher com o carro, em companhia das novas amigas, e permanecer no frescor confortável do templo. Se abandonava quieto, sentado esperando. Patinava no velho conhecido pântano. Tinha ideias, criava planos mirabolantes, alguém passava varrendo o chão depois sumia. Por vez um senhor suado empurrava a alta porta, abandonando o bafo quente do verão na rua, e se ajoelhava a um canto da nave com o rosto comprimido entre as mãos. Alguns tremiam, giravam os olhos, murmuravam coisas. A maior parte ficava ali quieta uns instantes e então voltava à fornalha da vida com o rosto desafogueado. Mas todos repetiam, em determinado instante, a cena das palmas apertando o rosto. Dessa pose de constrição foi que José tirou Glória, esposa do pastor, em uma tarde de domingo. Depois de tempos a observando congelada na postura sublime, Manacá inquietou-se – supôs algum mal súbito, alguma dor, algum estranho desmaio a ter surpreendido em meio à reza.

“Irmã?”, ele pôs a mão no meio das costas dela, entre os ombros.

Manacá errou na hipótese do desmaio mas acertou na da dor – não súbita, era dor dessas guardadas, com suas quinas amordaçadas para que não gritassem nem fizessem gritar quem a ela albergava. José, a partir de então e por longo período, tornou-se devoto: tratou com a diligência que lhe era particular de atenuar a amargura daquela mulher, de mostrar a ela que existiam saídas para as mais ingratas angústias. Buscou com afinco dela tirar a pedra dolorosa que só em um diminuto istmo de tempo – na geografia localizada entre o início do amor e o orgasmo – parecia se diluir, quebrar-se como mica ao sol espalhando luzes. Era porém rocha aquela dor, e logo mais voltava com sua fúria mineral a atormentar Glória como se nunca tivesse sido lascada.

Para Manacá, a amargura de Glória era incompreensível. Abarcava tudo: o marido pastor com suas manias, a vida que ela deixara de viver, as coisas que fazia e que nunca eram boas o bastante, a estupidez da existência sem sentido e a definitiva surdez de Deus eram cacos que, por vez, ela deixava visíveis, mas o núcleo, a fonte da tortura em que Glória vivia jamais chegou à luz – ao menos não à luz que José via. Não que isso impedisse Manacá de exercer seu papel, de amá-la como possível, ainda que fosse extenuante a urgência do gozo tão só para salvá-la por instantes, tirá-la da masmorra e arrancar dela um sorriso que, sim, valia a semana.

A assiduidade de Manacá no templo, porém, passou a chamar atenção. Talvez tanto quanto a facilidade com que desenvolvia negócios na comunidade, munido de seu verbo fácil, sedutor e agora lotado de expressões retiradas da velha Bíblia. Tudo somado, não deveria ter sido surpresa o pastor chamar José a um canto, certa tarde, quando nem atrás do rabo de saia da esposa do ministro ele estava – simplesmente passava pela frente do templo. O coração de Manacá disparou. Tentou uma desculpa mas, frente à insistência do homem de Deus, o seguiu enxugando o bigode de suor. Dentro do prédio, o patriarca sentou a um dos bancos e aguardou que José se pusesse confortável.

“Eu vejo, Manacá”, o pastor por fim disse.

José Manacá puxou o lenço e enxugou novamente o suor.

“É um dom que me emprestou o Senhor”, o ministro continuou. “Vejo dentro das pessoas.”

Manacá inspirou e relaxou. Fosse o que fosse, não podia fazer grande coisa antes que o glérigo jogasse. Só sorriu, olhando nos olhos o pastor. E esperou.

“O que vejo em você é uma potencialidade. Grande, imensa, como Deus gosta de dar a homens que podem usá-la – para o bem ou para o mal, como tudo.”

O pastor falava com irritante lentidão, como se pregando. Após cada frase, aguardava avaliando o efeito. Manacá lembrou de uma das reclamações de Glória e deu a ela toda razão.

“Conversei com o bispo e ele concorda. Não é fácil nem rápido, mas gostaríamos de ter alguém como você mais operante em nossa comunidade.”

“Operante?”, Manacá perguntou.

“Pregando. Não é decisão de uma hora para outra. Pense nessa oportunidade, que não vem de nós mas do Senhor. Aqui só atuamos como instrumento Dele.”

“Está me convidando a ser pastor?”

“Deus está. Sirvo de voz”, o ministro ponderou. “Mas a disposição de seguir ou não o caminho oferecido por Deus é sua. Converse com sua esposa, com os amigos, com Deus. Veja o que dizem e o que seu coração diz. Isso não é negócio. É um chamado”, disse tomando as mãos de José Manacá – as mesmas mãos que, horas antes, se arredondavam nas curvas adúlteras da mulher do pastor.

Manacá saiu de lá tocado. Se sentia indecente. Com nojo de si. Voltou para casa, jantou com a esposa e os filhos e logo pôs os pequenos ao largo – é hora de dormir e não se discute, ralhou com a mais velha, que oferecia resistência. Depois puxou a esposa para o quarto decidido a jogar a toalha: dizer a ela que era um canalha, um estúpido carro puxado por um caralho desmiolado, fraco, falso, um idiota, verme na forma de pinto.

Não o fez.

“Sente aqui, delícia dos meus ais”, disse à mulher indicando a beira da cama. Então a empurrou contra o colchão, a girou sobre o eixo e tirou sua roupa sem cuidado, a galanteando nuca, ombros e costas com lábios e dentes e língua, o rosto dela comprimido nos lençóis, suas ancas e vulva elevadas aos céus com a mesma paixão que levara à esposa do pastor, a paixão que agora buscava satisfazer o desejo de redenção do pecado que Manacá cometera nem só uma nem só dez vezes.

A primeira pessoa a quem José Manacá segredou a proposta do clérigo foi Glória. A esposa do pastor gargalhou. Não é brincadeira, Manacá disse. Você é a única pessoa que me faz rir, ela falou. É sério, Manacá insistiu. As maçãs salientes, elevadas pelo riso, deixaram o rosto dela: então meu marido sabe, Glória considerou, então estamos perdidos. José riu: meu bem, perdido não existe. Ele sabe o que acontece, Glória disse em agudo, como vou voltar para casa? Mas você está em casa, Manacá se divertiu, isso que seu marido pede é diferente, quer crescer na igreja. Que Deus nos perdoe, ela disse sem ouvi-lo, levando as mãos espalmadas ao meio do colo nu. Não não, isso aqui é café pequeno para Deus, é caso que se resolve se acontece, José ponderou. Mas homem que ele percebeu, a esposa do ministro seguiu em agudo. Manacá cuidadosamente se retirou dela embaixo e tomou suas faces entre as mãos: o que seu marido percebeu é que nós estamos fazendo negócios. Nós quem, ela disse, eu e você? Glória, ele se deixou cair na cama, não leve isso a sério.

“Que?”, ela pergunta. “Enlouqueceu?”

“Juro, ele quer que o templo cresça. Sou o fator de crescimento.”

“Pensa em aceitar?”

“Ele sugeriu que eu pedisse opinião das pessoas. Só isso.”

? Então quero uma resposta”, Glória diz.

“Fica simples. Qual é?”

“Vai largar sua mulher e ficar comigo?”

Foi como terminou o affair com a esposa do ministro. E como, por conta de todas as dúvidas, Manacá decidiu que melhor seria considerar ambas as propostas – a do pastor e a de sua esposa – extremamente lisonjeiras mas igualmente arriscadas. No caso de Glória, mais ainda: no estado de espírito em que ela vivia, com os nervos doentes querendo romper a carne, péssimo resultado era o previsível. E não, Manacá jamais quis abrir mão da família, pela melhor aventura que fosse. Amava a mãe de seus filhos, tinha por ela um tipo de adoração e não a trocaria por ninguém. Isso sempre foi tão claro que espantava a José ouvir de Glória tal absurda ideia.

Por natural que, com essa decisão, não apenas as horas de intercurso com Glória como também a fase evangélica de Manacá e as aulas dominicais de religião de sua filha se tornaram, todas ao mesmo tempo, folha virada. O amor fora de casa minguou. Perdeu-o todo – melhor dizendo, quase todo. Tinha lá a ocasional vizinha maluca, mas de fato ela sempre fora um meteorito a passar no céu, um deixe-me ver se tolero atendê-lo agora de quando em vez. Normalmente ela o tolerava quando a filha de Manacá precisava algum reparo nas roupas, um botão caído ou a manga descosturada do vestidinho. José levava a peça para conserto, e a menina, eterno álibi, para o caso de necessitar alguma prova de medida. O resto era sexo tranquilo enquanto a criança brincava no quintal.

E, certo, havia a irmã da esposa. Não a irmã da esposa do pastor, mas da própria esposa de Manacá. Essa nem devia contar, pois que era não mais que sintoma da fraqueza de José, da fraqueza que ele sentia em seu espírito, de coisa que não se justificava embora mantida. Manacá começara a visitar os lençóis da cunhada há bem mais de dez anos, mas era mulher confusa aquela, um vai e vem cheio de culpa – dela, tenha-se claro – que o enfastiava. Verdade, o crime de abrir o caldeirão e cheirar o cozido lá dentro fora dele. Mas, também verdade, era ela quem reacendia o lume a cada vez que se separavam.

Delícia de mulher, voluptuosa. Seria perfeita não fossem as crises em relação à irmã traída. Como se houvesse traição. “Acha que vou machucar a mulher que amo?”, ele perguntava. Isso não era o bastante para a cunhada. Dizia que Manacá não valia grande coisa. Ameaçava: “vou contar a ela”. José sabia que não passava de retórica, mas as voltas exaustivas à mesma cena tornavam a cunhada mais fonte de irritação do que de prazer. Ele não achava exatamente certo deitar com a irmã da esposa, mas que podia fazer se ela se dispunha com tanta facilidade?

Na realidade, era simples em excesso. A filha mais nova de Manacá ficava lá embaixo, no sobrado confortável, brincando com os primos. No quarto do casal, a brincadeira voava rápida, quase profilática. A cunhada se livrava de José instantaneamente após saltar no negro precipício do prazer e corria ao banheiro, dali despachando ordens.

“Veja como estão as crianças que ouvi um grito”, dizia, ou “põe essa roupa que meu marido hoje chega cedo”, o tubo de perfume já na mão esterilizando o quarto.

“Como é que sua irmã não percebe”, Manacá certo dia disse à cunhada, “que as crianças só gostam de brincar juntas de tempos em tempos?”

“Do que fala, ser?”

“Eu a trazia para brincar quase todo dia. A menina é que quer, dizia. Então passo meses sem vir.”

“Quatro meses”, a cunhada conta.

“Quatro meses longe. E sem explicação a menina quer outra vez brincar com os primos todo dia. Vê que é tão óbvio?”

“Tem nada óbvio. Criança é assim mesmo. Bota essa roupa logo antes que alguma delas resolva subir.”

“Acho que ela sabe.”

“Quem sabe o que?”

“Sua irmã, minha mulher. Ela sabe. Pensa que é idiota? E você não teria vergonha de usar sua filha para acobertar um caso?”

“Que caso? Você tem problema, Zé?”, a cunhada, irritada, entra novamente no banheiro e de lá volta com o spray de desodorizante, empurrando o homem para fora do quarto.

Para fora do quarto ela o empurrava, mas não de suas coxas largas. Isso de certa forma combinava com o funcionamento de José, com seu modo de ser. Em todos seus negócios, Manacá era de uma repetição extraordinária, maníaca. E de uma fidelidade igualmente notável. Teve a cunhada no rol das amantes por 17 anos – exatos, sem tirar nem por. Media pelo aniversário da filha mais nova – a que se acusara de ter usado para acobertar aventuras amorosas. José sabia mas relevava a participação da filha em sua ativa vida sexual – participação indireta, tangente, por certo, e nem assim menos participante.

Ora, ele refletia, era questão de ver pelo lado certo. Jamais pensou em insinuar a filha como aluna de piano ou de religião para ter casos. Uma coisa dessas ofendia sua sensibilidade. Ocorria o contrário – a caçula precisava de um pouco de Deus e aconteceu do clérigo ter aquela bela e disponível mulher. Foi quase o mesmo com o piano e decerto a situação se repetiu nas aulas de tênis e de balé, ou ainda no reforço de matemática, que a menina por demais necessitou. Coincidências. E, por certíssimo, também culpa da mãe, que deixava a filha largada, exigindo de Manacá a excentricidade de funcionar como pai e mãe, eis aí uma crueldade, quando ele podia muito bem estar como os outros maridos jogando bola – ideia odiosa – ou cartas, ou tomando umas cervejas ou espiando as moças na calçada do café. Pois então, só o cenário é outro, lá estão as mulheres o tentando, tentando sua doença que, sim pelo amor de Deus sempre foi uma doença, mas se vê que muda o cenário e a filha não está presente – o restante permanece.

É ou não é?, Manacá perguntou ao psicanalista que um dia, quando bateu nos 40 anos, resolveu consultar. Não recebeu resposta. Perguntou diferente: o que pode haver de errado se todo mundo faz o mesmo? Sem resposta. E que pecado cometo se a casa está em ordem, cuido dos meus muito bem e nem deixo de amar nem de atender minha esposa, que pecado seria esse? O psicólogo mudo. José fez o mesmo por um minuto, olhou o relógio e levantou. Deu duas voltas na salinha. O silêncio o aborreceu. Tirou umas cédulas do bolso, as jogou no colo do terapeuta e saiu. Desistiu de pensar a respeito. Perda de tempo.

Mas agora, bem agora, voltam essas perguntas. Que pecado foi esse? E se nenhum, por que dói? E é dor isso, é dor a confusão? Lá embaixo há barulho de festa. A casa de Manacá, enfeitada, celebra o que ele acaba de saber que é o último aniversário da filha caçula ali. Ela se vai. Contou um instante atrás a José. Pai, vou embora. Pai, bato no teto da casa. Pai, não tem onde caiba aqui o que sou. Dezessete anos. E ele sabe. José Manacá conhece bem o cimento do qual é feito e enxerga a mesma mistura na filha: se ela diz que vai, não fica. Não será seu protesto de pai ou exigência de protetor do clã que a brecará. Lá embaixo o barulho de festa cresce e diminui como as estações se sucedem. Não há penitência nos barulhos da festa. O barulho não se importa com José e não parece perturbado por atrapalhar sua tentativa de, nu no escritório, entender o que se passa. É só a menina indo embora, ele pensa. Mas a faca ao lado do pênis, ambos sobre a mesa, diz alguma coisa diferente.

Categories: contos, Escritos
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